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Página Cinco

Nada como um livro sobre livro para reavivar o amor pelos livros

A Biblioteca - Elizabeth Shippen Green
A Biblioteca Imagem: Elizabeth Shippen Green
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

26/08/2020 09h57

Acontece com todo leitor. Às vezes olho para um livro, olho para outro, tento ler alguma coisa, mas bate um bode. Tem horas que o prazer pela leitura some e Graciliano Ramos algum é capaz de me segurar em suas páginas. Sem dramas. Jogo um videogame, passo raiva com o São Paulo, fico perdido com "Dark"... Logo a vontade de ler volta. Mas nem sempre.

Começo a me preocupar se a relação com os livros fica estremecida por mais de um dia. Até pelas obrigações, sem chances de ficar muito tempo longe de contos, romances, biografias e afins - e ler algo com má vontade só não é pior do que ler o Menino do Acre. Nesses momentos, no meu caso, um tipo específico de obra funciona que é uma maravilha para reavivar a paixão: justamente livros que falam sobre livros.

Passei por isso tem pouco tempo. Foi a chance para, com uma cerveja por perto numa tarde de preguiça, passear por alguns títulos bem interessantes lançados recentemente. O grandalhão "William Morris - Sobre as Artes do Livro" é lindo. Faz parte de uma coleção que a Ateliê Editorial vem publicando sobre precursores e nomes relevantes da história da editoração. Neste volume, óbvio, temos o trabalho de William Morris, designer dos mais famosos do século 19. Quem cuidou da edição, que faz um bom apanhado da história do livro na Inglaterra, foi Gustavo Piqueira, artista que vem se destacando há algum tempo em nosso mercado editorial.

Outra joia da Ateliê (esta feita de peças pequenininhas e simpáticas, que emulam acabamento artesanal) é a "Coleção Bibliofilia", editada em parceria com a Edições Sesc São Paulo. Os três títulos da série acompanharam mais algumas boas goladas e me ajudaram a lembrar um pouco de tudo o que já vivi entre páginas. "O Que É Um Livro", de João Adolfo Hansen, repassa a história do livro e mostra ao leitor por que estamos falando sobre um objeto digno de veneração. "Da Argila À Nuvem", de Yann Sordet, faz um tour por milênios para analisar as diferentes formas de registrar informações. Já "A Sabedoria do Bibliotecário", de Michel Merlot, começa com esta maravilha:

Rua do Escritor - Reprodução - Reprodução
Rua do Escritor
Imagem: Reprodução

"À figura do sábio doido apõe-se a do bibliotecário sábio. Por que seria sábio o bibliotecário? Por saber que jamais será sábio, pois, ao abrir um livro, todos os demais permanecerão fechados e ele, bibliotecário, sabe que jamais conseguirá abrir todos os livros. O bibliotecário ama os livros como o marinheiro ama o mar. Não é necessariamente exímio nadador, mas sabe navegar e sabe também que não é a nado que se alcançam as maiores distâncias. O oceano do conhecimento que inebria todos os sábios torna o bibliotecário modesto".

Nessa tarde preguiçosa em que algumas cervejas e muitas páginas reavivaram minha vontade de mergulhar na pequena biblioteca que tenho em casa, me detive por mais tempo em um livro específico. Falo de "Rua do Escritor", do Henrique Rodrigues, publicado pela Malê. O subtítulo da obra resume bem sua proposta: "Crônicas Sobre Leitura". A ideia era ler um texto ou outro, mas, quando notei, no meu ir e vir aleatório já tinha curtido quase todas as 54 histórias livrescas da coletânea.

Não é de hoje que elogio o autor. "O Próximo da Fila" (Record) me parece um romance precioso para despertar nos jovens o prazer pela leitura. Já "Previsão Para Ontem" (Cousa), de poemas, ficou entre as minhas melhores leituras do ano passado. Nas crônicas, Henrique, nome importante na luta por espaços para a literatura no país, evidencia uma de suas facetas mais admiráveis: a forma leve e bem-humorada com a qual lida com a arte e tudo o que a cerca. Não há espaço para a sisudez nos textos de Henrique, que sabe que os livros podem conviver numa boa com mesas de sinuca e jogos de videogame. É ótimo ler sobre Raduan Nassar, Ferreira Gullar, Adélia Prado e mais um time de respeito pelas palavras do carioca. Melhor forma para enxotar o bode que às vezes empaca outras leituras.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL