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Beyoncé: críticas negativas reforçam a importância de 'Black is King'

Beyoncé em "Black is King" - Reprodução/Twitter
Beyoncé em 'Black is King'
Imagem: Reprodução/Twitter
Aline Ramos

Aline Ramos é jornalista, mas tá mais pra palpiteira, por isso cria conteúdo na internet desde 2014. Você com certeza já fez algum teste dela no BuzzFeed, onde foi redatora por dois anos. É especialista em diversidade e dá consultoria para marcas em temas como raça e gênero. Mas o que ama mesmo é escrever sobre entretenimento e dar opinião sobre tudo, se bobear até sobre a sua vida.

Colunista do UOL

03/08/2020 12h14

Apesar de ainda não estar disponível para os fãs brasileiros, o álbum visual de Beyoncé, 'Black is King', tem gerado todo tipo de análise. Uma crítica em específico chamou atenção: a da antropóloga Lilia Schwarcz, na Folha de S. Paulo. Com o título "Filme de Beyoncé erra ao glamourizar negritude com estampa de oncinha", ela já nos prepara para qual tipo de análise deseja fazer.

Sua coluna não chamou atenção por ser meramente negativa, mas por desdenhar do trabalho e da importância de Beyoncé dentro da indústria cultural. É importante que você saiba que Lilia é uma mulher branca. Reforço esse ponto porque a antropóloga relembra o fato de Beyoncé ser uma mulher negra o tempo todo em seu texto.

Não são apenas pessoas negras que devem criticar ou analisar o trabalho de Beyoncé. Não acredito que seja necessário um "lugar de fala" para isso.

Mas quando uma mulher branca diz como uma mulher negra deve lutar contra o racismo, isso nada mais é do que racismo.

Quem deve ensinar e quem deve aprender?

Não sei se Lilia está acostumada a ensinar por ser uma professora universitária, mas seu tom professoral e condescendente faz parecer que Beyoncé está apresentando um trabalho acadêmico. Ela faz uma cobrança e afirma que 'Black is King' não condiz com a realidade do continente africano. Porém, acho que Beyoncé não pretendia isso quando fez um filme totalmente lúdico para a plataforma de streaming Disney Plus.

Sinceramente, há outras formas de conhecer países da África. Há todo tipo de filmes, séries e livros feitos por africanos que nos dão uma dimensão mais próxima da realidade. O que Beyoncé fez em 'Black is King' foi apresentar o caminho para a cultura africana contada por africanos. Ela relembra que a história de negros espalhados pelo mundo não se resume a escravidão, miséria e sofrimento.

O poder de novas histórias

Beyoncé em 'Black is King'  - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Lilia diz que esse tipo de narrativa lúdica e cheia de glamour não se encaixa no momento atual que os Estados Unidos vive, principalmente após os protestos intensos pela morte de George Floyd. Mas em qual momento se encaixaria sendo que dia após dia a população negra é alvo de abordagens violentas por parte da polícia? Precisamos esperar o fim do racismo para contar histórias positivas?

Estamos cansados não só da violência policial, mas de sermos submetidos a imagens de violência todo tempo. Fazer sorrir, sonhar e gerar esperança também é papel da arte. 'Black is King' é importante em qualquer tempo, principalmente no presente. E espero que surjam mais Beyoncés contando histórias bonitas e lúdicas. O desdém só nos prova isso.

Cobrar Beyoncé por mais ativismo antirracista e não fazer isso do mesmo modo com cantoras pop, e brancas, como Taylor Swift, por exemplo, é só mais uma demonstração de como o racismo pode afetar pessoas negras.

Beyoncé pode e deve ser criticada, mas me parece que quando pessoas brancas fazem isso, geralmente escolhem um caminho duvidoso. Talvez porque nunca sentiram o coração palpitar ao ver Beyoncé sendo Beyoncé apenas por ser Beyoncé.

Por fim, me questiono como Schwarcz teve coragem de pedir para Beyoncé sair da sala de estar. Justo você, Lilia, que sempre esteve sentada em uma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.