Nem lá, nem cá

Em 2019, Oscar provou que ainda está tentando encontrar seu lugar e manter a relevância

Beatriz Amendola Do UOL, em São Paulo
Kevin Winter/Getty Images

O Oscar 2019 começou sob a sombra do desastre iminente que poderia causar a falta de um apresentador; ao fim da premiação, porém, quase ninguém se lembrava disso.

A noite foi marcada, de um lado, pela euforia em torno de vitórias históricas para mulheres e negros e, de outro, pela frustração em torno da escolha segura demais da Academia por "Green Book - O Guia", vencedor da cobiçada estatueta de melhor filme.

Entre os velhos hábitos e a gradual abertura ao novo, uma coisa fica clara: a Academia entendeu que os tempos mudaram, e o Oscar vem tentando aos trancos e barrancos encontrar o seu lugar no mundo.

Matt Sayles/A.M.P.A.S. via Getty Images Matt Sayles/A.M.P.A.S. via Getty Images

Começo turbulento

A premiação mais sisuda de Hollywood começou a dar provas de que queria mudar em agosto, quando a Academia anunciou medidas que deixariam o evento mais "moderno" e poderiam estancar a queda de audiência. No ano passado, o Oscar foi visto por "apenas" 26,6 milhões de pessoas nos Estados Unidos, o pior resultado desde que a cerimônia começou a ser televisionada (em 2019, a audiência foi de 36 milhões, um crescimento em mais de 14%).

Entre as novidades estava a criação da categoria de "melhor filme popular", que abriria espaço para os blockbusters tradicionalmente ignorados pela Academia. Mas o que seria um filme "popular"? Isso seria definido por orçamento? Arrecadação na bilheteria? Nunca descobrimos: a reação negativa da indústria e do público foi tão forte que a Academia se viu obrigada a voltar atrás.

O mesmo processo se repetiria meses depois, quando surgiu a ideia de cortar os números musicais da cerimônia. Seriam apresentadas "Shallow", do filme "Nasce Uma Estrela"; e "All the Stars", de "Pantera Negra", as duas que tinham intérpretes estrelados: Lady Gaga e Bradley Cooper, e Kendrick Lamar e SZA, respectivamente. A Academia mais uma vez desistiu, mas só depois que Gaga exigiu que as outras músicas concorrentes também tivessem espaço para brilhar na festa.

A Academia não aprendeu nada com o caso e, pouco depois, anunciou que quatro categorias seriam excluídas da transmissão televisiva: fotografia, edição, cabelo e maquiagem, e curta-metragem live-action. A decisão soou desrespeitosa, e nomes como Brad Pitt, Guillermo del Toro e George Clooney protestaram. Mais uma vez, a mudança foi cancelada.

Os melhores momentos do Oscar 2019

Kevin Winter/Getty Images Kevin Winter/Getty Images

Diversidade reinando

Com esses problemas pairando, as expectativas não eram exatamente animadoras para o Oscar 2019. Mas a premiação surpreendeu mostrando que a diversidade veio para ficar. 

Nos primeiros 40 minutos da cerimônia, duas mulheres negras foram premiadas em categorias que não eram de atuação, algo que antes só havia acontecido uma vez, em 90 anos de história. As reconhecidas foram Ruth E. Carter e Hannah Bleecher, ambas de "Pantera Negra". A primeira venceu na categoria de figurino e a segunda, na de direção de arte. 

Quando a noite chegou ao fim, a edição 2019 do Oscar terminou como a que mais premiou mulheres e negros. Foram 15 estatuetas para mulheres e 7 para pessoas negras, batendo recordes estabelecidos anteriormente em 2007 e 2017, respectivamente. 

O cineasta Spike Lee finalmente conquistou seu primeiro Oscar --na categoria de roteiro original, por "Infiltrado na Klan". E, pela quinta vez em seis anos, um latino foi premiado na categoria de melhor diretor (Alfonso Cuarón, por "Roma").

O resultado, provavelmente, está ligado à abertura que a Academia vem promovendo a novos votantes nos últimos anos, na tentativa de deixar para trás a polêmica do "Oscars So White" ("Oscar branco demais"), que abalou o evento em 2016.

Soltando o verbo

Em uma cerimônia pouco política, indicados exaltaram a diversidade

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Rayka Zehtabchi, documentário curta ("Period")

"Eu não estou chorando porque estou menstruada ou coisa assim. Eu não acredito que um filme sobre menstruação acabou de ganhar um Oscar", disse Zehtabchi, diretora de "Period. End of Sentence", que conta a história de mulheres na Índia que são estigmatizadas na comunidade por conta de seu período menstrual.

Frazer Harrison/Getty Images Frazer Harrison/Getty Images

Escolha segura

A 91ª edição do Oscar já era histórica por seus indicados, com a inclusão de um filme de super-heróis ("Pantera Negra") e um filme de arte falado em espanhol e lançado pela Netflix ("Roma", o favorito) --ambos os primeiros de seus tipos a serem incluídos na disputa pelo prêmio máximo da noite. Mas a Academia perdeu a chance de tornar a noite ainda mais marcante, e acabou premiando um filme mais alinhado aos seus antigos padrões.

"Green Book", sobre uma amizade improvável que surge entre um ítalo-americano preconceituoso (Viggo Mortensen) e um talentoso pianista negro (Mahershala Ali), é um filme que leva a mensagem de "nos amarmos a despeito das diferenças", como definiu em seu discurso o diretor Peter Farrelly (na foto acima ao lado dos outros produtores do longa, todos brancos). Não foi unanimidade entre a crítica, mas tem o tom que, tradicionalmente, cai bem aos votantes da Academia e é embalado por duas grandes atuações, o que certamente o fortaleceu na disputa.

No fim das contas, "Green Book" era uma escolha mais segura do que o aclamado "Roma", que tinha contra si não só o idioma, como também o fato de ser distribuído pela Netflix, ainda vista com desconfiança por parte de profissionais da indústria do cinema (entre eles, certamente, muitos votantes do Oscar). Tanto "Roma" quanto "Pantera Negra" saíram da premiação com três estatuetas cada.

Os sinais, porém, estão dados. E a abertura da Academia a novos gêneros e novas formas de produzir conteúdo é praticamente inevitável.

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