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17/06/2010 - 08h20

Artistas da Bienal de SP se destacam no Photoespaña 2010

MARIO GIOIA
Colaboração para o UOL, em Madri

Em sua 13ª edição, o Photoespaña se consolida como um dos principais festivais de fotografia em âmbito mundial e vem ganhando importância frente aos “concorrentes” na Europa, como o Les Rencontres de Arles -- mais tradicional e engessado, em sua 40ª edição -- e o Perpignan -- dedicado apenas ao fotojornalismo. O trunfo do Photoespaña é sua forte ligação com as artes visuais, o que faz, por exemplo, que artistas do porte dos britânicos Steve McQueen e Tacita Dean, duas das principais atrações da 29ª Bienal Internacional de São Paulo, que começa em setembro, participem destacadamente das exposições.

  • Helen Levitt / Divulgação Photoespaña

    Fotografia da norte-americana Helen Levitt (1913-2009) mostra Nova York na década de 1940. Levitt tem mostra com perfil retrospectivo em Madri, dentro do Photoespaña

“O fotográfico é o eixo do festival, que pode aparecer em diferentes linguagens, como o vídeo, a escultura, a pintura, o cinema e, obviamente, a fotografia”, afirma o curador do festival, Sergio Mah, que fica no posto até 25 de julho, quando acaba o conjunto de 69 mostras do evento, divididas entre as cidades espanholas de Madri e Cuenca, além de Lisboa.

Pela terceira vez à frente do Photoespaña, Mah, que definiu o tempo como o tema da edição deste ano, conseguiu que o festival ganhasse mais prestígio e fomentasse trabalhos de peso, feitos exclusivamente para o evento, como o conjunto de instalação, filmes e “esculturas ativas” do suíço Roman Signer sediado no Matadero madrileno.

Vídeos e escultura também feitos especialmente para o festival foram exibidos no Círculo de Belas Artes de Madri, onde o espanhol Fernando Sánchez Castillo exibiu a série de vídeos inédita “Episódios Nacionais. Tática”, no qual apresenta cegos identificando, por meio das mãos, esculturas equestres em homenagem ao ditador espanhol Francisco Franco (1892-1975) e uma “réplica” do ex-presidente, que faz parte do acervo do Museu de Cera da cidade. Obra de grande carga política, a série integraria facilmente qualquer Bienal ou exposição de perfil internacional.

Destaques do festival

  • Tacita Dean / Divulgação Photoespaña

    Fotografia de Tacita Dean, britânica que é uma das principais atrações da 29ª Bienal Internacional de São Paulo

O Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, um dos museus mais importantes da capital espanhola, organiza “Manhattan, Uso Misto”, com obras de 41 artistas, produzidas desde os anos 70 até hoje, sobre a cidade de Nova York. Com curadoria de Lynne Cooke (ex-Dia:Beacon) e Douglas Crimp, o recorte apresenta trabalhos de nomes como Sol LeWitt, Gordon Matta-Clark, Cindy Sherman, Joan Jonas, Catherine Opie e Bernd e Hilla Becher. O hibridismo é dominante na mostra, que apresenta mescla de pintura, fotografia e vídeo, nas peças de Donald Moffett, e as serigrafias com textos de Glenn Ligon, por exemplo.

No Reina Sofía, McQueen exibe mais um desconcertante filme, “Static”. Durante sete minutos, a Estátua da Liberdade é foco de uma câmera instável, que destaca pedaços do monumento, que chegam a sumir em contornos abstratos. As imagens são tomadas de um helicóptero, cujo barulho de asas aumenta e diminui de acordo com o andamento da filmagem. O ruído do vento também é utilizado, assim como a luz natural, que emoldura de diversas maneiras o horizonte de prédios de Nova York.

Outra exposição-chave no Photoespaña 2010 é “Entretempos – Instantes, Intervalos, Durações”, com curadoria de Mah e que tem como uma de suas principais participações a da britânica Tacita Dean, com dois filmes e uma série de fotografias. “Dia por Noite” é a peça de mais destaque, em que a artista filmou o ateliê de Giorgio Morandi (1890-1964) com seus objetos. No filme “Natureza-Morta”, Dean cria grafismos a partir das anotações de mesa do artista italiano. “Entretempos...” ainda tem mais dois artistas que estarão na Bienal de SP -- o belga David Claerbout e o dinamarquês Joachim Koerster -- e exibe trabalhos de outros nomes importantes da cena contemporânea, como Jeff Wall, Steven Pippin, Michael Snow, Hiroshi Sugimoto, Michael Wesely -- que tem individual até 7 de julho na galeria Oscar Cruz, em São Paulo -- e Erwin Wurm.

Wurm, aliás, é uma forte influência na obra da mexicana Alejandra Laviada, 29 anos, que protagoniza surpreendente mostra no conjunto El Águila. Ela foi a vencedora do Descubrimientos 2009, prêmio destinado a jovens artistas, e exibiu fotografias que têm intercâmbio com a escultura e com a pintura. “Wurm é alguém que gosto muito, mas há muito de Matta-Clark, de Rothko e dos minimalistas americanos nessa série ‘Fotoesculturas’”, conta ela, que morou e estudou em Nova York, mas hoje está radicada na capital mexicana.

A seção do Photoespaña em Madri ainda teve boas exposições de perfil mais retrospectivo, dedicadas a Moholy-Nagy (1895-1946) e Helen Levitt (1913-2009).

  • Lázlo Moholy-Nagy / Divulgação Photoespaña

    Foto de 1930 feita por Lázlo Moholy-Nagy integra mostra retrospectiva do artista húngaro

Em Cuenca, cidade medieval situada a 2h30 de Madri, a programação também foi bem selecionada, com destaque para jovens nomes. O mexicano Gerardo Suter, que participou da 23ª Bienal de São Paulo, em 1996, apresentou videoinstalações, fotografias e vídeos sobre a Cidade do México. A alemã Tamara Lorenz exibiu interessante série de fotografias que enfocam ambientes criados por ela, que cruzam as linguagens do desenho e da escultura.

Fotografia brasileira

Outra forte coletiva em Cuenca é “Batalha de Sombras”, dedicada à fotografia portuguesa dos anos 50. Um dos principais nomes representados é o de Fernando Lemos, que fugiu do país europeu em razão da perseguição salazarista e hoje mora em São Paulo. Sua fase surrealista, vista em mostras sediadas em museus como a Pinacoteca do Estado, tem dez imagens apresentadas na exposição, que também conta com registros de Carlos Calvet, Eduardo Harrington Sena e outros.

O coletivo paulistano Cia de Foto e o mineiro João Castilho estão presentes na coletiva “Encobrimentos”, no Instituto Cervantes, em Madri, com outros oito artistas latino-americanos. A mostra tem curadoria do cubano Juan Antonio Molina e do espanhol Alejandro Castellote, este um dos principais críticos de fotografia do mundo. “O que me surpreende na fotografia brasileira é a vitalidade, a potência, a sensibilidade. Muitos outros artistas poderiam expor aqui, mas tínhamos limitações no número de convidados”, afirma Molina. “O sertão do Cinema Novo e de Rosa [Guimarães] é reinventado por Castilho. Já o Cia de Foto traz o cotidiano pessoal para o centro de sua obra, afasta as leituras comuns que vêm à tona quando se pensa em Brasil”, diz Castellote.

Para o La Fabrica, misto de galeria, editora e produtora cultural que coordena o evento, o Photoespaña tem crescido em prestígio internacional por sua conexão com as cidades. “Envolver a comunidade e outras instituições tem sido fundamental para o êxito crescente do PHE”, diz Alberto Fesser, um dos sócios da empresa. “Aqui na Espanha é raríssimo uma empresa privada promover algo do tipo, e temos conseguido romper com esse paradigma. Ao mesmo tempo, estabelecemos parcerias em rede que são fundamentais para o bom andamento dos projetos.”

Mais informações em www.phe.es.

O jornalista Mario Gioia viajou a convite do Centro Oficial de Turismo Espanhol, da organização do Photoespaña, da Iberia e da Travel Ace.

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