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31/08/2010 - 12h52

Chacal publica suas memórias e defende a utopia de viver de poesia

MAURICIO STYCER
Crítico do UOL
  • O poeta Chacal, que lança Uma História à Margem, seu livro de memórias (22/08/2010)

    O poeta Chacal, que lança "Uma História à Margem", seu livro de memórias (22/08/2010)

Chacal vai completar 60 anos em 2011. Desde os 20, vive de poesia. Alguém poderá dizer que vive de brisa. Engano. Suas memórias, que acaba de publicar, mostram como se colocou na linha de frente dos principais movimentos culturais nas ultimas quatro décadas no Rio de Janeiro.

Como protagonista ou coadjuvante, na frente do palco ou nos bastidores, Chacal associa seu nome a diferentes mídias, da literatura ao teatro, da música ao circo. Junto com o grupo Nuvem Cigana, foi um dos responsáveis pela eclosão da chamada poesia marginal, no início da década de 70. Também trabalhou com o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, participou do Circo Voador nos seus primórdios, fez letras de música para a Blitz e criou o espaço CEP 20.000, entre muitas outras atividades.

Seu livro se intitula “Uma História à Margem” (Editora 7 Letras, 252 págs., R$ 30). É um título que diz respeito à utopia que move Chacal nestes 40 anos – a de fazer arte sem compromisso com o mercado. É, como diz, “seu vício e ofício”. Em todo o percurso, entre acertos e erros, entre conquistas e acidentes, parece movido exclusivamente por este ideal.

  • Reprodução

    Capa do livro "Uma História à Margem", do poeta Chacal

“Uma História à Margem” é também uma espécie de “quem é quem” da cultura alternativa nas últimas quatro décadas no Rio de Janeiro. Chacal fala de centenas de pessoas com que se relacionou ao longo do tempo – em artimanhas, eventos e performances poéticas, teatrais e circenses.

Chacal ilustra episódios de sua trajetória com poemas que escreveu a respeito, dando ao livro também o caráter de antologia poética. A propósito, sua obra completa está reunida no belíssimo “Belvedere”, publicado pela Cosac Naify e 7 Letras, em 2007. Uma primeira reunião de seus livros da década de 70 está em "Drops de Abril", editado pela Brasiliense em 1982 dentro da famosa coleção Cantadas Literárias.

“Creio que me tornei poeta justamente para me comunicar com as pessoas sem necessariamente estar com elas”, escreve Chacal em suas memórias. Abaixo, ele responde a algumas perguntas do UOL:

UOL - Por que você resolveu escrever suas memórias? Não é cedo? Você ainda tem muito chão para percorrer, não?
CHACAL - A gente corre pra lá e pra cá feito barata tonta. De vez em quando, é preciso parar para acertar o prumo. Em 2011, faço 60 anos. Publiquei há pouco minha poesia reunida – “Belvedere”. Estava na hora de começar a contar história. para ajudar quem está chegando, para perceber melhor o percorrido e começar o segundo tempo.

UOL - Você fala mais de uma vez da sua timidez, dislexia, dificuldade de estar com as pessoas, mas lendo o livro dá pra ver que você está em todos os lugares, com todo mundo. Imagine se você não fosse tímido...
CHACAL -
A solidão é uma árvore frondosa, mas infrutífera. É preciso correr atrás para se alimentar. Conhecer as pessoas, trabalhar com elas, é meu prato predileto. Mas vez por outra, volto pra minha sombrinha.

UOL - Em termos culturais, pensando no Brasil, qual você acha que é o maior legado dos anos 70? E da década de 80? São períodos intensos, como se pode ler no livro, mas são importantes, ricos, do ponto de vista cultural?
CHACAL - Difícil falar de cultura fora de seu contexto. Fizemos a cultura possível num período de repressão e censura. Foram anos de atitudes, de descobertas, de sobrevivência na selva dos coturnos. Um tempo mais de gritos e sussurros do que da palavra plena articulada. Um tempo de mudança de paradigmas radical onde a arte dava lugar ao entretenimento e à indústria cultural. Tivemos que gritar a plenos pulmões para sermos ouvidos.

  • Folhapress

    O poeta brasileiro Chacal em novembro de 1983


UOL - Você fala muito em utopia, na sua utopia, e do conflito com a realidade "do sucesso e da grana", "cultura do mercado". É possível fazer arte nesta realidade?
CHACAL - Criar é a maior especiaria da natureza humana. Mas não se cria do nada. A criação vem das coisas que você observa, mixadas às coisas que você adquire. Num mundo que tem outros valores que os seus, fica mais difícil ser ouvido. Dane-se o mundo. Só crio com o que eu creio.

UOL - Olhando pra trás, para esses 40 anos, você se arrepende de algo que fez? Ou que deixou de fazer?
CHACAL - Arrependimento não faz parte do jogo. Cada tempo, cada cabeça, uma sentença.

 

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