Woodstock, 50 anos

Por que o festival que se tornou um marco da cultura do século 20 dificilmente aconteceria de novo

Leonardo Rodrigues Do UOL, em São Paulo Woodstock.com

Esqueça Lollapalooza, Coachella, Glastonbury, Wacken ou Rock in Rio. Se um extraterrestre pousasse na Terra querendo descobrir o significado do termo "festival de música", qual foto de evento você mostraria para ele? Se a resposta automática não for Woodstock, você provavelmente não andou por este planeta nos últimos 50 anos.

"Marco da contracultura", "maior espetáculo da Terra" ou "o dia em que milhares de jovens de cuca legal resolveram aparecer para ver de graça uns shows bacanudos em uma fazenda", o festival que aconteceu entre 15 e 18 de agosto de 1969 passou à história como um dos eventos mais importantes e de maior impacto cultural do século 20. Em três dias de paz, amor e música que definiram uma geração, a terra parou --e pirou.

Exatas cinco décadas depois, com o surpreendente cancelamento da edição que comemoraria meio século do festival que mudou o mundo, paira a pergunta: seria possível realizar um novo Woodstock, com o mesmo ou ao menos parte de seu apelo e significado original, em tempos fluidos de internet e eventos cada vez mais profissionais e midiáticos, pautadas pelas cifras de grandes corporações?

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Como o sonho nasceu

Woodstock nasceu do desejo de um grupo de hippies que queriam criar um evento tão ou mais grandioso que o Festival Pop de Monterey, quando Jimi Hendrix tacou fogo em sua guitarra e causou desbunde. O cabeça da empreitada era Michael Lang, jovem produtor nova-iorquino que, um ano antes, havia promovido o bem-sucedido Miami Pop Festival, que reuniu 25 mil pessoas.

Com dificuldades para encontrar um local adequado no estado de Nova York, Lang recorreu a Max Yasgur, um fazendeiro republicano e defensor da liberdade de expressão, dono de uma propriedade rural de 600 acres a 70 km da cidade de Woodstock. A ideia era cobrar US$ 18 por ingresso válido para os três dias, US$ 24 se comprado no dia --equivalente a US$ 120 e US$ 160 nos dias de hoje--, reunindo no máximo 50 mil pessoas.

Life

O inesperado que fez história

Por restrições orçamentárias, o Woodstock original foi divulgado basicamente no boca a boca. Justamente por isso a surpresa dos organizadores foi do tamanho do público que apareceu naquele 15 de agosto de 1969, o primeiro de três dias de shows. Cerca de 400 mil hippies e simpatizantes rumaram para a região, congestionando o trânsito, derrubando cercas e transformando o festival, que esperava lucrar, em um inesperado evento gratuito.

Dentro da fazenda, reinava o clima de paz, liberdade diversidade. Drogas e sexo eram mato --e flagrados do mato. Longe dos olhos julgadores da família e sociedade, jovens poderiam ser como eram e fazer o que bem entendessem, desde que não prejudicassem o próximo. Por três dias, cerca de meio milhão de pessoas experimentaram a utopia da era de aquário: uma sociedade harmoniosa, revolucionária e essencialmente progressista, livre do que se entendia como direita (capitalismo) e esquerda (comunismo).

O que acontecia naquela época

  • Guerra do Vietnã

    O conflito entre Vietnã do Norte, apoiado pela União Soviética, e do Sul, pelos EUA, já acontecia há quase 14 anos e enfrentava uma escalada de protestos. Os americanos se dividiam, e a juventude, influenciada pela cultura hippie, questionava a necessidade do conflito e as políticas do presidente Richard Nixon. A guerra só terminaria em 1975.

    Imagem: Foto: Reprodução/Internet
  • Conquista da Lua

    O mundo assistiu perplexo em 1969 à chegada dos astronautas americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin à Lua. Transmitida na TV, a chegada da Missão Apollo 11 encerrou o capítulo da corrida especial na Guerra Fria e representou um duro golpe ao bloco comunista, que ganharia algum fôlego na década seguinte com a vitória no Vietnã.

    Imagem: AP/Reprodução Nasa
  • Os hippies

    Eles questionavam o consumismo e pregavam uma sociedade alternativa. A paz, o amor e a vida comunitária eram o norte. Para os hippies, as drogas serviam para expandir a consciência, e rock era a trilha sonora. Esse sonho durou pouco, e o visual de brechó, com calças rasgadas, batas e cabelos longos, rapidamente migrou para as lojas e passarelas.

    Imagem: Reprodução
  • Movimentos sociais

    A liberação sexual, a ecologia, o feminismo, o combate à homofobia e a luta pelos direitos civis entravam na esfera pública. Em um dos gestos mais simbólicos da história esporte, os corredores americanos Tommie Smith e John Carlos reproduziram no pódio da Olimpíada de 1968, no México, a saudação do grupo Panteras Negras, pedindo igualdade racial.

    Imagem: Reprodução
  • E no Brasil?

    Quando Woodstock acontecia, milhares de brasileiros testemunhavam outro fenômeno cultural: a ascensão das telenovelas. Na Globo, a bola da vez era Rosa Rebelde, de Janete Clair, protagonizada por Glória Menezes e Tarcísio Meira. O folhetim de época retratou o amor impossível de Rosa Malena, uma rebelde espanhola, e Sandro de Aragão, capitão do exército de Napoleão.

    Imagem: Reprodução
  • Mas a realidade era amarga

    Vivíamos tempos bicudos e de forte repressão. O movimento hippie ainda não havia de fato aterrissado por aqui, e, em meio à crescente onda de protestos estudantis, o Ato Institucional nº 5, o AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968 pelo general Costa e Silva, endureceu o regime militar e institucionalizou a censura e a tortura no país.

    Imagem: Evandro Teixeira/CDoc JB/Folhapress
Allan Koss/Authentic Hendrix LLC

Os shows históricos

Woodstock enfileirou artistas promissores e de sucesso no rock e no universo que à época girava em torno dele, do soul ao folk. A psicodelia e as mensagens de paz eram combustível em um gênero que entrava na adolescência. O primeiro dia de shows, mais zen e com apresentações acústicas, teve, entre outros, Richie Havens, Tim Hardin, Ravi Shankar e Joan Baez, que fizeram do pequeno palco de madeira uma colossal plataforma de discurso.

Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, Janis Joplin, The Who e Jefferson Airplane fizeram o blues jorrar amplificado no segundo dia. O encerramento trouxe mais apresentações históricas de Joe Cocker, The Band, Johnny Winter, e Crosby, Stills, Nash & Young. Último a entrar no palco, já de manhã e com metade da plateia acordada, Jimi Hendrix abusou da distorção em uma iconoclasta versão do hino nacional americano.

Reprodução

Nem tudo foi flower power

A reunião de tantos artistas lendários eclipsou graves problemas de logísticas. No primeiro dia, o grupo Sweetwater foi parado pela polícia a caminho de Woodstock e não conseguiu abrir o festival. Vários outros artistas se atrasaram. A chuva não deu trégua, e a Incredible String Band se recusou a tocar em meio à tempestade.

No segundo dia, os amplificadores do Grateful Dead pifaram no meio do show. Janis Joplin não estava em suas melhores condições e, no dia de encerramento, depois da apresentação de Joe Cocker, uma nova chuva forte interrompeu o festival por horas. Hendrix teve de tocar nas primeiras horas da manhã. A infraestrutura era mínima para anteder apenas 50 mil pessoas: havia lama, faltava banheiros, comida e condições sanitárias em acampamentos. Do lado de fora, trânsito caótico.

Os perrengues não mancharam o sonho. O "happening" aconteceu, o festival virou filme e o burburinho gerado por ele serviu de mola para a nova geração e para a contracultura. A utopia de uma nova sociedade, no entanto, sofreria duros golpes logo nos meses seguintes, com o assassinato de um homem no Altamont Festival pelos Hell's Angels --que faziam a segurança do evento-- durante show dos Rolling Stones e a separação dos Beatles.

Os relatos de Woodstock são inúmeros e, muitas vezes, contraditórios. Registros da época dizem que cem pessoas foram presas e não houve relatos de incidentes de violência. Outros, que pelo menos uma pessoa teria morrido de overdose, e um trator teria esmagado uma pessoa deitada em seu saco de dormir. E muitas testemunhas descrevem o festival como uma experiência muito mais caótica do que emblemática, com chuva, lama e drogas.

Burk Uzzle Burk Uzzle

Mas por que foi tão lendário?

Era um momento em que jovens sentiam que podiam transformar o mundo. Eles chegaram com a bandeira de viver em sociedade, em comunhão. Acho que o Woodstock entrou para a história porque afirmou de uma vez por todas que a música tinha a capacidade da música de abrir cabeça das pessoas. Foi o primeiro festival que atingiu essa proporção.

Thiago Matar, diretor do doc sobre o Festival de Águas Claras

O festival extrapolou de longe as expectativas. Foi muito além da música. Representou um mundo e uma geração em ebulição, em todo seu cunho político e social. Eram pessoas que viviam em um mundo desordenado e se juntaram para tentar mudá-lo. Serviu como ápice e, ao mesmo tempo, como fim de um sonho.

Lucio Ribeiro, jornalista e curador do Popload Festival

Representou o novo. O festival de rock ainda tinha um quê de novidade. Era uma proposta diferente. E as bandas que tocavam faziam um som de renovação. Estavam liderando esse movimento. A ideia de paz, amor e música, para época, era muito original e impactante. Foi uma revolução.

Gabriel Andrade, organizador do Coala Festival

Woodstock foi o primeiro festival de rock realmente grande, e por isso ele é um grande marco, assim como foi o Rock in Rio no Brasil. Ele não foi criado para ser o que foi. Havia posicionamentos políticos muito fortes. A busca da liberdade. Do público e também dos artistas. Ganhou uma dimensão que os próprios organizadores não previram.

Roberta Medina, vice-presidente do Rock in Rio

Foi lendário porque não era para ser como foi. Não esperavam meio milhão de pessoas. Aquilo eclodiu porque havia um momento de profunda ansiedade sobre um possível avanço da cultura hippie. Além dos músicos que estavam emergindo, havia uma necessidade de mostrar aquela cultura: a paz, o sexo, a mensagem contras as drogas e o tesão de viver.

Claudio Prado, cofundador do Festival de Glastonbury e produtor do primeiro Águas Claras

Newsweek/Reprodução

Por que é impossível um novo Woodstock

O cancelamento da edição de 50 anos de Woodstock, por problemas financeiros e logísticos, pegou de surpresa o produtor original Michael Lang e o mundo. O festival, que já havia ganhado outras três edições entre 1979 e 1999, teria se perdido relevância na roda do tempo?

Os organizadores ouvidos pelo UOL são unânimes em afirmar que o contexto de ebulição social que vivemos em 2019 é parecido com o de 1969, mas dificilmente haveria espaço para a realização de um "novo Woodstock", um festival grande e com impacto cultural tão profundo.

Um dos principais motivos é a internet, que tornou ideias mais difusoras, segmentadas e pulverizadas, e é no campo virtual que as novas culturas e revoluções tendem a ganhar voz. A profissionalização dos festivais, hoje muito comerciais e preocupados em fornecer "experiências" nem sempre reais, é outro ponto levantado. Eventuais tiroteios e atentados mirando grandes aglomerações também assustam produtores e autoridades de segurança.

Mas tudo isso pode virar detalhe. "Eu acho que um novo Woodstock pode acontecer, sobretudo em momentos de repressão, como esse que vivemos. Estamos mais perto de uma reação como essa hoje do que estávamos alguns anos atrás, a era de aquário ainda pode existir", afirma Claudio Prado, cofundador do Festival de Glastonbury, na Inglaterra, e produtor da primeira edição de Águas Claras, apelidado de "Woodstock brasileiro".

"Não acho que os novos festivais tenham matado o idealismo porque muitas vezes o ideal não vem do produtor. Ele é orgânico, vem da galera. As novas revoluções estão vindo da internet, mas elas podem estar na arquibancada de futebol, na rua, como tem acontecido, ou mesmo num novo festival. O futuro está em aberto".

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