Complô contra a América

Criador de 'The Wire', David Simon estreia minissérie baseada em Philip Roth e treta com Glenn Greenwald

Liv Brandão do UOL, em São Paulo HBO/Divulgação

Talvez você não saiba quem diabos é David Simon. Tudo bem. Mas acredite em mim, David Simon é um dos nomes mais incensados da TV americana. Criador de "The Wire" (2002-2008) —segundo a Rolling Stone, a segunda melhor série da história—, ele volta à TV nesta segunda com "The Plot Against America", minissérie baseada no livro homônimo do premiadíssimo Philip Roth (morto em 2018, aos 85 anos).

Passada nos anos 1940, "Complô contra os Estados Unidos", em tradução livre, é uma distopia dividida em seis episódios e conta a escalada do nazismo no país quando Franklin Roosevelt é derrotado nas urnas pelo populista Charles Lindbergh, um herói da aeronáutica. Assim que assume a presidência, com o discurso de proteger a nação, assume um viés cada vez mais fascista. O resto vocês podem imaginar.

Sua casa é a de sempre, a HBO, que exibiu seus principais projetos, incluindo "Treme" e a ótima —e esnobada— "Show me a Hero". "The Plot Against America" vai ao ar no canal (e no HBOGo às segundas-feiras), a partir de 16 de março, às 22h.

O UOL conversou com Simon sobre sua trajetória na TV, seu trabalho como jornalista político —e a recente treta com Glenn Greenwald, que rolou no Twitter na véspera desta entrevista— e, claro, sua nova série.

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Matt McClain//The Washington Post via Getty Images

Por que adaptar o livro 'Complô contra a America'?

Li pela primeira vez quando o livro saiu (em 2004) e percebi que a demagogia de George W. Bush e das pessoas que nos levaram à desventura no Iraque eram um pouco o "alvo" da história. Acho que é justo dizer que isso estava na mente de Roth quando ele estava trabalhando neste livro [publicado no Brasil pela Companhia das Letras].

Mas li o livro apenas como uma alegoria da primeira vez. Na época, eu não achava que era um indicativo de que meu país estava dando uma volta em direção ao totalitarismo, tendo como alvo grupos religiosos e raciais. Eu até achava que nós estávamos indo na direção contrária, que nos tornaríamos mais tolerantes, mais cidadãos, uma cultura politicamente mais sofisticada.

Alguém veio a mim argumentando que deveríamos fazer uma minissérie baseada no livro e eu tive minhas dúvidas. Essa pessoa me pediu para ler o livro novamente, e eu o fiz. Por causa disso, o livro ficou na minha mente e, depois de 2016 (ano da eleição de Donald Trump), ele pareceu ainda mais adequado.

Então você quis traçar um paralelo com o governo dos EUA?

Quis fazer uma alegoria do nosso momento atual, obviamente. Quero dizer, o que Roth descreveu usando judeus americanos em 1940 [Simon tem ascendência judaica, aliás] é perfeitamente representativo do que está acontecendo com o uso indevido de negros e pardos, imigrantes e muçulmanos.

Ele contou uma história em que os piores medos dos americanos foram usados por um político demagogo para manter uma base de poder. E, para governar, ele começa a desfazer as regras de uma República. E essas regras são formas cruciais de autogovernança. Essa é a história que Roth contou. Isso parece uma analogia ao que acontece no país neste momento.

O que pretende com essa série?

Não sei que efeito isso terá sobre o público. Meu trabalho é contar uma história. O que acontece depois disso e como ela vai ser recebida não é uma preocupação que cabe ao meu cargo.

Não costumo fazer profecias. Mesmo como jornalista, eu nunca moldei nenhum trabalho meu pensando no que poderia acontecer. Eu formato meu trabalho para entregar a melhor história possível.

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Daniel Marenco/Folhapress

Falando em jornalismo, vi que você criticou duramente Glenn Greenwald no Twitter?

Não sei dizer sobre o papel que ele desempenha no Brasil, minha questão é como ele pratica jornalismo. Eu fazia o trabalho dele, e eu não era enviesado. Eu não formatava meu trabalho para se encaixar na minha visão política. Às vezes, o que eu reportava poderia até ser gratificante.

Para deixar claro, eu sou de esquerda, mas houve momentos em que tive que reconhecer fatos que se opunham à minha posição política. E fiz isso porque não reportava os fatos de maneira enviesada.

Acho que, a esse respeito, Glenn Greenwald se revelou. O fato está em segundo plano. Ele é seletivo e culpado por grandes omissões. Tenho certeza que ele é um cara gente boa, mas se você me perguntar sobre o jornalismo que ele faz, eu tenho pouca consideração por ele.

E você passa o dia todo tretando no Twitter. Aquilo é um personagem?

Só uso para me divertir, é apenas uma performance. É um meio que não serve muito para discussões sérias, há mídias melhores para isso. O Twitter está lá para provocações, para fazer humor e para linkar o que está mais bem escrito em outro lugar.

Normalmente, uso o Twitter quando estou em trânsito e não tenho nada para fazer, estou no banco de trás de um carro ou quando estou no set esperando a preparação das luzes... nesse meio tempo, sou capaz de ser tão provocativo no Twitter como qualquer um. Quando tenho que voltar ao trabalho, desapareço.

Aliás, como o jornalismo te preparou para fazer séries dramáticas?

Não acho que o jornalismo tenha me preparado para uma carreira na TV. E eu nunca estudei Cinema ou coisa do tipo, nunca treinei para isso e não tinha planos de me tornar um dramaturgo. Meu livro ("Homicide: A Year on the Killing Streets") acabou adaptado para a TV por acidente. A produção de"Homicide" veio para Baltimore, eles filmaram, e eu acabei me envolvendo nos roteiros.

A partir daí, passei a prestar atenção, e isso ajudou bastante. As coisas que eu admiro no jornalismo são as coisas que eu tento replicar no meu trabalho como dramaturgo. Mas isso não vai atingir as massas. Por isso, não sou bem um modelo de como fazer TV, eu faço este tipo de TV porque não quero fazer nenhuma outra coisa.

E tipo, se eu posso ter um pouco de segurança para fazer isso, eu fico feliz. Mas não é como se o que eu faço fosse replicável de alguma maneira que pudesse garantir uma audiência, ou mesmo inimigos ou qualquer uma das métricas que as pessoas associam à TV, porque eu não tenho um público grande.

E eu só quero que me deixem em paz e me deixem continuar contando histórias.

David Simon

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E essa verve política toda, ainda mais em tempos de polarização?

Você sabe, eu só me interesso por histórias que engajem uma discussão sobre o mundo, sobre o mundo político social.

Eu fui treinado, quer dizer, eu cresci em uma casa onde discutíamos muito o que estava acontecendo no mundo. Meu pai era jornalista, todos os meus irmãos discutiam sobre política na mesa do jantar, como um esporte. Isso virou minha métrica para a vida.

Como você leva isso para seu trabalho como roteirista?

Isso nos validou de várias maneiras. Não sei como contar outros tipos de histórias que não as políticas. Mas eu não estou confundindo o que faço na TV com jornalismo jornalismo. Os dois têm um tipo diferente de rigor. O drama tem suas próprias regras e seus próprios argumentos, mas sempre tento ter pelo menos um argumento político usando o drama.

Você está ligado na política brasileira?

Sei que vocês pegaram um rumo pesado para a direita. Mas só isso.

Prefere contar suas próprias histórias ou adaptá-las?

Por mim, tanto faz. Há algo de libertador na adaptação de um livro. Nesse caso, vamos fazer uma minissérie, sem estender o trabalho, por se tratar de uma narrativa independente com começo, meio e fim. Não rende uma série com várias temporadas. É ótimo poder contar uma história e depois mover para a próxima história. Gosto muito disso.

Como você fez nas temporadas temáticas de The Wire, certo?

Exatamente.

Por outro lado, os outros livros que eu adaptei foram todos de não-ficção. Então, eu tive que ter lealdade absoluta ao que é descrito, porque eu estava escrevendo histórias de pessoas reais e sinto que tenho uma responsabilidade jornalística. Eu não invento coisas. Portanto, todas as adaptações anteriores que fiz tiveram um rigor particular, que às vezes dificulta na hora de moldar a narrativa, porque você não pode trapacear.

Este é um romance. Eu certamente poderia brincar um pouco mais. Sabe, eu não estaria ofendendo a história real porque muitas dessas coisas não aconteceram, mas eu ainda tinha muita responsabilidade com Roth. Houve momentos em que eu pude aproveitar a oportunidade, encarar o momento atual e encontrar maneiras de abordá-lo usando a narrativa dele.

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'The Wire' é dividida em temporadas temáticas: tráfico de drogas, contrabando, política de gabinete, educação e jornalismo.

Na hora de fazer uma série grande, eu tentei mantê-la interessante. Ao abordar um tema específico por temporada, nós pudemos apimentar diferentes pedaços da cidade. A cada ano, tínhamos diferentes papéis dramáticos.

Se fosse para fazer uma sexta temporada de 'The Wire', sobre o que seria?

Não haveria chance de termos uma sexta temporada, porque nós terminamos onde achávamos que deveríamos.

A crítica final deveria ser voltada à mídia: no que estávamos prestando atenção enquanto nos tornávamos cada vez mais incapazes de resolver nossos problemas?

Mas se eu pudesse adicionar uma temporada a 'The Wire', teria sido entre as temporadas três e quatro. Seria sobre imigração.

Você já deve estar cansado de ouvir que 'The Wire' é uma das melhores séries de todos os tempos. Qual é a sua opinião sobre a série?

Sim, é bem boa. Quer dizer, eu vejo de forma diferente porque sempre penso no que eu poderia ter feito diferente. Então evito olhar para o que já fiz porque sempre é um processo desgastante, já que não dá mais para mudar nada. Está feito.

E a série se saiu tão bem como eu poderia esperar, dado os recursos e a experiência que eu tinha com TV naquela época.

Outras séries de David Simon

  • 'The Wire' (2002-2008)

    Temporadas: 6 Sinopse: Um grupo de policiais liderados pelos detetives Jimmy McNulty (Dominic West), Bunk Moreland (Wendell Pierce) e Kima Greggs (Sonja Sohn), sob o comando do tenente Cedirc Daniels (Lance Reddick) tenta combater o tráfico de drogas na cidade de Baltimore, liderado por Stringer Bell (Idris Elba). Nota*: 9,3

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  • 'Generation Kill' (2008)

    Temporada: 1 (minissérie) Sinopse: A série acompanha um batalhão dos Fuzileiros Navais americanos, comandado pelo Tenente-Coronel Stephen Ferrando (Chance Kelly), durante seus 40 dias na Guerra do Iraque. Os jovens americanos participam da invasão de Bagdá e sofrem com a falta de equipamentos. Nota*: 8,5

    Imagem: Divulgação
  • 'Treme' (2010-2013)

    Temporadas: 4 Sinopse: A série acompanha cidadãos do estado Louisiana três meses após a passagem do Furacão Katrina. Enquanto a maioria dos ex-moradores de Nova Orleans migrou para outras cidades, muitos ficaram no bairro de Treme, de chefs de cozinha a músicos, onde tentam reconstruir suas vidas. Nota*: 8,2

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  • 'Show me a Hero' (2015)

    Prefeito de Yonkers, uma das cidades mais populosas no Estado de Nova York, Nick Wasicko (Oscar Isaac) assume o cargo em 1987. Neste ano, a cidade passou por uma crise que gerou episódios de racismo, assassinatos e conspirações políticas, espalhando o medo. Nota: 8,1

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  • 'The Deuce' (2017-2019)

    Temporadas: 3 Sinopse: A série acompanha o período de ascensão da indústria pornô na cidade de Nova York, durante as décadas de 1970 e 1980. Os irmãos gêmeos Vincent e Frankie Martino (James Franco), protagonizam a trama. Enquanto alguns faturam com este novo negócio, a violência e o tráfico de drogas começam a se proliferar. Nota*: 8,1

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  • 'The Plot Against America' (2020)

    Temporada: 1 (minissérie) Sinopse: Nos anos 1940, Charles Lindbergh, um herói da aeronáutica de tendências populistas, derrota Franklin D. Roosevelt nas urnas e se torna presidente dos Estados Unidos. Assim que assume o cargo, a nação vai adotando gradativamente inclinações nazistas.

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Outra série queridinha é 'Treme', né?

É mais difícil contar uma história sobre cultura e multiculturalismo, sobre o que significa ser uma pessoa das ruas, e como temos todos que aprender a conviver. Isso fica ainda mais difícil quando você coloca um trombone na mão de alguém. Então estou muito ciente do que é ter uma narrativa mais ambiciosa.

O público que assiste às suas séries costuma se apegar muito aos personagens (saudades eternas, Omar Little). Isso também acontece contigo?

É claro que você se apega aos seus personagens, e você tenta escrever a partir do ponto de vista deles. Você precisa acreditar no personagem para que os diálogos e acontecimentos sejam críveis. E às vezes você sorri quando um ator faz jus a isso. Mas todos os personagens estão ali a serviço da história. E a partir do momento em que sabemos aonde queremos ir com a história e do que precisamos para chegar até lá, você precisa se desapegar.

Você se apega às ferramentas na caixa? Não. Você se apega ao que você construiu, não às ferramentas que usou para isso.

Eu sei que, normalmente, quando matamos um personagem, entregamos um bom arco. Só fico triste quando sinto que não fizemos tudo o que poderíamos por ele. É aí que eu fico triste e me arrependo.

Tudo bem, mas qual morte mexeu mais contigo?

A morte que eu mais senti, de todas as séries que eu fiz, foi a da Lori, de "The Deuce". Foi um momento perturbador, de partir o coração.

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Um parêntese, queridx leitor: David Simon é 'padrinho' de Idris Elba e Michael B. Jordan

Você que pirou em "Luther" e em "Pantera Negra" talvez não saiba: mas Idris Elba e Michael B. Jordan foram revelados por David Simon. Idris era o traficante Stringer Bell, um dos principais de "The Wire", enquanto Michael, ainda pirralho, fazia o papel do jovem Wallace, um "aviãozinho" do tráfico. Sim, é ele na foto. Irreconhecível, né?

Era inevitável. Eles são ótimos atores

E mesmo com tudo o que a gente falou aí em cima, as séries de David Simon nunca foram sucesso de público ou mesmo de premiações. Porém, entre a crítica, ele é endeusado. Ele jura que não liga para nada disso.

Essa não é uma métrica que me interessa. Não, eu não estou sendo esnobe. É que se você ficar de olho nessas coisas e no que você precisa fazer para atendê-las, provavelmente você não está medindo seu trabalho por métricas que serão suficientes. Faça o que você precisa fazer. Sim, apenas não pense sobre isso.

Para finalizar: qual pergunta você faria a si mesmo numa entrevista, aquela que nunca te fizeram?

Oh, Deus. Não sei. Você me pegou. Acho que algo que a gente fez muito bem, e pelo qual a gente nunca ganha crédito, é o humor, mesmo tratando de temas perturbadores e sombrios. Nossos roteiristas têm sempre um ótimo senso de humor, mas esse humor está sempre enterrado sob a narrativa dramática.

Faz parte da condição humana achar graça nas coisas, onde quer que você esteja, seja você policial, traficante, fuzileiro naval ou político. E nós trabalhamos duro para isso, porque a comédia é mais difícil de fazer, enquanto o drama às vezes se resolve sozinho.

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