PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Página Cinco


Bloomsday, 'Ulysses' e mais um fracasso na minha conta

James Joyce - Arquivo
James Joyce Imagem: Arquivo
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

16/06/2020 09h15

Dia 16 de junho. Bloomsday. Tiro meu exemplar de "Ulysses" da estante e releio as primeiras linhas. "Solene, o roliço Buck Mulligan surgiu no alto da escada, portando uma vasilha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha. Um roupão amarelo, com cíngulo solto, era delicadamente sustentado atrás dele pelo doce ar da manhã. Elevou a vasilha e entoou: 'Introibo ad altare Dei'".

Folheio o calhamaço com mais de 1100 páginas. Para minha surpresa, encontro o marcador ali entre a 462 e a 463. Não lembrava de ter ido tão longe. Na minha memória, havia desistido do clássico de James Joyce bem antes, por mais empolgado que estivesse com toda a expectativa criada pela tradução de Caetano Galindo - dá gosto ver o cara falando sobre o trabalho feito para a Penguin/ Companhia. Faço parte do gigantesco time de leitores que alçaram o incensado à condição de um dos livros mais abandonados de todos os tempos (tem até levantamento do Goodreads apontando isso, só procurar).

"Ulysses" faz um paralelo entre o homem comum e o herói da "Odisseia", de Homero, ao narrar com minúcia um dia (16 de junho, claro) na vida de Leopold Bloom. Lançado no começo dos anos 1920, virou um dos livros mais importantes da literatura no último século. Angariou fãs pelo mundo. Em tudo que é canto há leitores se reunindo, ainda que virtualmente, para festejar Leopold em seu Bloomsday. Na Irlanda as festas costumam ser boas. Adoraria estar por lá tomando vários pints de Guinness e falando sobre Bloom. Sim, larguei o clássico pela metade, mas aposto que muita gente que celebra a obra também não chegou ao seu fim. Acontece. Vale a diversão.

No meu currículo de leitor, "Ulysses" entra como exemplo de fracasso absoluto. Há diferentes fracassos. "O Vermelho e o Negro", do Stendhal, e "Um Conto de Duas Cidades", do Dickens, por exemplo, são fracassos comuns; em meio a tantas leituras que faço para pagar as contas, me afastei aos poucos dessas histórias, que entraram numa espécie de hibernação. Coisa parecida aconteceu com "Em Busca do Tempo Perdido", do Proust: tiquei "No Caminho de Swann" e cheguei longe em "À Sombra das Raparigas em Flor". Fiz uma pausa, e essa pausa já dura uns oito anos. É preciso ficar atento para que um livro não hiberne durante tanto tempo. Fracasso? Sem dúvidas. Precisarei de muita disciplina para dar conta de terminar a longa série do francês.

Se o leitor não se entende com um título qualquer, isso é problema do autor. Agora, quando o leitor não se entende com um livro consagrado, daí o problema é do leitor mesmo. Entre os dois extremos, larguei mão de "Graça Infinita", do David Foster Wallace. Ele chegou ao Brasil como leitura incontornável para quem deseja a carteirinha de intelectual. Tentei, juro. Não fui longe. Conheço bons leitores que passaram pelo mesmo, mas normalmente o povo tem vergonha de assumir isso em público. DFW e "Graça Infinita" têm sua reconhecida importância para a literatura, entretanto não está no patamar de um Proust, então estamos diante de um fracassinho.

Conforme dizia, "Ulysses" entra na categoria de fracassos absolutos: aqueles livros que pegamos empolgados, começamos a ler, não entendemos quase nada e vamos seguindo. Paramos, tomamos um café, jogamos uma bola, e persistimos. Tentamos, tentamos. Daí chega a hora em que olhamos para alguma página aleatória sem fazer ideia do que está acontecendo de verdade. Dizemos no íntimo: desencana. Fechamos o exemplar e vamos cuidar da vida, até que anos depois o retiramos da estante para descobrir que paramos ali pela página 460.

Só que sempre há uma segunda, terceira ou quarta chance. Há poucas semanas, no início da pandemia, contei para vocês que me entendi com "Cem Anos da Solidão". A obra máxima de Gabo estava na minha prateleira de fracassos absolutos, o nicho do vexame. Só foi mudar de condição na quinta tentativa de compreender o que se passava em Macondo - e que livro, amigos, que livro! Não sei quando, mas me entenderei com "Ulysses" também, podem confiar.

Você pode me acompanhar também pelas redes sociais: Twitter, Facebook, Instagram, Youtube e Spotify.

Página Cinco