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Documentário sobre impeachment de Dilma Rousseff é exibido em Berlim

Divulgação
Cena de "O Processo", documentário sobre o impeachment de Dilma Rousseff Imagem: Divulgação

De Paris

21/02/2018 14h52

Em abril de 2016, a cineasta Maria Augusta Ramos decidiu filmar por duas semanas os momentos de turbulência política vivida pela então presidente Dilma Rousseff. Não imaginava que acabaria fazendo um documentário exclusivo sobre o 'impeachment' de Dilma, tal como viveu sua defesa.

"O processo" foi apresentado nesta quarta-feira (21) no Festival de Cinema de Berlim. Antes da exibição do filme, um grupo de cerca de 20 pessoas se reuniu na Potsdamer Platz, praça próxima ao Palácio do Festival de Berlim, em um ato simbólico a favor de Lula e contra o impeachment de Dilma.

O ato, organizado por redes sociais, era composto sobretudo por brasileiros que que moram na Alemanha, além de moradores da Suíça e do Brasil.

No ano passado, no mesmo lugar, vários cineastas brasileiros alertaram para a suposta ameaça que representava para a cultura o governo conservador de Michel Temer, que, como vice de Dilma, assumiu a presidência após sua destituição.

Cerca de 300 personalidades da sétima arte brasileira pediram, então, em uma declaração, o apoio dos representantes do cinema internacional, da mesma forma que, meses antes, a equipe do filme "Aquarius", dirigido por Kleber Mendonça, denunciou no tapete vermelho do Festival de Cannes o que consideravam um golpe de Estado.

O documentário de Maria Augusta mostra como a equipe que defendeu Dilma, acusada de maquiar as contas públicas, preparou sua estratégia e lutou até o final, apesar de estar cada vez mais consciente de que a destituição, apoiada pela oposição, seria inevitável.

Sem voz em "off" nem entrevistas, o documentário de mais de duas horas de duração mostra, além disso, as conversas de corredor, os encontros de dirigentes políticos, assim como os momentos de tensão nos bastidores e nas ruas, sintoma do clima de polarização que tomou conta dos brasileiros.

Artífices da defesa ante à comissão especial que conduziu o processo de impeachment, o advogado José Eduardo Cardozo e a senadora Gleisi Hoffmann - atual presidente do PT - se transformam assim em protagonistas de um documentário em que Dilma é onipresente, mesmo que seja apenas mostrada falando à imprensa ou fazendo pronunciamentos.

"Faço filmes para entender a realidade" e "o que estava acontecendo no Brasil me preocupava muito", afirmou Maria Augusta à AFP.

Ela é autora de uma trilogia sobre o sistema judicial de seu país e vencedora de vários prêmios no exterior.

Maria Augusta explica que a defesa de Dilma concedeu um amplo acesso ao processo. "Conheciam meu trabalho e confiavam em mim. Houve poucas exceções por parte de alguns senadores que optaram por deixar uma reunião quando eu entrava com a câmara", explica a cineasta, enfatizando que a oposição preferia não se deixar filmar.

Ela assegura, no entanto, que a todo momento pôde trabalhar com independência total.

Seu filme não pretende "mudar a opinião de ninguém", segundo ela.

"Não sou uma ativista, caso contrário faria filmes mais fáceis", afirma, definindo sua obra como essencialmente um documento histórico.

Repercutindo o mal-estar expressado no ano passado por seus colegas na Berlinale, Maria Augusta concorda que a situação política, econômica e cultural piorou desde a posse de Temer, que pôs fiz a mais de 13 anos de governo de esquerda.

"A direita e a extrema-direita ganharam muita força, propagando suas ideias (conservadoras) na sociedade", lamenta, dando como exemplo a proibição de uma exposição de arte por seu conteúdo sexual, o que causou um grande debate.

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