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Sávinkov: Terrorista, ele transformou atentados a bomba em ótima literatura

Boris Sávinkov é o segundo homem da esquerda para a direita. - Arquivo.
Boris Sávinkov é o segundo homem da esquerda para a direita. Imagem: Arquivo.
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

27/05/2020 09h21

Sergei Alexandrovich, filho do czar Alexandre II, governou Moscou a partir de 1891. Dentre as muitas manchas de sua biografia, uma é simbólica: após o massacre de Khodínka, quando mais de 1400 pessoas morreram a seus pés, partiu para um baile na embaixada francesa; não seria uma gigantesca pilha de mortos que o faria perder a festa dedicada a Nicolau II, czar da vez. O pensamento e as atitudes de Sergei estavam em consonância com o regime que imperou na Rússia do século 16 até o começo do século 20, mantendo a população acossada por meia dúzia de nobres. Sergei Alexandrovich morreu em fevereiro de 1905, aos 45 anos, destroçado por uma bomba arremessada em sua carruagem.

Atentados como esse não eram raros naquela Rússia pré-revolucionária. Nome por trás da organização de ofensivas que detonavam figurões, Boris Sávinkov acabou preso um ano após o ataque a Sergei. Recebeu a pena capital, mas conseguiu fugir antes de abreviarem sua vida. Arrumou-se em Paris e a partir de 1907 teve mais tempo para se dedicar a um antigo hábito: escrever. Publicou os livros "Memórias de um Terrorista" e "Aquilo que Não Aconteceu", ficção com forte pegada autobiográfica. Mesma linha de "O Cavalo Pálido", de 1909, que há poucos meses chegou ao Brasil pela Grua, em tradução de Rubens Figueiredo.

Escrito em forma de diário, no romance acompanhamos George O'bren, codinome do terrorista que se passa por britânico e lidera uma pequena célula de especialistas em bombas. Em pouco mais de 150 páginas, o leitor testemunha as sombrias articulações que culminarão num explosivo sendo jogado na carruagem do manda-chuva de Moscou, como você adivinhou assim que indiquei estarmos diante de uma obra com pinceladas biográficas. Não bastasse a história atraente, os pormenores da narrativa e as reflexões que dela brotam fazem de "O Cavalo Pálido" um livraço.

"Se eu pudesse, eu mataria todas as autoridades e governantes. Não quero ser escravo. Não quero que existam escravos", lemos no começo da obra. "Não sei por que não se pode matar. Eu nunca vou entender por que matar em nome da liberdade é bom, mas em nome da autocracia é ruim", encontramos pouco depois. Esse olhar sobre a vida e a morte, sobre a suposta legitimidade de certos assassinatos (pensemos naqueles promovidos pelo Estado e tão bem-aceitos por aí) e a respeito do valor do terror como arma revolucionária ficará cada vez mais aguçado ao longo da narrativa.

Capa de "O Cavalo Pálido" - Divulgação. - Divulgação.
Imagem: Divulgação.
As convicções pétreas aos poucos se esvaem. "Por que matar para o terror é bom, para a pátria é necessário, mas para si mesmo é impossível?", indaga-se o protagonista borrando os pretensos limites éticos e morais. "Toda a minha vida é luta. Não posso deixar de lutar. Mas em nome do que eu luto, não sei", constata depois, num registro niilista que faz lembrar daqueles que se engajam em grandes batalhas e, a partir disso, jamais conseguem conceber a vida sem a condição de briga constante.

Apontam Albert Camus como um grande leitor de Sávinkov. Acredito. Em "O Cavalo Pálido" há muito do absurdo e do vazio de sentido que encontramos na obra do argelino. Afim, "A Batalha de Argel", filme do italiano Gillo Pontecorvo lançado em 1966, é outra representação que me veio à mente em alguns momentos da leitura. Ainda fazem parte da narrativa de Sávinkov, deixando mais complexo o debate sobre o terror, elementos como o amor, a lealdade (e a honestidade que a sustenta, com sinceridades que podem chocar leitores melindrosos) e o cristianismo, este presente já no título do livro, referência a um equino do "Apocalipse" bíblico.

Ali pelo meio de "O Cavalo Pálido", o protagonista escancara como o terror deixou de ser uma ferramenta para alcançar certos objetivos e se tornou a razão de viver. "O que eu faria, se não estivesse no terror? Não sei. Não sou capaz de dar uma resposta. Mas uma coisa eu sei com segurança: não quero uma vida pacífica [...]. O que é minha vida sem o terror? O que é a minha vida sem a luta, sem a alegre consciência de que a lei do mundo não vale para mim?".

Em 1917, após a Revolução de Fevereiro derrubar o czarismo, Sávinkov deixou a França e retornou à Rússia. Chegou a fazer parte do governo provisório e lutou contra os bolcheviques, donos do poder após a Revolução de Outubro. Não demorou para Sávinkov voltar a organizar atentados terroristas. Em um deles, em 1918, por pouco não matou Lenin. Fugiu do país e encontrou abrigo na Europa ocidental, onde transitava entre políticos importantes - o britânico Winston Churchill chegou a defini-lo como alguém com "a sabedoria de um homem de Estado, as qualidade de um chefe militar e a firmeza de um mártir", lembra Figueiredo no posfácio de "O Cavalo Pálido".

Anos depois, Sávinkov caiu nas mãos dos soviéticos. Morreu em maio de 1925. Garantem que, na prisão, atentou contra a própria vida. Às vezes, um romance de teor biográfico também pode se mostrar profético.

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