Da lama ao caos

Como o maior festival de metal do país virou fiasco e terminou com acusações de sequestro e extorsão

Leonardo Rodrigues Do UOL, em São Paulo
Honório Moreira/UOL

Um festival em um local isolado, liderado por artistas de renome na música. Um sonho vendido aos fãs que, pouco antes de seu início, tornou-se o pior pesadelo da vida. Shows cancelados, contratados se queixando de falta de pagamento. Infraestrutura praticamente inexistente e um camping em condições precárias. Apreensão, raiva, desespero. Uma dupla de produtores em apuros, acusada de golpe e alvo de dezenas de processos na Justiça. Ao fim, uma sentença.

A história é real e descreve exatamente o que aconteceu no Fyre Festival, nas Bahamas, um evento que naufragou em 2017 e, este ano, ganhou dois ótimos documentários na Netflix e na Hulu. Mas o fato é que poderíamos estar falando de outro caso, bem brasileiro, ocorrido cinco anos antes em São Luís do Maranhão e também entrou para história --da pior forma possível.

Divulgado como o maior encontro do metal das Américas, o Metal Open Air se transformou em um dos maiores fiascos da história dos festivais do país. Em uma sucessão injustificável de erros de organização, tudo que poderia dar errado aconteceu. Quarenta e sete bandas prometiam se revezar em três palcos, com infraestrutura de primeiro mundo, condizente com a dos maiores eventos do gênero. Apenas 13 delas se apresentaram. No entendimento do Ministério Público, fãs passaram por situações insalubres e "foram tratados como indigentes".

Mas como um fiasco tão retumbante pôde ser visto um país com razoável estrutura e boa tradição em festivais, que organizava e ainda organiza tantos eventos a céu aberto com sucesso? Poucos parecem ter a resposta exata, mas ela passa pela história de dois produtores que sonharam alto, seduziram milhares de pessoas e terminaram na lona, trocando acusações de extorsão e sequestro.

Cumpri com todas as minhas obrigações, e o Ministério Público já reconheceu isso, mas admito que errei. Era um festival muito grande para São Luís, em termos de logística. Passagens aéreas escassas, cidade sendo reta final de linha. Sonhei alto demais e caí, mas não houve irresponsabilidade financeira. 
Natanael Júnior, da Lamparina Produções, ao UOL

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O começo de tudo

O projeto o Metal Open Air já existia há pelo menos três anos antes daquele 2012, e inicialmente era ainda mais grandioso: trazer ao país o alemão Wacken Open Air, maior festival heavy do mundo. Segundo o UOL apurou, os produtores alemães já tinham um acordo firmado com a Geo Eventos, que realizaria o Wacken brasileiro em parceria com a revista "Roadie Crew". Aconteceria no Jockey  Club de São Paulo em setembro de 2012, cinco meses após a bem sucedida primeira edição do Lollapalooza Brasil.

Sem compensação financeira e com a demora da organização, o contrato foi rompido pelos alemães e o então Wacken Rocks Festival passou para as mãos de Christian Kramer, um produtor alemão radicado na Colômbia famoso por viabilizar turnês de metal na América Latina.

Ele então acionou seu contato brasileiro Luiz Felipe Negri, da Negri Concerts, de São Paulo, que se uniu a Natanael Júnior, parceiros em shows no Maranhão. Ainda com o nome de Wacken, o festival foi lançado com pompa e festa na capital maranhense, reunindo músicos de destaque da cena brasileira, como André Matos e Edu Falaschi.

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Shows em parque de exposições

O local sugerido por Natanael: o Parque Independência, a cerca de 25 km do centro de São Luís, conhecido por abrigar anualmente uma feira agropecuária, recebendo shows sertanejos de até 40 mil pessoas, um dos poucos espaços aptos para receber grandes eventos na cidade. No entendimento do produtor, havia boa estrutura, incluindo estacionamento, área verde, banheiros de alvenaria, geradores e estábulos, que poderiam servir como camping.

Batido o martelo, os ingressos para o Wacken brasileiro começaram a ser vendidos no dia 5 de dezembro de 2011, três dias após o anúncio das primeiras bandas: Blind Guardian, Grave Digger e as brasileiras Drowned, Attomica e Terra Prima.

O line-up foi ganhando forma nos meses seguintes, com mais nomes de peso como Megadeth, Anthrax, Saxon, Venom, Destruction e Symphony X e o Rock 'N' Roll Allstars, supergrupo do vocalista do Kiss, Gene Simmons, que traria o ator Charlie Sheen como mestre de cerimônias.

Dias depois, o evento ganhou novo nome: Metal Open Air.

Honório Moreira/UOL Honório Moreira/UOL

Crônica de um fiasco anunciado

Sem a chancela do Wacken, o Metal Open Air passou a ser alvo de uma série de rumores de bastidor. Empresas patrocinadoras (a maioria de bebidas) estavam pulando fora e o governo estadual se recusou a liberar a verba esperada. Os organizadores tinham dificuldade em levantar recursos para arcar com as despesas do festival, marcado entre os dias 20 a 22 de abril de 2012. Na iminência do cancelamento, na véspera, os primeiros anúncios começaram a pipocar.

A banda inglesa Venom anunciou que não conseguiria se apresentar porque os vistos dos músicos não foram sido expedidos a tempo. "Nos disseram que [os vistos] foram parar na África. Como pode acontecer algo desse tipo?", publicou nas redes sociais o vocalista Cronos.

O anúncio gerou um efeito cascata e, ao longo de três dias, principalmente a partir do segundo, mais de 30 atrações cancelaram seus shows. Os motivos giravam em torno da falta de pagamento dos cachês, de transporte, hospedagem e da falta de transparência e comunicação dos organizadores.

A segurança e a estrutura técnica dos palcos também deixavam muito a desejar. Músicos nacionais e internacionais reclamavam da ausência de equipamentos básicos, de amplificadores a baterias de qualidade. Integrantes do  Anthrax, Blind Guardian e o cantor alemão Udo, que não tocaram no festival, viajaram a São Luís e foram vistos circulando pelo festival e pela cidade. Isso se repetiu com vários outros grupos, incluindo a maioria das bandas nacionais.

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Músicos sem cachê

Com a escalada dos problemas técnicos, nem todas os 13 grupos que se apresentaram conseguiram executar o show na íntegra. As apresentações começaram no dia 20 com seis horas de atraso e, seis horas após o início previsto, um dos palcos já começava a ser desmontado. O desastre no primeiro dia só não foi completo porque Megadeth, atração principal, emprestou parte de seu equipamento para outros artistas. O grupo de Dave Mustaine só tocou dez músicas e paralisou o show várias vezes reclamando da qualidade do som.

Segundo o UOL apurou, artistas estrangeiros recebiam o cachê de Felipe Negri, diferentemente do que ocorria com a maioria das atrações nacionais, que seriam responsabilidade de Natanael. O Korzus, última a se apresentar no segundo e último dia festival, em um show histórico de 2h de duração, foi uma das poucas brasileiras a ver a cor do dinheiro. Com os atrasos no pagamento, alguns tocavam de graça, como o Almah, do vocalista Edu Falaschi.

Outros, sem passagens e hospedagens, simplesmente nem se arriscavam a viajar, caso do Ratos de Porão e do Stress. No terceiro dia, sem bandas e com toda a estrutura praticamente desmontada, o Metal Open Air foi oficialmente cancelado. O anúncio foi feito no palco, com policiamento reforçado. Apesar da revolta generalizada no público, não houve nenhum registro de ocorrência.

A programação e as bandas canceladas

O que dizem as bandas

  • Fernando Lima, vocalista da banda Drowned

    Ficou fechado que a gente só sairia de BH se as coisas estivessem pagas. Eles pagaram passagem, hospedagem, então imaginamos que os caras iriam pagar o cachê quando chegássemos lá. Quando chegamos, não deixaram a gente tocar. Todos sumiram. A gente se ofereceu para tocar num intervalo de show, mas não deixaram.

    Imagem: Reprodução/Facebook
  • Roosevelt Bala, vocalista da banda Stress

    Não rolou contrato. E eles sempre diziam que estavam providenciando as passagens, mas ficavam enrolando, inventando desculpas. Na semana do evento, não havia nenhuma novidade. Foi quando demos um ultimato: ou eles mandavam o adiantamento do cachê e as passagens, ou cancelaríamos. Ele pararam de responder as ligações e nós cancelamos.

    Imagem: Reprodução/Facebook
  • Marcello Pompeu, vocalista da banda Korzus

    Tocamos porque fomos remunerados. Nosso empresário contornou a situação. As condições de equipamento, para mim, eram boas, palco maravilhoso. Na tarde do show, um dos produtores veio ao hotel nos dizer que não precisávamos mais tocar, mas jamais faríamos isso por respeito ao público.

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  • Edu Falaschi, que se apresentou com o Almah

    Olha, vou ser bem sincero com você, não quero nunca mais nem pensar que existiu esse festival em São Luís. É baixo astral demais lembrar do que aconteceu ali.

    Imagem: Divulgação
  • Dave Mustaine, do Megadeth, em comunicado

    Disseram que muitos talentos optaram por não vir. Ouvi que os ingressos custavam R$ 450 para o fim de semana, três dias, e R$ 250 reais por um dia. O cidadão médio da área ganha cerca de R$ 28 por dia, então você pode calcular. Estávamos tocando, não importa o quê. Não estávamos tocando mais para o promotor, tocávamos pelo povo!

    Imagem: Edu Garcia/UOL
  • Blind Guardian, em comunicado

    Fomos forçados a cancelar o show devido a grandes problemas técnicos e administrativos. A produção foi incapaz de garantir um ambiente próprio de festival. Muita desorganização. Ficamos tristes com a situação, totalmente insatisfatória, mas os erros cometidos pelo promotor são enormes.

    Imagem: Divulgação
  • Symphony X, em comunicado

    Ficamos muito perto de ter que cancelar o show e não sabíamos se iríamos tocar até 1h antes do set, que já havia sido adiado em 2h. A falta de organização e caos do evento forçou muitas bandas a cancelarem seus shows. Isso é injusto aos fãs presentes e, infelizmente, esses fãs foram "roubados" de muitas performances.

    Imagem: Reprodução
  • Marcel Schirmer, vocal do Destruction, em entrevista

    O P.A. do primeiro dia estava caótico. No meio do nosso show, ele ligava e desligava. Todo o equipamento teve um grande atraso e não tinha equipamento suficiente nem backline para as bandas. Por isso as primeiras do primeiro dia não puderam tocar. Não consigo entender como uma coisa dessa pode acontecer.

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Os perrengues do público

Cercado de caos e desorganização, o público sofreu. As principais queixas relatadas pelas cerca de 8.000 pessoas, que pagaram de R$ 250 a R$ 850 nos ingressos, incluíam falta de comida --barracas foram montadas horas depois do início do primeiro show e não era permitido entrar com alimentos no local--, banheiros insuficientes, filas, camping com sujeira e mau cheiro e falta de segurança nas dependências do parque.

A falta de informação dos organizadores sobre os cancelamentos também era problemática. No segundo dia, que contou com apenas três shows, houve invasão de público. Várias pessoas tiveram carteiras, câmeras e celulares furtados. Com clima de insegurança, só os corajosos se arriscavam a sair do local para comer. Promessas como o lago artificial, estande de tatuagens, opções no mercadinho e outras atividades recreativas não foram cumpridas, assim como a disponibilização de linhas exclusivas de ônibus para o festival, que não foram vistas.

Após o cancelamento no domingo, a luz foi cortada e a pessoas, muito sem terem para onde ir, expulsas do local. O aeroporto, a rodoviária e as praias de São Luís se viram invadidas por barracas e hordas de camisetas pretas.

Honório Moreira/UOL Honório Moreira/UOL

"Eu fui, mas as bandas, não"

  • Oswaldo Aivarone, analista de sistemas de São Paulo

    O pior foi o camping, que ficava no estábulo. E o lugar no camping onde havia os banheiros. Eles improvisaram contêineres. Então imagina o cheiro, com 45 graus no Maranhão. Dez mil pessoas usando o banheiro, um calor infernal. Não tinha para onde sair o dejeto. Você chegava no camping, sem demarcação, montava a barraca e ficava cada um por si, com uma tomada na base do gato.

    Imagem: Reprodução/Facebook
  • Henrique Diniz, biólogo de Chapadinha (MA)

    O festival começou estranho já na entrada, com o pessoal verificando ingresso em mesa improvisada. A gente ganhava uma fitinha, com material pior que a do Senhor do Bonfim, para identificação. Foi uma frustração ao entrar. O palco não estava pronto, não tinha banner, sinalização. Prometeram loja, restaurante, boate. Não vimos nada disso. E as lojinhas pareciam improvisadas.

    Imagem: Reprodução/Facebook
  • Natália Larroyed, estudante de direito de Curitiba

    Gastei quase R$ 2.000 com hospedagem, ingresso e passagem. Uma semana depois saiu a notícia do Felipe Negri casando, indo para Europa em lua de mel. A irmã fazendo cirurgia estética. O Natanael também sumiu. Eles botaram culpa um no outro e não deram posicionamento pra gente. Maior vergonha do metal nacional.

    Imagem: Reprodução/Facebook
  • Giovani Loiola, analista de sistemas de Fortaleza

    Não dava pra comer nada. Era uma área grande, e não tinha lanchonete perto. Para sair dali, você precisava pegar algum carro e ir pra longe. Você perdia umas 2h de evento. Quando a comida chegou, havia muita fila e não tinha quase nada. Só cachorro-quente e as s comidas visivelmente não muito agradáveis.

    Imagem: Reprodução/Facebook
  • Thays Kannab, analista de suporte de São Paulo

    Os banheiros normais eram precários, sem porta para fechar. Quatro banheiros pra revezar, sem água quente, sem papel e em um lugar totalmente sujo. Quando o festival foi cancelado, cortaram a luz. Consegui fechar um apartamento na praia dividindo com uma amiga, mas vi muita gente indo direto pro aeroporto. Você via camisa preta em todo canto da cidade.

    Imagem: Reprodução/Facebook
  • Alê Martins, jornalista

    Soubemos que pessoas foram colocadas pra fora do parque quando cortaram a luz. O público começou a acampar no aeroporto para não perder seus voos. Teve gente que pediu demissão do emprego para poder ir ao Metal Open Air. Eu fiquei sabendo de gente que ficou esfaqueada lá perto. O lugar ficava perto de uma das maiores favelas do Nordeste, e a gente não sabia disso.

    Imagem: Reprodução/Facebook
Marcus Brasil/UOL Marcus Brasil/UOL

E pra trabalhar no Metal Open Air?

Os jornalistas que foram cobrir o festival e esperavam por uma área de imprensa também se frustraram. "A gente trabalhava no hotel, onde havia internet. Não tinha como mandar nem foto para a redação. Não era comum WhatsApp na época, e, durante os shows, a gente ligava e ditava os textos. Não tinha estrutura nenhuma", lembra a repórter Estefani Medeiros, que cobriu o festival para o UOL.

Entre as histórias de bastidores, Marcel Schirmer, vocalista do Destruction, deu um piti ao perceber que a cerveja não era a que ele havia exigido. Há relatos de que Charile Sheen, que nem chegou a viajar, fez um pedido extravagante: ele queria mais de uma dezena de acompanhantes para vir ao Brasil. No hotel, Dick Siebert, baixista do Korzus, teve notebook e o HD furtados. A logística de trabalho no Metal Open Air era sempre um desafio constante.

Segundo jornalistas que cobriram o festival, o camarote não era climatizado nem havia lugar para sentar. E o controle de pessoas que entravam e saíam acabou se afrouxando em determinado momento. "Eu tinha credencial. Cheguei e diziam que minha credencial não existia. Tive de ir atrás de amigos que acabaram conseguindo uma. Foi uma zona", lembra o fotógrafo Carlos Magno Barroso. "Não havia lugar para trocar de roupa ou guardar nosso equipamento caro com segurança. Tínhamos que carregá-lo 100% do tempo."

Os camarins compartilhados também frustraram a equipe das bandas e causaram má impressão por quem passava por ali. "Eram muito precários. Eles ficavam abertos e as bandas se revezavam. Vimos o pessoal do Exciter comendo arroz e feijão em um buffet cheio de mosca voando nas comidas. O Mustaine tinha um banheiro químico exclusivo do lado de fora, com papel colado na porta com o nome dele. Óbvio que ninguém respeitou. Deve ter sido um choque pra ele", lembra Estefani.

Honório Moreira/UOL Honório Moreira/UOL
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Acusações de sequestro e extorsão

Luiz Felipe Negri e Natanael Júnior (na foto ao lado) atribuem um ao outro a autoria do fracasso do Metal Open Air. E não só isso. Negri, que só aceitou falar com a reportagem por meio de seu advogado, acusa o ex-parceiro de tentativa de sequestro e violência durante o festival. Natanael nega e diz que foi extorquido. Eles romperam contato e a amizade com o fim do festival.

De acordo com Negri, cuja principal função era contratar as bandas e disponibilizá-las no dia do evento, todos os cachês foram pagos corretamente. "Não houve extorsão nenhuma. O Felipe é só um terceiro. Ele era contratado para trazer as bandas. Esse serviço foi feito e concluído. Toda a estrutura do palco e demais problemas de infraestrutura são de responsabilidade do Natanael. Se a banda não tiver estrutura, ela não sobe no palco e não toca. Foi isso que aconteceu", disse ao UOL o advogado Carlos Guilherme Saez Garcia.

Para Natanael, dono da Lamparina Produções, o caos veio à Terra apenas por descumprimento contratual de Felipe Negri. "Já provei isso na Justiça criminal e o Ministério Público reconheceu. Assinei com ele um contrato de prestação de serviços de R$ 1,697 milhão, referente ao cachê de todas as bandas e as passagens. Fora isso paguei hospedagem, contratação de som e todos os outros serviços do local. O problema não é comigo", justifica-se o produtor, que afirma ter gastado R$ 3 milhões no festival.

"Comprovei com notas que paguei todas as despesas, todos os fornecedores. Contratei 269 homens de segurança, 260 banheiros químicos, dez contêineres com dez chuveiros cada um." Natanael afirma ainda estar preparando um livro e um documentário sobre o Metal Open Air, em que pretende esclarecer, entre tantas outras polêmicas, o que classifica de "perseguição política".

Sou ligado ao grupo do governador do Maranhão [Flávio Dino, PCdoB], e a Globo, ao da família Sarney. Ficou muito na mídia da Globo, que é rival da TV em que trabalho, que era o Wacken brasileiro, mas para o público heavy metal estava perfeito. Palcos legais. Som, cerveja, camping.
Natanael Júnior

Estefani Reis/UOL Estefani Reis/UOL

O que diz a Justiça?

Dezenas de ações individuais e coletivas foram movidas pelo público do festival contra Felipe Negri e Natanael Jr. nas áreas civil e criminal, mas só uma teve sentença divulgada. Em dezembro de 2017, a Justiça do Maranhão condenou os organizadores indenizar por danos morais os consumidores lesados. A decisão é fruto de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público junto do Instituto Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo.

A sentença do juiz Douglas de Melo Martins, da Vara de Interesses Difusos e Coletivos da Comarca da Ilha, determina que cada pessoa deve receber individualmente R$ 3.541,83. Outros R$ 200 mil devem ser pagos ao Fundo Estadual de Direitos Difusos por danos morais coletivos, acrescido de juros e correção monetária. Advogados de ambas as partes já afirmaram que estão recorrendo da decisão.

Quem pagou por ingressos poderá exigir indenização, mas só depois que a sentença transitar em julgado, quando se esgotarem os recursos. Não há previsão para isso. Segundo Natanael, o festival foi segurado em R$ 4 milhões e o dinheiro será usado nas eventuais indenizações.

"As falhas ocorridas frustraram a expectativa de inúmeros consumidores. O mencionado festival de rock foi um evento de grande relevância para os amantes do estilo musical o qual, em virtude do cancelamento e desorganização dos shows, ocasionou frustração e angústia nos consumidores. Sem dúvida, circunstâncias desse tipo caracterizam dano moral, apto a ensejar a responsabilização dos réus e, consequentemente, a obrigação de indenizar os consumidores", observou o juiz na sentença.

Honório Moreira/UOL Honório Moreira/UOL

Como fica o metal no Brasil

Tanto Felipe Negri quanto Natanael Jr. tiveram bens bloqueados pela Justiça e ficaram com nome sujo na praça, sendo alvo de boicotes de parte do público. Um show do Destruction agendado por Negri em São Paulo, logo após o Metal Open Air, deixou de ser realizado após campanha empreendida na internet. O produtor continuou no ramo produzindo apresentações, mas sem a bandeira da Negri Concerts.

Natanael, que mantém uma casa de espetáculos na capital maranhense, é diretor de jornalismo da TV Guará, afiliada da Record em São Luís, além de atuar como presidente de um time de futebol profissional, o Moto Clube, diz ainda estar se recuperando do baque. Ele ainda trabalha como produtor de apresentações de rock, mas a empresa Lamparina, na prática, precisou fechar as portas.

"Foi um caso de muita ganância por parte deles. Casos assim, infelizmente, ainda acontecem. Não foi a primeira nem a última vez. Mas eles são minoria", entende Claudio Vincentin, editor da revista "Roadie Crew". "O metal não sofreu nem se manchou no Brasil. Ele continua em alta. As bandas continuam vindo pra cá. Nunca vi tantos shows acontecendo, todo o fim de semana, em festivais ou locais pequenos. Existem produtores muito sérios."

O UOL tentou contato com o terceiro produtor envolvido no Metal Open Air, Christian Kramer, e a sua empresa, a CKConcerts, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

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