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Criador de herói brasileiro da Marvel sonha 'fazer justiça' com personagem

Super-herói brasileiro criado para modernizar o universo de personagens da Marvel nos anos 80 - Panini Editora
Super-herói brasileiro criado para modernizar o universo de personagens da Marvel nos anos 80 Imagem: Panini Editora

Fernando Duarte

Da BBC Brasil, em Londres

09/05/2015 13h15

A rigor, Mancha Solar não foi totalmente ignorado pela onda de filmes inspirados em super-heróis que revolucionou a indústria cinematográfica desde a última década.

Mas o "tempo de tela" do único representante brasileiro no Universo Marvel não chegou a dois minutos: Mancha Solar morre logo no início de X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (2014). E o personagem ainda foi interpretado por um ator mexicano, Adan Canto.

Por mais que adote um tom diplomático, até porque trabalha para a Marvel, Chris Claremont não parece ter digerido o uso cinematográfico de um de seus "bebês". O roteirista americano, de 64 anos, é o criador do Mancha Solar, um personagem que ocupa um espaço surpreendentemente especial na memória de Claremont, apesar da gama de personagens em seu currículo. Claremont é um dos mais cultuados escritores do meio, especialmente pelas quase duas décadas que passou cuidando das histórias dos X-Men.

E embora seja conhecido por seu trabalho com a Marvel, o americano também trabalhou com dois "mitos" da editora rival, a DC Comics: Batman e Super-Homem. Estima-se que Claremont tenha vendido meio bilhão de revistas em todo o mundo.

Redenção

"O que se pode fazer? Quando há essa transição dos quadrinhos para a tela, o uso dos personagens acaba ficando diferente. Há uma variedade extraordinária de personagens no mundo dos X-Men, por exemplo, fica difícil montar uma história usando todo mundo. E isso leva a coisas como Bobby desaparecer logo no começo do filme", diz Claremont, em entrevista exclusiva à BBC Brasil, por telefone.

"Bobby" - ou "Beto" - é Roberto da Costa, a identidade secreta do Mancha Solar. O personagem foi criado por Claremont no início dos anos 80, como parte de um pacote de personagens para renovar o chamado "universo mutante" da Marvel. Um grupo de jovens heróis que ficaria conhecido como os Novos Mutantes. E que incluía, por exemplo, uma refugiada vietnamita ao lado do brasileiro.

"A premissa dos X-Men era ser uma escola para jovens mutantes e o público de então tinha visto os mesmos personagens por quase 20 anos. Eu também quis sacudir as coisas um pouco, estava cansado de heróis brancos e americanos".

Mancha Solar fugiu do molde: filho de um empresário negro brasileiro e de mãe branca americana, o personagem foi construído após uma pesquisa de Claremont sobre o Brasil.

Nada extremamente vanguardista - Roberto, afinal, descobre seu poder, de absorver energia solar e basicamente funcionar como um pequeno sol, durante uma partida de futebol escolar no Rio, quando sofre bullying. Mas Claremont olhou para o Brasil numa época em que o país estava longe da visibilidade internacional dos tempos de hoje. "Para mim, era uma escolha natural. Queria dar um ar mais global para os Novos Mutantes, afinal. Sabia que o Brasil era um país com uma tremenda variedade de tipos físicos, queria construir Beto como algo o mais realista possível", completa Claremont.

Ao contrário do Brasil, onde apareciam como pano de fundo em histórias dos X-Men, os Novos Mutantes tiveram nos EUA sua própria revista até 1991, mesmo ano em que um casamento de 17 temporadas de Claremont com o "universo mutante" teve uma interrupção. Ele não voltou a trabalhar regularmente com seu herói brasileiro. Tentou não prestar muita atenção no que outros roteiristas fizeram com o personagem. Mas não aprovou reviravoltas na "vida" do Mancha Solar. Em especial sua integração aos Vingadores, o mesmo grupo de heróis da mais recente milionária franquia no cinema.

"Não costumo ler os gibis porque esses personagens ainda são todos meus filhos. Mas fiquei sem entender por que Beto foi parar nos Vingadores. Não achei interessante, algo que chamasse a atenção para o personagem. Mas ao mesmo tempo isso me deu vontade de trabalhar uma dia com Beto de novo", conta Claremont.

E o desejo passa por uma redenção cinematográfica do super-herói brasileiro.

"Adoraria ter a chance de voltar a trabalhar com Bobby. Inclusive no cinema. Seria uma chance de explorar mais um personagem interessantíssimo por causa de todos os conflitos internos e externos na sua vida. Quem sabe essa chance não aparece num filme sobre os Novos Mutantes. E em breve?", brinca o roteirista, deixando um certo mistério no ar.