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Adriana de Barros


Após seis anos, Humberto Gessinger lança "Não Vejo a Hora"

Humberto Gessinger durante apresentação no Festival João Rock 2019 - Joshua Bryan e Denilson Santos/AgNews
Humberto Gessinger durante apresentação no Festival João Rock 2019 Imagem: Joshua Bryan e Denilson Santos/AgNews
Adriana de Barros

Adriana trabalha no UOL desde 2000, passou pelas rádios Mix FM, 97Rock e pela gravadora Sony Music.

28/10/2019 16h10

*Por Cadu Ramos

Poderia haver momento pior para entrevistar Humberto Gessinger do que o dia seguinte à eliminação do Grêmio para o Flamengo na Libertadores da América? Foi a pergunta que me fiz alguns segundos antes de ligar para a casa dele, em Porto Alegre. Afinal, ainda que o tema principal da conversa fosse o seu novo álbum, não teria como não falar minimamente do jogo.

Mas em cinco minutos de conversa o climão que imaginei estava desfeito. Ele falou do jogo numa boa, apesar de triste com a derrota, detalhou o processo de composição do novo álbum, "Não Vejo a Hora", o primeiro de inédita em seis anos, e relembrou momentos surreais em São Paulo nos anos 80, como quando tocou numa igreja convertida em bar e assistiu a jogos da Copa do México ao lado de Bezerra da Silva e Luiz Ayrão.

Cadu: Não teria um dia mais difícil para conversar com você...
Humberto: Sorte que não é uma pauta de esportes, senão seria complicado (risos).

Como você imaginava que seria este jogo?
Na real, sabia que seria complicado vencer. O Flamengo tem um time bom, vive um grande momento, o jogo foi no Rio. Mas torcedor sempre tem esperança: "Quem sabe não acontece como na Copa do Brasil de 1997, quando o Grêmio conseguiu superar aquele Flamengo de Romário e Sávio?"

E o futebol é uma coisa que influencia no seu humor?
Fico um pouco melancólico quando o Grêmio perde, mas não sou aquele torcedor que bate boca por aí ou que pede a saída do treinador. Só fico mais quieto que o normal.

Vamos falar de música. Mas antes de entrarmos nas composições, queria falar sobre um aspecto curioso de "Não Vejo a Hora". Ele foi lançado em diversos suportes: vinil, fita cassete, CD. Você curte esta coisa física da música?
Acho legal dar várias opções para quem quer consumir o seu trabalho. O meu interesse é mostrar a obra, não importa como. Quem gosta de vinil, compra vinil; quem gosta de fita, compra fita; quem prefere ouvir no celular, vai para o streaming.

Mas no dia a dia você coloca um LP na vitrola para escutar música ou prefere streaming?
No dia a dia prefiro o streaming, porque é mais prático e você tem acesso a muita coisa. Na minha adolescência era muito difícil conseguir ouvir certos discos. Hoje isso não é mais uma questão, e isso é ótimo.

E tem alguma diferença na hora de compor para streaming ou para vinil?
Para compor, penso no formato padrão do álbum. Ou seja, de 10 a 15 canções, com cerca de 45 minutos de duração. É como trabalho melhor, talvez por ser velho (risos). Mas tem quem prefira lançar singles e sabe fazer isso bem.

"Não Vejo a Hora" tem uma sequência elaborada?
Tem. Começa com "Partiu", passa por outras nove canções e termina com "Missão". É como se fosse um ciclo. Mas o curioso é que só percebi isso depois. Ou seja, inconscientemente percorri um caminho que fazia total sentido.

Você trabalhou com dois trios?
Sim, tenho trabalhado desta forma já faz um tempo. Levo para o estúdio um trio acústico, que neste último álbum gravou três canções, e um power trio, que gravou as outras oito.

Na turnê você leva estas duas formações?
Nem sempre. Viajo mais com o power trio, que toca também a parte acústica nos shows. Quando vamos para a capitais, aí é mais comum levar as duas formações.

A turnê atual será totalmente em cima das músicas do novo álbum?
O esqueleto será montado em cima das músicas do "Não Vejo a Hora", mas vou tocar canções de todas as fases da carreira. Serão seis músicas do novo álbum.

Algumas músicas e a capa foram criadas durante uma temporada na Suécia, onde mora sua filha. Quais?
"Calmo em Estocolmo" e "Olhou pro Lado, Viu". A primeira surgiu quando percebi que as pessoas me olhavam estranho quando comentava algo do Brasil. Parecia que eu era um bárbaro. Claro que pode ser uma impressão minha, não sou um especialista em países nórdicos, mas fiquei com isso na cabeça e escrevi "Será que agora os vikings somos nós?"

Já "Olhou pro Lado, Viu" escrevi após perceber que em toda foto que eu tirava aparecia uma torre de igreja atrás. Parecia que estávamos sendo vigiados o tempo inteiro. E a torre da capa vem daí também.

Você acha que atualmente somos mais bárbaros do que já fomos?
Acho, mas não sei se é apenas no Brasil. Estamos em um momento de mudança e é natural que as pessoas fiquem com medo e procurem soluções que funcionaram antigamente. Só que isso é um problema, porque precisamos da tecnologia, sobretudo na ecologia, que é um tema central para o mundo inteiro.

Uma vez escutei você dizer que compôs "Somos Quem Podemos Ser" no Hotel Jandaia, em São Paulo, que foi um lugar lendário para a música. Fale um pouco sobre suas lembranças deste lugar.
Era um lugar no Centro da cidade (bairro de Santa Cecília), que hospedava inúmeros músicos. Nesta época nós éramos mais estudantes de arquitetura com algumas canções. Lembro de ter assistido aos jogos da Copa de 86 ao lado de Bezerra da Silva e Luiz Ayrão ali. O lugar parecia cenário de um filme do Fellini. Você chamava o elevador e ficava esperando quem ia sair dele. Podia surgir um sambista, um cantor sertanejo ou qualquer outra figura. Tenho lembranças bem legais de lá.

Você se lembra de ter tocado no "Ácido Plástico", um bar que ficava ao lado do presídio do Carandiru, em São Paulo?
Era um bar que parecia ou havia sido uma igreja? Tocamos lá em 1986 e me lembro de ter ficado muito assustado, era meio sinistro (risos)

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Adriana de Barros