Ela não desistiu

Lauana Prado, ex-The Voice e Raul Gil, mudou de nome, de visual e chegou ao topo na base da good vibe

Leonardo Rodrigues Do UOL, em São Paulo
Marcus Steinmeyer/UOL

Enquanto posa para as fotos que ilustram esta reportagem, Lauana Prado, 30, tenta explicar ao UOL do que é feita sua música, que há meses não sai da lista das mais tocadas no Brasil. "É sertanejo, sim, mas não é sofrência", delimita. "Mas também não é só sertanejo. Eu digo que é mais livre. É sobre amor. Sou da good vibe." O alto astral exalado por todos os poros --e tattoos-- da goiana pode ser interpretado como um reflexo de sua própria resiliência. A caminhada foi tortuosa.

Antes de estourar com "Cobaia", que já passa de 250 milhões de visualizações no YouTube com dois vídeos e outras tantas nas demais plataformas, Lauana enfrentou preconceito por ser mulher e sertaneja, teve de encarar jurados de programas de TV e, para se firmar no meio sem ser confundida com a parceira de Maraísa --afinal, seu primeiro nome é Mayara--, ainda precisou mudar a alcunha artística. Tudo isso vem sendo recompensado com juros e correção.

"Já pensei em desistir muitas vezes", confessa. "Mas há três, quatro anos, conheci o Fernando [da dupla com Sorocaba, que virou seu produtor e empresário] e optei pelo caminho de compositora. Precisava ganhar credibilidade. Deu certo. Roberta Miranda, Edson & Hudson, Solange Almeida. Várias pessoas gravaram minhas músicas. Foi aí que comecei a enxergar a possibilidade de nunca mais cogitar em parar. Estou vivendo um sonho."

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Início antes do feminejo

Uma das apostas recentes mais certeiras da gravadora Universal, Lauana nasceu em Goiânia (GO) e cresceu em Araguaína (TO), distante dos grandes centros. Autodidata, começou a cantar e tocar violão aos 14 anos. O início profissional veio no circuito de bares de São Luiz do Maranhão, depois de se mudar para a cidade para fazer faculdade de publicidade e propaganda. A mãe fazia questão que ela concluísse o curso, mas seus planos eram outros.

Fui criada no Tocantins e não tive muito acesso às artes, às escolas de música. Infelizmente esse é o retrato de muitos no Brasil.

Nessa época de vacas magras, chegou a ser vocalista de banda de baile e a cantar. A transição para o sertanejo, gênero que a acompanhou na infância e adolescência, veio como caminho natural e desafio.

Dez anos atrás não havia "feminejo", e mulheres como ela, cantora e compositora, eram vistas com desconfiança no meio artístico. "Na época ser mulher e cantar sertanejo, ainda mais vinda do Nordeste, era algo totalmente fora de cogitação para o mercado. Fui muito criticada por isso e também por ter participado de reality shows."

Sabemos que reality show é uma escola, mas as pessoas do business levavam minha participação para o lado depreciativo. Era como se nada daquilo pudesse agregar artisticamente. Aprendi muito nesses programas, principalmente no que diz respeito a ter humildade e ouvir opiniões de pessoas diferentes de você.

Lauana Prado

Assista ao clipe ao vivo de Melhor Saída

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Como Mayara virou Lauana

Lauana participou do The Voice Brasil em 2014 e, no mesmo ano, venceu o concurso Mulheres que Brilham do programa Raul Gil, o que lhe valeu o primeiro contrato com a Sony Music. Ela não conseguiu emplacar, mas fez barulho suficiente para chamar a atenção de Fernando Zor. Foi dele uma ideia que se mostraria decisiva.

"Comecei como Mayara Prado por ser o nome da minha família. Mas percebi que o nome acabou desgastando por tudo que eu já havia tentado. O Fernando conheceu meu trabalho, minha história, e sugeriu que eu trocasse", conta.

"Sendo bem honesta, Lauana não era um nome que eu considerava. Tinha preconceito. Na escola, amigos brincavam muito. Cresci com vontade de escondê-lo. Mas, quando fomos assinar contrato, o Fernando soube do nome e achou sensacional. Daí passei a vê-lo como um nome diferente, meio roots, que foge do conceito do sertanejo."

A "moderninha" do sertanejo

A guinada de Lauana abarcou desde sua embalagem. Em 2016, os shortinhos jeans, os cabelos negros e lisos e as camisetas regatas deram lugar a um visual mais despojado. Hoje, ela ostenta braço coberto tatuagens, cabelo com luzes douradas e eventuais tranças.

As tattoos à mostra contrastam com o look das demais sertanejas. São 18 tatuagens espalhadas pelo corpo. E ela planeja desenhar mais cinco ou seis em breve, em um estúdio no bairro paulistano do Morumbi, para fechar totalmente o braço e então começar a preencher a panturrilha.

"As minhas tatuagens acabaram virando meio que uma religião para mim. Têm muito significado. Quando lancei meu primeiro DVD, finalizei a tatuagem dele. Geralmente é assim. Sempre que crio um material, gosto de imprimi-lo em mim", diz ela, que se acostumou a flagrar olhares tortos, inclusive de artistas famosos no meio.

Sempre gostei muito de me conhecer e de me redescobrir. Acho que as tatuagens foram a pitada que faltava para eu ter uma embalagem que destoasse e não viesse a concorrer com ninguém.

Já sofri preconceito de pessoas de empresários e artista já projetados. Alguns viam as tatuagens, assustavam e diziam: "Mas, nossa!". Hoje são um trunfo. Tenho recebido muito respeito e admiração por causa delas.

Lauana Prado

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Cobaia é machista ou feminista?

Apesar de também ser compositora, Lauana não escreveu seu maior sucesso. Parceria com Maiara & Maraísa, "Cobaia" tem lavra de Bruno Caliman, o homem dos hits de ouro do sertanejo. Na letra, escrita originalmente na primeira pessoa masculina, ela encarna uma mulher que se dispõe a qualquer sacrifício para se dar bem na conquista --até ser "cobaia" do pretendido.

Pego sua toalha
Pra quando você sair do banho
Posso ser a cobaia
Pra quando você fizer seus planos

Estes versos da música já receberam pecha de machistas --e também de feministas. "Interpretação é sempre subjetiva. É uma música que fala de amor, de quando a pessoa se subjuga para viver algo, mas não de ser subjugada por alguém. Ela não diz respeito a ser mulher ou não."

Defensora da independência feminina em todos os âmbitos, Lauana, no entanto, não se enxerga como feminista. "Não me rotulo, mas sou uma pessoa despida de qualquer tipo de preconceito musical, racial, sexual. Acho que a arte precisa ter o fôlego de poder transitar por todas essas tribos sem criar nenhum tipo de atrito."

Veja o clipe de Cobaia, parceria de Lauana Prado e Maiara & Maraisa

O dia em que descobriu que era hit

Recém-chegada ao topo do sertanejo, a cantora confessa que ainda esquece que é artista de sucesso. Tudo aconteceu em ritmo acelerado, de 2018 para cá, com o lançamento de seus últimos dois discos.

"De vez em quando eu dou um lapso de esquecimento. Às vezes falo com meu assessor: 'Vamos ali na padaria?'. Ele responde: 'Menina, tá doida! Como vamos na padaria da cidade X? Não tem como."

A ficha da fama não caiu totalmente. Exemplo: o dia em que foi atração da 50ª Festa do Peão de Aparecida do Taboado, no Mato Grosso do Sul, e mal conseguia se ouvir em cima do palco. "Ver aquele mar de gente cantando minha música me emocionou de uma maneira muito forte", relembra.

"Essa experiência me marcou demais, porque aquele era um dos maiores rodeios do Brasil. Tive o privilégio de estar ali. Cantei com grandes nomes do sertanejo imprimindo meu jeito, meu estilo. Eu me emociono só de lembrar."

Como continuar fazendo sucesso?

Não há uma resposta exata para essa pergunta, mas já os planos já estão sendo traçados. O primeiro é continuar investindo em diferenciais. Na letra, na forma de apresentar e nos ritmos que ela, fã declarada de Bob Marley, Cássia Eller e Cazuza, pretende agregar.

Atualmente, Lauana divulga a segunda parte do projeto "Verdade", seu DVD de estreia. "Outra coisa que ajuda a lidar com esse sentimento de sucesso é Deus. Além disso, é preciso entender que exerço uma profissão. Sou uma cantora prestando um serviço para alguém, assim como existe o médico, o dentista, advogado", compara ela, que se classifica como católica "admiradora do espiritismo, umbanda e candomblé."

"Sou eclética em tudo", resume. "E, para falar a verdade, até me imagino cantando outra coisa. Num futuro próximo, eu me arriscaria em projetos paralelos com músicas mais pessoais, que me mostrassem em vertentes diferentes. Mas nunca vou abandonar o sertanejo. É minha essência. Costumo dizer que é a roupa que me veste melhor."

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