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"Brasil já era paraíso gay muito antes de eu nascer", diz Pabllo Vittar

Elisa Kriezis/BBC
Imagem: Elisa Kriezis/BBC

Lígia Mesquita

Da BBC News Brasil, em Londres

03/05/2019 18h47

Pabllo Vittar, a cantora drag queen mais famosa do Brasil, está cansada. Dos voos longos de madrugada, de subir ao palco a cada três dias, das feridas causadas pelo coturno que compõe seu 'look', de chorar com ameaças de morte e ataques de ódio.

"Antes eu sofria muito, mas hoje acredito que quem me ataca queria ter a força que tenho, a garra que eu tenho para viver a minha vida do jeito que quero. Acabei aprendendo a filtrar. Hoje, leio um comentário falando 'morre, seu viado'. Antes, eu ia para o meu quarto chorar. Hoje (penso): mais um doido, mais uma pessoa sem noção jogando hate (ódio) na internet", diz em entrevista à BBC News Brasil em Londres, onde se apresentou na famosa (e lotada) casa noturna gay Heaven.

Elisa Kriezis/BBC
Imagem: Elisa Kriezis/BBC

Mas ela prefere não processar ninguém. "Acredito no ditado: que falem mal, mas falem de mim. E não vou perder meu tempo processando essas pessoas porque tenho certeza que muitas delas não terão nem dinheiro pra me pagar. Então, continuem falando, me dando ibope e botando meu nome nos Trending Topics do Twitter e do Google." Ela tem 8,4 milhões de seguidores no Instagram.

Os ataques ganharam força em agosto de 2017, quando Pabllo teve seu canal no YouTube invadido por hackers. O clipe da canção K.O, que hoje tem 334,4 milhões de visualizações, foi tirado do ar e em seu lugar foi exibida uma foto do então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL).

Hoje, ela debocha da recente declaração do agora presidente Bolsonaro, que disse que o Brasil "não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay".
"O atual presidente disse que não quer que o Brasil vire um paraíso gay, mas, baby, ele chegou atrasado, porque o Brasil é paraíso gay muito antes de eu nascer."

Carreira internacional

"Às vezes eu me sinto tão bonita que não quero tirar a maquiagem." Vestida com calça esportiva, camiseta, gorro e tênis, sem nada de maquiagem, a maranhense criada no Pará acabara de chegar de Dublin, onde havia se apresentado na noite anterior.

Elisa Kriezis/BBC
Imagem: Elisa Kriezis/BBC

No último mês, Pabllo fez outras apresentações também esgotadas na Argentina, no Chile, no México e em Portugal. Nesse período, passou rapidamente por Los Angeles, onde posou para a capa da revista Gay Times Magazine e participou do show do produtor e DJ norte-americano Diplo em um dos principais festivais de música do mundo, o Coachella.

Em 2019, também pela primeira vez, Pabllo se apresentará nas principais paradas gay nos Estados Unidos e no Canadá. Ela estará cantando nas ruas de Nova York, São Francisco, Los Angeles, Chicago, Boston, Miami e Toronto.

Ela busca uma carreira internacional sem abandonar o português. "É uma vontade gravar em inglês e espanhol. Mas não me vejo lançando um álbum inteiro em inglês jamais."

O show em Londres seria o último antes que ela pudesse voltar para sua casa em Uberlândia (MG) e comer seu prato favorito: frango frito feito pela mãe, Veronica Rodrigues.

Falar da mãe remete, segundo a cantora, a uma fase difícil da infância, quando morava em Santa Izabel do Pará. "Eu chegava em casa, minha mãe me abraçava e dizia que eu era incrível", fala. "Eu tenho mais uma irmã que é gay. Nunca soube o que é passar preconceito familiar dentro de casa. Minha mãe sempre fez um ambiente em casa para a gente ser quem a gente é."

Assim, pouco importa se falam dela como "a" ou "o" Pabllo. "Deus te deu um corpo e livre arbítrio. Quando tô montada, quero que me chame no feminino, mas não importo com masculino ou feminino. Para mim é só um artigo, sabe? O gênero vai muito mais além disso."

Sua irmã Pollyana se mantém ao seu lado na rotina de apresentações. Em Londres, é ela que ajuda a cantora a vestir o figurino, um macacão transparente com tatuagens desenhadas, e acessórios de couro por cima. A maquiagem fica a cargo da própria artista, que cola a longa peruca loira com ajuda de esparadrapos.

Em suas músicas, prefere continuar falando de festas, paqueras, amor, em vez de aderir a canções políticas, como fez nos últimos anos uma de suas musas, Beyoncé.

"Antes de a Beyoncé fazer essas músicas politizadas, ela lançou muito álbum 'farofada' (divertido, pop) para as gatas. Por enquanto, eu quero diversão. E meu ato político é estar no palco sendo drag, resistindo, sendo afeminada no país que mais mata LGBTQs no mundo. Isso é um ato político."

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