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É ótimo quando JK Rowling dá paz para Harry Potter e volta a ser escritora

J. K. Rowling - Debra Hurford Brown/ J.K. Rowling
J. K. Rowling Imagem: Debra Hurford Brown/ J.K. Rowling
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

03/06/2020 08h54

Existe uma escola de magia dedicada a estudantes da América do Sul e, para a alegria dos nossos ufanistas, ela fica no Brasil, em algum canto da Amazônia. Alvo Dumbledore é homossexual. A origem da família de Harry remonta ao século 12 e o garoto é um xará de seu bisavô.

Os sete livros que somam mais de 3.200 páginas na edição em português não foram suficientes para J. K. Rowling dar forma final ao universo de Harry Potter. Como acompanhamos há anos, vira e mexe a autora brota nas redes mencionando algum detalhe que jamais passou da cabeça para o papel enquanto escrevia a saga. Fãs bitolados tratam essas informações apócrifas como se fizessem parte do, digamos, cânone consagrado do bruxo. Outros debatem. E Rowling se mantém em evidência.

É raro passar um mês sem termos notícia da mulher falando que Harry nasceu aqui, não ali, ou que Dolores Umbridge fez sei lá o quê. Em alguns casos presta bom serviço, é verdade, como na defesa da possibilidade de Hermione ser uma personagem negra. Se não encontramos menção à cor de pele da bruxinha nos sete tomos, apenas sugestões de sua aparência, é mesmo uma alternativa válida. Contudo, essas tentativas de orientar interpretações e os infinitos adendos à própria obra mostram uma autora com dificuldades para se distanciar ou se desapegar do universo criado. Por outro lado, ajuda pra caramba a manter Harry entre os assuntos do momento; o marketing faz parte da jogada.

Critico essa postura para reconhecer um talento ao qual Rowling deveria se dedicar com mais seriedade: o de escritora. Para a literatura, ela funciona melhor como autora de livros do que como tuiteira que dá pitaco nas próprias obras. Ainda no universo bruxo, assinou com Jack Thorne e John Tiffany a peça "Harry Potter e a Criança Amaldiçoada", talvez o texto teatral contemporâneo mais lido pelos jovens (e, certamente, o único texto de teatro que muitos desses jovens leram até aqui). Com o pseudônimo Robert Galbraith, não fez feio ao escrever livros policiais.

Agora, outra iniciativa bem mais válida do que seguir bitolada no universo de Potter. Desde semana passada, Rowling vem publicando gratuitamente na internet "O Ickabog", história infantil engavetada há mais de década. A promessa é lançar os 34 capítulos do livro até o dia 10 de julho. Por enquanto, a obra conta apenas com versões em inglês, mas logo deve pipocar no site a edição em português do texto, que está sendo preparada pela Rocco. A casa da autora no Brasil planeja colocar no mercado o volume impresso, o digital e o audiolivro do título até o final do ano.

Rowling começou a forjar "O Ickabog" nos intervalos entre os livros de sua série consagrada. A história infantil, um conto de fadas ambientado num lugar imaginário, toca em temas como a verdade e o abuso de poder. Foi pensada para ser lida pela escritora para seus filhos pequenos, daí a ideia de disponibilizá-la nesses tempos de pandemia: é uma tentativa de entreter crianças que estão ou deveriam estar trancadas em casa.

Bem melhor quando Rowling se preocupa em dar vida a novas histórias e deixa para os fãs comentarem ou expandirem o universo de sua obra máxima. Faço votos para que a britânica um dia consiga se desapegar de Harry Potter. E digo isso como um admirador da saga.

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