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Adriana de Barros

Abuso a mulheres em transporte público é tema de novo clipe de Aíla

Divulgação
Cena do clipe "#nãovoucalar", da cantora paraense Aíla Imagem: Divulgação
Adriana de Barros

Adriana trabalha no UOL desde 2000, passou pelas rádios Mix FM, 97Rock e pela gravadora Sony Music.

14/11/2018 18h06

"Me dê licença/Minha carne não está à venda/E meu corpo não é sua merenda/Me faça o favor" clama Aíla em "#NãoVouCalar", música lançada em videoclipe. A faixa, composta por Aíla em parceria com Felipe de Paula e Mariana Lemos, está no disco "Em Cada Verso Um Contra-Ataque", segundo álbum da carreira da artista.

Dirigido por Gabi Jacob, que já assinou videoclipes de Emicida, Rael e Xênia França, o filme foi gravado nas ruínas de uma antiga fábrica de cimento, na zona oeste de São Paulo, que já abrigou uma estação de trem.


Inaugurada nos anos 1920, a fábrica foi a maior produtora de cimento da América Latina, fornecedora de matéria-prima para construções dos primeiros arranha-céus da capital paulista. O local também foi palco de emblemáticas greves de operários.

"Decidimos gravar em um espaço abandonado, vazio. Um contraponto às lotações, ônibus e metrôs lotados em que todos os dias centenas de mulheres são abusadas. Filmar ali também simboliza o abandono e o descaso sistemático do Estado diante da situação, o mesmo Estado que deveria nos proteger", explica Aíla.

No vídeo, disponibilizado no YouTube, a dançarina Ciça de Cecília, integrante da Cia. Sansacroma, protagoniza uma performance solitária em meio às ruínas, corporificando um grito coletivo.

"Não queríamos replicar cenas de abuso no vídeo, minha vontade sempre foi usar a dança como protagonista do vídeo, uma dança que fosse como um grito", comenta a cantora.
 
Aíla denuncia o abuso que todos os dias vítima e assombra mulheres "na lotação, no esbarrão, na encoxada, arrocha pra ir e pra vir".

"A maioria de nós já sentiu na pele o medo, a repulsa, a agonia, de enfrentar o transporte coletivo na hora do rush", diz.

O clipe "#NãoVouCalar" integra uma série de cinco vídeos. Entre eles, "Tijolo", "Será" e "Lesbigay", este indicado a melhor videoclipe do ano no Women's Music Event Awards, o primeiro prêmio da música brasileira dedicado exclusivamente às mulheres.

Nascida na periferia de Belém, Aíla tem dois discos. "Em Cada Verso Um Contra-Ataque", lançado pelo edital Natura Musical, discute temas como feminismo, questões de gênero, assédio, intolerância e resistência. A sonoridade passa pelo pop, rock e eletrônico em canções próprias e de parceiros como Dona Onete, além de uma inédita de Chico César.

Veja a letra de #NãoVouCalar

Peguei o metrô na Sé semana passada
Mana, lhe disse que não foi do nada
Que o otário me alisou

Me dê licença
Minha carne não está à venda
E meu corpo não é sua merenda
Me faça o favor!

Na lotação, no esbarrão, na encoxada
Arrocha pra ir e pra vir
Cansei de desculpa e conversa fajuta

Chega de fingir que não vi
Vê se te toca, toma jeito, abuso eu não aceito
Chispa, vaza daqui!

Não vou calar, eu vou gritar
Se insistir, eu vou berrar mais alto
Esculachar tua cara, arrochar tua tara
Seu dissimulado!

Não vou calar, eu vou gritar
Se insistir, eu vou berrar mais alto
Esculachar tua cara, arrochar tua tara
Na pista, no asfalto!