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12/09/2010 - 10h00

Livro de J. P. Cuenca aborda obsessões de um amor escorregadio no Japão

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Rafael Andrade / Folhapress

Apesar do longo e romanceado título, livro de J.P. Cuenca (foto) não é uma história de amor

Apesar do longo e romanceado título, livro de J.P. Cuenca (foto) não é uma história de amor

O primeiro ponto que chama atenção em “O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente”, de J.P. Cuenca, além do longo e romanceado título, é que essa não é uma história de amor. Ao menos não nos moldes tradicionais, ou do que o costume literário nos faz esperar de um enredo romântico.

Mais um resultado do projeto “Amores Expressos”, em que alguns escritores foram enviados a diferentes cantos do mundo com a missão de escrever um livro de amor, nesta narrativa nascida em Tóquio as relações são escorregadias, algo falsas, embora intensas e mesmo doentias.
O escritor carioca desenvolve múltiplos narradores, repetindo o ritmo fragmentado, veloz e caótico de uma metrópole. O salaryman japonês Shunsuke Okuda é o personagem central da trama. Ele conhece a garçonete romena-polaca Iulana Romiszowska, uma mulher “acostumada a ser observada por todos os tipos de homens”. Sua estranheza ocidental arrebata o coração de Shunsuke e seu encantamento logo se transforma em obsessão.

Shunsuke é filho do Sr. Okuda, um recluso poeta tido como “a última grande voz da poesia tanka no Japão”. Embora sem produção recente, o que faz muitos da imprensa especularem se ele ainda escreve, o velho se mantém como uma personalidade enigmática na mídia. De perto, no entanto, o obscuro se materializa em aberração. O poeta ancião tem manias excêntricas, como comandar uma rede de espionagem particular, sem limites para cumprir o objetivo de seguir a vida do filho. Não se trata de uma preocupação paternal acima do razoável. Não há amor na relação entre pai e filho.

O Sr. Okuda parece determinado a destruir qualquer possibilidade de felicidade do primogênito. Decidido a não deixar que o filho herde qualquer das “láureas como poeta, a consagração pública, a honra do nome da família”. Shunsuke, por sua vez, estranhamente aceita ser espionado pelo pai, a quem define como um “egomaníaco despótico e violento”.

O que a garçonete romena-polaca Iulana Romiszowska tem a ver com toda essa briga de família? Pode-se dizer que está na hora e no local errados. Além de Shunsuke, ela se envolve com a bailarina do clube Abracadabar. Kazumi é uma mulher de proporções “geometricamente exatas”, com todos os triláteros do corpo em dimensões e ângulos exatos até a milionésima casa decimal”. Uma beleza que lhe causará problema.

E ainda tem a boneca erótica Yoshiko, construída a partir de minuciosas instruções do Sr. Okuda. Do tamanho das orelhas, a cor dos mamilos e a largura do sexo. Um projeto que, de tão personalizado, se tornou a boneca mais cara produzida no Japão.

O desejo do detestável poeta de controlar a vida ao redor --talvez por ser incapaz de controlar a sua própria-- permite ao autor um trabalho de múltiplas narrações, como um caleidoscópio narrativo. Interessante, inclusive, a divisão visual feita quando a narração é feita pela boneca (sim, ela também tem voz e papel importante no desfecho da história!). Nestas páginas, usa-se a cor vermelha de fonte.

 


"O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente"

Autor: 
J.P. Cuenca
Editora: 
Companhia das Letras
Páginas: 
146
Preço: 
R$ 36,50

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