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A sinistra história dos "assassinos black metal" da Noruega

ARROW FILMS via BBC
Imagem: ARROW FILMS via BBC

Nicholas Barber

Da BBC Culture

2019-03-28T08:32:27

28/03/2019 08h32

O último filme de Jonas Åkerlund, "Lords of Chaos" (Senhores do Caos, em tradução livre), é uma obra biográfica de rock and roll com todo bate-cabeça que isso pode implicar. Mas também é uma obra dramática mais estranha que a ficção sobre assassinato, suicídio, automutilação, adoração ao diabo e uma série de ataques incendiários que escandalizaram uma nação inteira.

Ao contar os crimes absurdos cometidos por algumas bandas de black metal da Noruega e seus fãs no começo dos anos 1990, o filme provavelmente não atrairá o público de "Bohemian Rhapsody" - e houve até pedidos de grupos religiosos para banir o filme.

A história por trás do filme na verdade começa não na Noruega mas em Newcastle-upon-Tyne, no norte da Inglaterra, onde um trio de heavy metal chamado Venom gravou seu segundo álbum, "Black Metal", em 1982. Antes disso, a música já tinha uma longa história de flerte com imagens satânicas, desde "Hellhound on My Trail" de Robert Johnson até a clássica "Sympathy for the Devil", dos Rolling Stones e até nomes de bandas como Black Sabbath e Judas Priest.

Mas a banda Venom levou essa relação mais adiante.

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O trio de heavy metal Venom gravou um álbum em 1984 chamado "Black Metal" e a partir daí um novo gênero musical foi criado Imagem: Getty Images via BBC

"É difícil explicar para os jovens quão chocante Venom era nos anos 80", diz Chris Kee, um jornalista das revistas de música "Powerplay" e "Zero Tolerance". "Satã aparecia nas capas dos álbuns e era invocado praticamente em todas as músicas. Isso era um explícito pedido de aliança com o demônio. Eu lembro de ver o crucifixo em chamas no álbum de 1984, "At War With Satan", e me perguntando se isso estava indo longe demais".

O álbum "Black Metal" do Venom se tornou a fundação de um subgênero inteiro. Se você achava que thrash metal era muito comercial e death metal muito feliz, então black metal era a música para você. Nick Ruskell, um editor da revista "Kerrang!", define o estilo como "uma forma obscura e dura de heavy metal com um foco em extremismo e uma tendência satânica - apesar de que, se você perguntasse a cinco fãs uma definição, você sairia com sete respostas diferentes".

Com a exceção de Venom, as bandas que formaram a cena de black metal eram escandinavas. Na Suécia, havia a Bathory, cujo baterista era Jonas Åkerlund, o diretor de "Lords of Chaos". Na Dinamarca, havia Mercyful Fate. E, na Noruega, uma geração mais jovem de entusiastas de metal estava ouvindo e aprendendo.

Um desses entusiastas era Øystein Aarseth, um guitarrista que é interpretado no filme por Rory Culkin. Ele criou uma banda chamada Mayhem e, assim como os membros de Venom haviam criado nomes artísticos de terror para si - Cronos, Mantas e Abaddon - Aarseth escolheu um nome demoníaco da mitologia grega, Euronymous.

Quando ele recrutou um cantor sueco, Per Yngve Ohlin (nome artístico: Dead, ou "morto"), a banda se mudou para uma casa numa floresta para viver e ensaiar. Se a sonoridade sombria da guitarra se tornou o som arquétipo do black metal norueguês, foi Ohlin quem desenvolveu sua própria marca de showman. Ele usava maquiagem preta e branca de forma que seu rosto parecia uma caveira e se automutilava em shows do Mayhem. Mas sua preocupação com a morte não se restringiu a atitudes teatrais mórbidas. Em abril de 1991, Aarseth chegou em casa e encontrou o corpo de Ohlin. Ele havia se matado.

O círculo negro

Isso poderia ter sido o fim do black metal norueguês. Mas Aarseth viu a morte de Ohlin como uma chance de se promover como líder de uma cena musical realmente perigosa e diabólica. Antes de chamar a polícia, ele saiu para comprar uma câmera descartável para que pudesse fotografar o corpo de Ohlin.

Ele então resolveu criar sua própria gravadora, Deathlike Silence Productions, e abriu uma loja de discos em Oslo chamada Helvete (inferno em norueguês). Seus sócios mais próximos seriam "o círculo negro", disse ele, e somente esse grupo poderia entrar no santuário do black metal, no caso um quarto úmido no porão da loja.

Um dos principais membros do círculo negro era Kristian "Varg" Vikernes, um adolescente de Bergen que preferia ser chamado de Count Grishnackh. Ele rapidamente construiu uma reputação por fazer as coisas sobre as quais Aarseth apenas falava.

Enquanto Aarseth trabalhava para finalizar o álbum de lançamento de Mayhem, Vikernes gravou vários álbuns solos sob o nome Tolkienesco de Burzum. E, enquanto Aarseth dava entrevistas sobre espalhar o ódio e o medo, Vikernes começou a atear fogo às históricas igrejas de madeira da Noruega.

Em 6 de junho de 1992, a Igreja Fantoft foi queimada. Vikernes nomeou seu próximo EP de "Aske" (cinzas em norueguês), e usou uma foto da carcaça queimada da igreja na capa. Cada cópia vinha com um isqueiro grátis.

Os fãs escandinavos de black metal entenderam a deixa e dezenas de outras igrejas foram queimadas. Alguns tinham crucifixos invertidos e o número 666 fixado nas suas ruínas.

Satanismo? Talvez sim, talvez não. Com o passar dos anos, vários músicos de black metal se tornaram estudantes aplicados de ocultismo, mas em 1992 eles se preocupavam mais em parecer sinistros e subversivos.

"A maioria dos caras do black metal queriam parecer o mais demoníaco possível", diz Kevin Hoffin, autor do livro "TRVE: The Norwegian Black Metal Scene" ("TRVE: A Cena Norueguesa de Black Metal"), "por isso que eles promoviam satanismo e inversões de tenets da Bíblia. Os tabloides se esbanjaram já que haviam achado uma maneira de continuar o pânico moral da "música satânica'" que havia perseguido Judas Priest e Ozzy Osbourne na década passada. Mas era um satanismo infantil e nada sincero. O incêndio às igrejas, por exemplo? É fácil queimar uma igreja feita de madeira."

Quanto a Vikernes, ele diz que os ataques eram um protesto contra religiões do Oriente Médio que haviam substituído seus deuses pagãos. Parecia que sua crença estava mais próxima do fascismo que do satanismo. E ele não estava sozinho. No documentário de Aaron Aites e Audrey Ewell sobre o black metal norueguês, "Until the Light Takes Us" ("Até Que a Luz Nos Leve"), é impressionante a frequência com que os entrevistados usam retórica racista e homofóbica.

E a homofobia não era restrita ao discurso de ódio. Em agosto de 1992, outro amigo de Aarseth, Bård Eithun (ou "Faust"), matou Magne Andreassen, um homem gay que se aproximou dele em um parque em Lillehammer. Vikernes ficou tão contente que se gabou para jornalistas do jornal Bergens Tidende de que ele sabia quem era o responsável pelos ataques e o assassinato. Um artigo de primeira página foi publicado em janeiro de 1993 intitulado "Nós ateamos os fogos".

Dois meses mais tarde, a principal revista de rock da Inglaterra, "Kerrang!", publicou uma capa sobre os mesmos eventos. Foi escrita por Jason Arnopp, hoje roteirista e autor do livro "Os Últimos Dias de Jack Sparks". Ele também aparece em "Lord of Chaos", interpretando ele mesmo na juventude.

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O ator Rory Culkin interpreta Øystein Aarseth, o Euronymous, da banda Mayhem Imagem: ARROW FILMS via BBC

"Quando eu entrevistei Euronymous no telefone na época", diz Arnopp, "ele falava em um tom frio e apressado, como se estivesse tentando parecer esse personagem obscuro e misterioso. Sua obsessão com sua imagem é explorada em 'Lords of Chaos': eram adolescentes que queriam controlar a forma como o mundo os via e ganhar notoriedade".

Eles conseguiram. A matéria publicada na "Kerrang!" Fez com que fãs de rock de todas as partes do mundo buscassem o black metal norueguês, lembra-se Ruskell. "Eu li sobre eles quando tinha 12 anos", diz ele, "e em uma cena musical em que era realmente assustador, com pessoas queimando igrejas, matando outras pessoas e querendo se alinhar a satã. Por ter crescido em um lar protestante, eu queria muito conhecer o som dessas bandas."

A infâmia de Vikernes e Aarseth alcançou um novo e ainda mais sinistro nível em agosto de 1993. Convencido de que Aarseth planejava matá-lo, Vikernes foi até o apartamento de Aarseth no meio da noite e o matou. Em maio de 1994, ele foi condenado a 21 anos de prisão pelo assassinato de Aarseth e pelos incêndios nas igrejas. Ele tinha 21 anos.

Naquele mesmo mês, o álbum inaugural de Mayhem finalmente foi lançado. Nele, havia letras compostas por Ohlin, guitarra de Aarseth e baixo de Vikernes em uma grotesca raridade: um álbum em que um colaborador se matou, outro foi assassinado e o terceiro era o assassino.

A saga dos chamados 'assassinos black metal' é tão assustadora que é difícil de processar até mesmo hoje. Está ligada à psiquê do país que nos deu Edvard Munch e uma série de maravilhosos romances nórdicos? Ou será que o diabo realmente tinha as melhores músicas?

"Eu não acho que a história seja tão incrível quanto pareça de primeira", diz Kee. "Se você pegar um grupo pequeno de homens jovens, um com problemas óbvios de saúde mental, outro um líder carismático, todos tentando fazer parte de algo e insatisfeitos com a vida e joga um pouco de ocultismo ali, um nível baixo de fama e algumas brigas internas de poder? você tem 'O Senhor das Moscas'".

Ele se refere a um romance escrito por William Golding, vencedor do Prêmio Nobel em 1983, que retrata a regressão à selvageria de um grupo de crianças inglesas que ficam presas em uma ilha sem a supervisão de adultos.

O fator mais significativo pode não ter sido o satanismo mas a imaturidade. Nas fotos dos anos 1990, os músicos magros em suas jaquetas de couro e suas maquiagens de Halloween parecem estar copiando Kiss e Alice Cooper mas sem o mesmo orçamento ou senso de humor. E por mais iconoclásticos que se dissessem, eles seguiam os costumes da sociedade norueguesa quando lhes era conveniente.

As gravações do álbum "Burzum" de Vikernes foram financiadas por sua mãe, enquanto os pais de Aarseth bancavam sua loja.

Åkerlund descreveu "Lords of Chaos" como "um filme sobre idiotas" e "jovens idiotas fazendo coisas idiotas". Arnopp acredita que "a história é uma combinação de pressão de grupo, competição adolescente de cidade pequena e a vontade de se rebelar contra a religião organizada". E Hoffin vê os assassinatos e os incêndios como "uma competição macabra que saiu do controle".

Mas por mais reconfortante que possa ser resumir Aarseth e seus amigos como moleques privilegiados que foram pegos em brincadeiras macabras e individualistas, seus crimes foram reais.

E, para quem estiver interessado, seus álbuns ainda estão disponíveis. "Foi trágico, também, porque não lhes faltava talento", diz Arnopp. "Se eles realmente estivessem motivados pela necessidade de atrair atenção para si em um nível global, então sua música eventualmente teria conquistado isso por mérito".

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