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A história de três vítimas de abusos na infância que encontraram alento na arte

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Francesca Gillett

Da BBC News

04/05/2019 13h28

Uma poeta, um autor de peças de teatro e uma artista têxtil têm algo triste em comum: sofreram violência sexual na infância. Eles contaram à BBC como usar a criatividade os ajudou a superar o trauma.

Como pessoas que sofreram abusos sexuais na infância conseguem começar a se recuperar do trauma? A BBC conversou com três vítimas que contam como usaram seus interesses artísticos - poesia, teatro e atividades manuais - para canalizar suas dores. Uma especialista também explica o papel da arte na cura psicológica.

Jemma

Jemma passou a se dedicar à arte têxtil como uma forma de terapia para lidar com abuso sofrido na adolescência - TOM MADDICK/SWNS
Jemma passou a se dedicar à arte têxtil como uma forma de terapia para lidar com abuso sofrido na adolescência
Imagem: TOM MADDICK/SWNS

A casa de Jemma, no condado inglês de Lancashire, é repleta de risadas. Calorosa e boa de papo, Jemma se senta no sofá cercada de peças coloridas de sua própria autoria, enquanto parentes entram e saem.

O ambiente é bastante diferente da casa para qual ela era levada quando criança, onde era embriagada e sexualmente abusada por um homem que era oito anos mais velho do que ela.

"Não havia carpete ali, só piso", ela descreve o lugar. "As lâmpadas eram frequentemente quebradas, e não tinha nada na cozinha. Era vazia. No andar de cima só havia uma cama, sem lençóis. Não era um lar."

Ela tinha 15 anos quando começou a ser cortejada por um homem de 23 anos e conta que não percebeu o perigo.

"Achava que era apenas um homem mais velho me dando atenção, e acho que me sentia bem com aquilo", relata. "Ele me comprava coisas - cigarro, álcool - e me deu um bracelete que dizia ser importante para ele."

Ele a incentivava a beber e, em seguida, partia para o sexo. Se Jemma resistisse, ele não partia para a violência, mas "fazia comentários sarcásticos e ficava meio maldoso".

Jemma conta que tudo o que ela testemunhou naquela casa, incluindo o abuso de outras jovens como ela, "provavelmente carregará por um bom tempo".

O abuso só parou quando a mãe de Jemma descobriu o que estava acontecendo e avisou a polícia.

O abusador confessou e foi sentenciado a cinco anos de prisão por ter realizado sexo com uma menor de idade e também por pornografia. À época do julgamento, Jemma obteve um A* (equivalente a um dez) em artes no exame nacional que avalia os estudantes britânicos. Hoje, aos 24 anos, ela acaba de concluir um mestrado na área têxtil.

Foi na universidade que ela começou a se interessar por esse material e pela arte aborígene, que usa símbolos para contar histórias e para alertar pessoas.

Para seu projeto de mestrado, ela decidiu usar o simbolismo para contar a própria história e advertir outros a respeito do abuso infantil. Ela descreve a arte como uma "terapia".

Uma de suas peças é uma almofada com coisas que costumava ouvir de seu abusador e frases relacionadas a sua própria experiência.

"Todos os meus desenhos são claros e coloridos, porque quero que todos possam discutir o abuso sexual infantil abertamente, sem que seja um tópico a ser evitado", explica.

Jemma casou-se, teve filhos e diz estar em paz com seu passado, embora ainda se pergunte: "por que isso aconteceu comigo?".

Há muitos falsos estereótipos, diz ela, sobre o processo de abuso e as próprias vítimas. E mesmo sendo uma boa aluna e tendo vindo de um lar feliz e estável, acabou sendo vítima de um predador.

Ruby

Ruby encontrou na poesia uma forma de colocar para fora os sentimentos gerados pelo abuso sexual sofrido décadas antes  - Phil Coomes-BBC
Ruby encontrou na poesia uma forma de colocar para fora os sentimentos gerados pelo abuso sexual sofrido décadas antes
Imagem: Phil Coomes-BBC

Ela foi violentada pela primeira vez aos cinco anos de idade. Aos 10, era estuprada regularmente. Aos 13, engravidou.

"Foi muito difícil. Eu nem sabia direito o que era sexo", conta Ruby, que hoje tem 62 anos e mora em Londres.

"Ele (o abusador) vinha fazendo aquilo comigo havia um tempo, e eu não entendia o que aquilo significava. E daí comecei a perceber, por volta dos 11 anos, talvez nas aulas de educação sexual, que era daquele jeito que se fazia um bebê. Fui à biblioteca ler a respeito do sistema reprodutivo. E fiquei meio horrorizada quando entendi que era aquela a forma de engravidar. Quando minha menstruação parou, somei com o que havia lido."

Ruby procurou atendimento médico e realizou um aborto.

Sobre sua história de abuso, ela diz que se sentia "absolutamente sem poder" e, olhando para trás, acha que se desassociava de seu próprio corpo quando estava sendo abusada.

Mas o impacto daquilo permaneceu na sua vida mesmo anos depois de os abusos acabarem.

"Eu fiquei muito tempo sozinha, muito vulnerável", conta. "Era basicamente uma sem-teto, vivia de sofá em sofá. Estava acostumada à violência, e continuava a me colocar em situações de risco. Às vezes me pergunto como consegui sobreviver."

Sem se sentir capaz de tomar decisões por conta própria, ela diz que se sentia "exaurida" a cada relacionamento com homens.

Sua jornada rumo à recuperação foi longa, a ponto de só ter encontrado a terapia adequada cinco anos atrás, portanto décadas após os abusos terem começado.

Ruby havia sido uma boa aluna, com inclinação para redações, então buscou na escrita a sua cura.

"Queria escrever a minha história desde meus 20 e poucos anos", conta. "Sempre me senti em choque pelo que me aconteceu e continuo em choque, mais de cinco décadas depois. E acho que (o abuso infantil) é algo que precisa ser trazido à luz na sociedade, para que se diga: 'você acha que está em uma sociedade civilizada? Isto é não-civilizado'."

Em 2006, ela começou a escrever um livro e acabou se dedicando à poesia. Alguns de seus poemas foram publicados em antologias, e ela frequenta oficinas mensais de poesias.

Por que escrever? "É catártico. É para colocar tudo para fora. E é libertador, principalmente por eu ter tido que suprimir tanto. E tem algo (bom) em colocar tudo no papel. (O abuso) nunca te deixa, mas seu fardo fica mais leve."

Além disso, agrega, "quero ser parte de um movimento, uma energia, uma organização que ajude a reduzir ou a interromper o abuso sexual infantil. E isso não vai acabar se for mantido como segredo."

Ruby diz que foi um processo "agridoce" ter descoberto, já como adulta, que o abuso sexual infantil é mais comum do que ela imaginava.

"De um lado é horrível. De outro, como vítima, você não se sente tão sozinha."

Patrick

'Fazer a peça é catártico mas também um turbilhão. Parece ser como abrir uma ferida e limpá-la, mas em última instância ter essas conversas é um processo bastante curativo', diz Patrick, acima interpretando a si mesmo e a seu abusador  - BBC
'Fazer a peça é catártico mas também um turbilhão. Parece ser como abrir uma ferida e limpá-la, mas em última instância ter essas conversas é um processo bastante curativo', diz Patrick, acima interpretando a si mesmo e a seu abusador
Imagem: BBC

O monólogo Groomed (Aliciado, em tradução livre), de Patrick Sandford, conta a história de seu autor, que foi abusado sexualmente por um professor aos nove anos de idade, nos anos 1960.

Aos 66 anos, Patrick lembra como o ritual do abuso se desenrolava.

"Eu era obrigado a ficar atrás de uma mesa, diante de toda a sala, e ler (para os demais alunos)", conta. "Enquanto eu lia, ele (professor) colocava sua mão direita dentro da minha calça e brincava com meus genitais."

Era uma experiência "vergonhosa e terrível para uma criança de nove anos", diz. "Ele dizia que eu era muito esperto, que eu lia muito bem e que faria de mim o melhor da turma."

O abuso acabou quando Patrick foi "trocado" por uma criança mais nova. E esse processo também foi difícil. "Sabia que não era mais o aluno preferido dele. Foi devastador. Acho que, de muitas formas, foi tão catastrófico psicologicamente quanto o próprio abuso. Fez com que eu me sentisse sem valor algum. O que eu havia feito de errado? Eu me sentia horrendo e feio."

Durante 15 anos, Patrick não deixou que ninguém encostasse nele, exceto por apertos de mão ou beijos na bochecha.

"Eu fiquei completamente reprimido sexualmente. Me sentia horrendo. Tinha uma terrível dismorfia corporal. Costumava levar comigo um jornal, para poder esconder meu rosto."

Sua recuperação começou quando ele passou a trabalhar profissionalmente no teatro - uma espécie de tábua de salvação que lhe deu "motivo para viver".

Ele passou por terapia e começou a escrever a peça Groomed como um "exercício catártico".

"Li a peça para meu terapeuta em uma pequena sala e ele respondeu, 'você tem que interpretá-la'. Apresentei-a a três amigos e depois ao meu agente. As pessoas me diziam que eu precisava fazê-la (ao público). Não queria ser autoindulgente, porque é tão fácil escrever sobre a tristeza - todos temos desafios e tristezas."

Mas Patrick encarou e desafio e hoje realiza a peça interpretando não apenas seu próprio papel, mas o do professor.

"Não queria que fosse algo preto e branco - o homem que me abusou como o cara mau e eu como o bonzinho inocente. Acho que é mais complexo do que isso. Fazer a peça é catártico mas também um turbilhão. Parece ser como abrir uma ferida e limpá-la, mas em última instância ter essas conversas é um processo bastante curativo. De repente, você vê a sua experiência sendo acreditada por outras pessoas. É adorável conseguir ser ouvido."

Como a arte e a criatividade podem ajudar?

A dra. Rebekah Eglinton é a psicóloga-chefe da Investigação Independente sobre Abuso Sexual Infantil em curso no Reino Unido. Ela explica como colocar a criatividade em uso pode ajudar vítimas de abuso na infância.

"O que é realmente importante é o uso do simbolismo", diz ela. "Às vezes é muito difícil falar diretamente sobre 'mim' e sobre as coisas que parecem avassaladoras. Mas se eu consigo contar uma história pelo meio da poesia, por exemplo, conto o que me aconteceu indiretamente. É mais fácil de se comunicar. É como a história do (guerreiro mitológico grego) Perseu matando a Medusa (ela era tão terrível que quem olhasse para ela se transformava em pedra. Perseu a matou com um escudo, olhando para seu reflexo). Se você vê Medusa como o trauma, olhar diretamente para ela pode ser avassalador, porque o trauma é terrível. Mas se você olhar para ele indiretamente, fala o que até então era inominável."

Eglinton ressalta, porém, que o acompanhamento psicológico em casos de abusos deve levar em conta aspectos individuais das vítimas. "A recuperação e a jornada do trauma ao bem-estar - qualquer que ela seja - é totalmente individual."

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