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Michel Houellebecq sobre H. P. Lovecraft: "Sempre foi racista"

Lovecraft - Arquivo
Lovecraft Imagem: Arquivo
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

20/08/2020 09h41

"Lovecraft de fato sempre foi racista".

As palavras são de Michel Houellebecq. Antes de o francês lançar títulos como "O Mapa e o Território", "Submissão" e "Serotonina" e virar um dos escritores mais admirados e controversos do mundo, ele se debruçou sobre a obra do norte-americano H. P. Lovecraft, nome fundamental para o terror na literatura, figura cujo nascimento completa 130 anos hoje. A partir da análise que nasce o ensaio "H. P. Lovecraft: Contra O Mundo, Contra a Vida", publicado por Houellebecq em 1991 e recém-lançado no Brasil pela Nova Fronteira (tradução de Maria Luiza Borges).

Um dos assuntos abordados é o ódio racial presente na vida e na obra do autor de "O Chamado de Cthulhu" e "O Sussurro das Trevas". Houellebecq avalia que o ambiente onde o norte-americano cresceu (em meio à burguesia, protestante e puritana, da Nova Inglaterra) foi o responsável por incutir em Lovecraft o racismo que se acentuou quando o escritor mudou para Nova York. A convivência com o diferente despertou "o ódio, a repulsa e o medo" e transformou seus preconceitos numa "autêntica neurose racial".

Conviver com negros nas ruas, nos parques, no metrô apertado e nas filas para procurar um emprego foram, segundo o francês, decisivos para que Lovecraft descobrisse que o mundo era bem mais complexo (e duro) do que supunha. Nesse ponto que a ignorância transborda. "Não se trata mais então do racismo bem-educado dos brancos, anglo-saxões e protestantes, é o ódio, brutal, do animal encurralado, obrigado a compartilhar sua jaula com animais de uma espécie diferente, e temível", aponta Houellebecq, que ainda resgata trechos de cartas escritas pelo norte-americano para indicar como esse racismo foi levado à literatura. Numa dessas correspondências, Lovecraft descreve desta forma pessoas diferentes do que enxergava no espelho:

Contra o Mundo, Contra a Vida - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

"As coisas orgânicas que habitam essa horrível cloaca não poderiam, mesmo torturando-se a imaginação, ser qualificadas de humanas. Eram monstruosos e nebulosos esboços do pitecantropo e da ameba vagamente modelados em algum lodo fétido e viscoso resultante da corrupção da terra e vertendo nas ruas imundas e sobre elas, entrando e saindo das janelas e das portas de uma maneira que só fazia pensar em vermes invasores, ou em coisas pouco agradáveis saídas das profundezas do mar". Para Houellebecq, essa "visão alucinada", que na carta se alonga por mais algumas linhas, dá origem a descrições de "entidades pesadelares que povoam o ciclo de Cthulhu".

O racismo de Lovecraft também fica escancarado numa correspondência endereçada à tia: "Nas estações balneárias do Sul não se permite aos negros ir às praias. Você pode imaginar pessoas sensíveis se banhando ao lado de uma cambada de chimpanzés gordurentos?". Homem que cresceu na primeira metade do século 20 e que acompanhou a ascensão do fascismo e do nazismo, não surpreende que o escritor, morto em 1937, tenha manifestado simpatia pelas ideias de Adolf Hitler. Num outro registro, afirma desejar uma guerra para que "mostremos nossa força física como homens e como arianos" e "levemos a cabo uma deportação científica em massa à qual não se poderá subtrair e da qual não se retornará".

Houellebecq finaliza essa passagem de "Contra o Mundo, Contra a Vida" analisando como o racismo e a forma como ele impactou na personalidade de Lovecraft moldaram sua obra. Lembra do pensador francês Antonin Artaud para afirmar que a crueldade com os outros só gera arte medíocre, interessante mesmo é ser cruel consigo. Segundo Houellebecq, a maneira como Lovecraft se sentia atormentado por tudo o que era diferente de si é transposto para uma literatura onde indivíduos muito parecidos com ele são sempre colocados como vítimas:

"O papel de vítima é geralmente desempenhado em suas novelas por um professor universitário anglo-saxão, culto, reservado e bem-educado. Mais propriamente alguém como ele de fato. Quanto aos carrascos, aos servos dos cultos inomináveis, são quase sempre mestiços, mulatos, crioulos 'da mais baixa espécie'".

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