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Adriana de Barros

Humberto Gessinger lembra disco histórico: "Tínhamos medo de fazer sucesso"

Joshua Bryan e Denilson Santos/AgNews
Humberto Gessinger fará show neste sábado (19) no Tom Brasil, em São Paulo, com sucessos de sua carreira Imagem: Joshua Bryan e Denilson Santos/AgNews
Adriana de Barros

Adriana trabalha no UOL desde 2000, passou pelas rádios Mix FM, 97Rock e pela gravadora Sony Music.

18/05/2018 07h00

Lançado há 30 anos, "Revolta dos Dândis", que reúne canções emblemáticas como "Infinita Highway", "Refrão de Bolero", "Terra de Gigantes", é a base do show do DVD "Ao Vivo Pra Caramba", que Humberto Gessinger apresenta neste sábado (19) no Tom Brasil, em São Paulo.

O álbum é um registro de sua última turnê, "Desde Aquele Dia – A Revolta dos Dândis 30 anos", e foi gravado em agosto de 2017, em Porto Alegre. O trabalho conta ainda com um set acústico com as inéditas "Pra Caramba", "Cadê?", "Das Tripas Coração" e "Saudade Zero".

Em conversa com a coluna, Humberto relembrou fatos que rondam o álbum que consolidou a banda definitivamente como uma das mais importantes do Brasil. Gremista ferrenho, ele comenta ainda a seleção de Tite que estará em campo na Copa do Mundo da Rússia. 

UOL: Na biografia “Infinita Highway - Uma Carona com os Engenheiros do Hawaii”, você diz que hoje talvez escolhesse outro nome para "Revolta dos Dândis". Como ele se chamaria se tivesse sido lançado hoje?
Humberto: Se eu tivesse escolhido outro nome para "O Papa É Pop", as pessoas teriam entendido o disco mais rápido. No caso do "A Revolta dos Dândis" não faria diferença. Qualquer uma das canções do álbum daria um bom nome de disco, como aconteceu com "Filmes de Guerra Canções de Amor" cinco anos depois.

No mesmo livro, você diz que os diretores da gravadora receberam o disco com pé atrás. No entanto, o álbum foi um sucesso de vendas, com hits como “Infinita Highway”, “Revolta dos Dândis”, “Terra de Gigantes”. De onde veio o receio da gravadora?
O disco não obedecia alguns padrões vigentes. O tamanho das letras, a escolha dos instrumentos, o despojamento de um trio, a ausência das sonoridades digitais que estavam começando a pintar. Hoje parece bobagem, mas eram tempos mais "quadrados", como se dizia. Também acho que eles não sentiam firmeza na gente porque, no fundo, tínhamos medo de fazer sucesso. Quando falaram que "Terra de Gigantes" poderia ser um hit, tiramos a letra do encarte. Bravatas adolescentes. Mas, bacana. É bom tentar não perder essa ingenuidade.

Em uma outra entrevista, você me disse que os Engenheiros foram uma das bandas mais punks do Brasil. Foi esse receio da gravadora que te levou à ideologia do DIY ("do it yourself", ou "faça você mesmo"), que pregava que músicos e fãs não dependiam de grandes corporações?
Sim. A postura do "faça você mesmo" e o fato de privilegiar a espontaneidade em vez da perfeição técnica era um lance do punk. Mas a gente tinha uma autoironia que não faz parte do universo punk, heavy metal, rap, blues, reggae etc. As correntes estabelecidas tendem a se levar muito a sério.

"Revolta dos Dândis" marca inúmeras mudanças na banda: a saída do Pitz, a entrada do Augusto Licks, o uso das engrenagens na capa. Este foi o álbum que consolidou a banda?
Engraçado. Acabou tendo esse papel, mas, na época, nada era sólido. Pelo contrário. A banda estava mudando de formação, eu mudando de instrumento, nossas vidas mudando completamente.

"Refrão de Bolero" foi lançada em "Revolta dos Dândis" (1987), mas só faz sucesso anos depois. Por que você decidiu retrabalhar a faixa tanto tempo depois?
Na época, a divulgação das músicas não era tão rígida e linear como é hoje. O estouro de "Refrão de Bolero" tempos depois surpreendeu a todos e aconteceu porque algumas rádios começaram a tocar gravações ao vivo dela, já comigo no teclado. Uma coisa impensável hoje.

Reprodução
Encarte do disco "A Revolta dos Dândis" Imagem: Reprodução
No encarte do álbum aparece o Eddie, mascote do Iron Maiden. De quem foi a ideia? Rolou alguma polêmica na época?
É uma colagem com vários ícones da cultura pop. A mistura era mais importante do que os detalhes. Talvez, uma característica do grafismo punk, iconoclasta. Colegas nossos da escola de arquitetura fizeram a capa.

Nos Engenheiros e na carreira solo, você sempre reuniu milhares de fãs nos shows e teve música em trilha de novela. Você sempre esteve na ativa com uma carreira estável. Mesmo sem se importar com isso, acha que teve reconhecimento da crítica à altura?
Quando eu senti que o pessoal tava começando a escrever sobre os discos sem realmente tê-los ouvido, eu parei de acompanhar. Então, não sei exatamente o que a crítica acha. Não é arrogância, pelo contrário, é uma atitude humilde de quem acha que cada um é responsável pelo que emite, e só pelo que emite. Tenho a mesma postura em relação aos fãs. Acho que é uma demonstração de respeito não pensar neles quando crio. Não quero que meus ídolos pensem em mim nem que façam pesquisa para saber o que agradaria. Quero que façam o que bem entenderem e corram o risco de ninguém gostar. Mas, tentando fazer uma contabilidade geral, acho que tenho muito mais do que mereço. Meu trabalho é muito particular, às vezes, em meio àqueles programas superpopulares da TV dos anos 1980, eu olhava em volta e pensava: "Mas o que que eu tô fazendo aqui?".

Vocês já fizeram show na União Soviética, no comício do Brizola, mas a banda era acusada de ser de direita nos anos 1980. Por quê? Como lidava com esse tipo de comentário?
Quem mandou colocar Fidel e Pinochet lado a lado no primeiro verso do primeiro disco, né? Mas, se há uma coisa que me aborrece nesta arte/ofício, é comentar o que outras pessoas falaram de mim. Quem falou que explique.

No atual momento político do Brasil, você subiria ao palco para defender algum candidato?
O que eu gostaria mesmo é que cada um pensasse com a própria cabeça, se ligando mais em informação confiável do que em formadores de opinião, que, hoje, parece que chamam de "infuenciadores", né? Ouça o que eu digo, não ouça ninguém.

Gostou da convocação da seleção? Acha que o Tite devia ter levado mais gente do Grêmio, além do Geromel?
Fã sempre é egoísta, né? Prefiro que a seleção não desmonte meu time. (risos)  Mas Geromel é o máximo. Assim como Grohe, Luan e Arthur, que eram cotados. E o Tite parece saber bem o que faz.

*Com colaboração de Carlos Eduardo Ramos, produtor da TV UOL

Serviço
Humberto Gessinger
Quando: 19 de maio - sábado, às 22h
Onde: Tom Brasil - R. Bragança Paulista, 1281
Inf: http://grupotombrasil.com.br

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