Liberdade sem voz é prisão

Fresno chega aos 20 anos de estrada com o disco mais político (e triste) da carreira

Felipe Branco Cruz Do UOL, em São Paulo
Marcus Steinmeyer/UOL

A música "Linda Juventude", da banda 14 Bis, toca no último volume na casa de Lucas Silveira, em São Paulo. O vocalista e líder da banda Fresno acabou de chegar em casa, depois de deixar a filha Sky, de 3 anos, na escola. Ele escolheu a canção para receber a reportagem do UOL em seu estúdio, instalado ao lado de uma pista de skate, usada por sua mulher, a tetra-campeã mundial Karen Jonz.

Aos poucos, os outros integrantes da banda, Vavo, Mário Camelo e Thiago Guerra, vão chegando, enquanto Lucas comenta a ironia da letra. "Que linda juventude? É irônico ouvir essa música enquanto falamos do nosso novo disco".

Para a Fresno, seu 8º álbum autoral, Sua Alegria Foi Cancelada, é o mais triste e político disco já lançado por eles. "Seria impossível não ser [político]. Vemos hoje uma onda de conservadorismo que flerta e beija na boca do fascismo, do racismo e da homofobia. Falamos da tristeza interna e da tristeza que se sente coletivamente na sociedade", diz Lucas.

Com 20 anos de carreira, a Fresno é uma das poucas bandas de rock do Brasil que surgiram no início dos anos 2000 e que se mantém relevante até hoje, enquanto viu muitos de seus contemporâneos se diluindo ao longo do tempo. Com o novo trabalho, o grupo deixa claro que ainda tem muito o que dizer.

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Questionar é preciso

Eles controlam
O que a gente vê
E criam mitos pra amedrontar
Mas o que eles não sabem
É que eu e você
E tantos outros vamos revidar

Trecho da música Convicção

Para Lucas, temas importantes da nossa sociedade hoje estão sendo discutidos mais com o estômago do que com a cabeça, e a música pode ajudar o debate.

"Não vejo o artista como o salvador do mundo, mas ele propõe mudanças necessárias ao lado de escritores, professores e também dos políticos. E são discussões, às vezes são tretas, não vamos agradar todo mundo. O problema é quando a democracia é colocada em jogo e aí começam a seguir um 'reizinho'".

Lucas quer que o rock assuma novamente o seu papel de questionador da política, que existia nas bandas brasileiras dos anos 1980 e que está sendo perdido. Ele cita, por exemplo, o cantor Lobão. "Ele é um questionador que deu a volta. Eu não estou em posição de dizer que uma pessoa é perdida ou não. Mas ele é um cara que, por ter diferenças quanto ao governo Dilma, abraçou o Bolsonaro. O que para mim é imperdoável."

O Brasil de hoje, por Lucas Silveira

  • Tradicional família brasileira

    "Tradicional família brasileira é onde há amor e disponibilidade, não importa se são dois pais, duas mães, um pai e duas mães, três pais. O que importa é o amor. Tradição sempre foi feita em cima do amor. Estamos trabalhando para que exista uma sociedade completamente diferente para a minha filha viver".

  • Porte de armas

    "Quando a arma cumpre o seu papel, é para matar. Para mim, é muito óbvio que a solução não é liberar mais armas. Imagine uma greve de caminhoneiros, com todo mundo armado, ou em uma briga de torcida. Me parece que estamos falando o óbvio, mas hoje em dia temos que dizer o óbvio".

  • Legalização da maconha

    "É notório que, não apenas a maconha, como qualquer droga, inclusive a cachaça, no cérebro de um adolescente em formação é muito ruim. A discussão da legalização da maconha passa pela educação. Com uma regulamentação e arrecadação, é uma tendência que mais cedo ou mais tarde o Brasil vai adotar".

  • Jair Bolsonaro

    "Quer saber o que pensamos dele? Basta ouvir o disco. O principal não é a figura do Bolsonaro, e sim o zeitgeist (mentalidade da época) em que vemos pessoas racistas, que não gostam do Nordeste, que têm horror a pobre, surgirem. No caso do Jair, ele já pensa e já fala sobre isso. O problema são as pessoas seguirem ele".

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O que sustenta o sucesso

Poucas bandas brasileiras surgidas no início dos anos 2000 conseguiram sobreviver às mudanças culturais dos últimos 20 anos. A Fresno, ainda que com alterações em sua formação, se manteve relevante no rock brasileiro, fazendo música, lançando novos discos e saindo em turnê. "Às vezes, a matéria que mantém uma banda unida é o próprio sucesso comercial. E sucesso vai embora", diz Lucas.

Sucesso quase sempre acontece sem querer. Se você é filho de um fazendeiro, ele pode comprar o sucesso momentâneo na rádio, mas o que sustenta uma banda é seu relacionamento com os fãs, que consomem sua música de graça.

Lucas, além de vocalista da Fresno, é também produtor musical. Já trabalhou em discos de grandes bandas de rock dos anos 1980, como RPM e Capital Inicial.

"O Capital Inicial, por exemplo, já tem o seu som. Meu trabalho com eles foi de administrar as inseguranças. O medo de errar é muito grande. Eu trabalho quase como um psicólogo e digo: 'Vem comigo'. Gosto de trabalhar com bandas que sou fã ou pelo menos saiba o repertório dela de trás para frente", explica.

Quando Lucas trabalha com uma banda nova, ele percebe se é um grupo bom ou não só pelo discurso. "Se uma banda chega aqui perguntando: 'O que você quer que a gente diga nas letras', eu respondo: 'Já tá errado, amigão'. O trabalho artístico de uma banda é o reflexo do que ela quer fazer. Eles não podem entrar no estúdio para escolher o que seria mais legal de fazer. Quando existe essa questão, é porque uma banda não está calibrando a sua expectativa com a realidade e vai se decepcionar".

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De Muse a Stranger Things

Com estúdio e produção próprios, a Fresno gravou as músicas conforme foram surgindo, num processo totalmente livre da influência de gravadoras. Depois de tudo pronto, assinaram com a BMG Brasil, que ficou com a função de distribuir, divulgar e cuidar do lançamento do álbum.

A identidade visual do disco também surgiu enquanto as músicas foram sendo gravadas. Todas as dez músicas de Sua Alegria Foi Cancelada foram lançadas com vídeos em formato vertical, próprio para ser visto no celular. Os clipes vieram com o rosto dos integrantes e outros com participações de influenciadores digitais ilustrando, como a youtuber Maju Trindade, a streamer de games Samira Close, e os irmãos Keops e Raony da banda Medulla.

Lucas ainda imagina uma cena que ilustre cada disco. Pare ele, o trabalho anterior, A Sinfonia de Tudo Que Há (2016), remetia a um astronauta vagando livre pelo espaço. No novo disco, a imagem é de um futuro pós-apocalíptico, algo como Blade Runner, Cowboy Bepop, Matrix e Mad Max. "Imagino essa coisa bem futurista, digital, mas vazando óleo e dando problema".

A influência sonora vem de bandas como Muse, como em Natureza Caos, por causa dos sintetizadores. "Matthew Bellamy (vocalista do Muse) já zerou as guitarras e agora começou a pirar nos sintetizadores. É uma referência inegável pra gente", diz. Queens of The Stone Age também entra no rol das influências por causa dos riffs de uma corda, como ocorre em We'll Fight Together. "Mas você vai reconhecer umas pegadas sonoras que remetem ao filme Tron e a série Stranger Things".

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"Make emo great again"

Na mesa de som do estúdio, Lucas tem colado um adesivo com a mensagem em inglês "Make Emo Great Again" (faça o emo grande novamente, na tradução livre, uma piada ao slogan adotado por Donald Trump, "Make America Great Again", em sua corrida presidencial). Até hoje, a Fresno é uma das maiores representantes do emocore no Brasil, ainda que nos últimos anos venha se distanciando do gênero. E muito por causa do preconceito de quem não entendia o conceito, o que ajudou a mudar até a sonoridade da banda. "Começamos a sentir muita raiva e a colocar essa raiva nas músicas", lembra.

Lucas percebeu, anos depois, que a rejeição contra o emo era, acima de tudo, um preconceito contra a homossexualidade. "O cara se arrumar, ter um cabelão massa e expressar suas fragilidades, de alguma forma, foi associado a ser gay. Mas essa discussão evoluiu".

Atualmente, o que ficou do emo na música foi a perda da vergonha e do medo de expressar seus sentimentos. "Você vê bandas que falam sobre sofrência indie, sad trap e coisas desse tipo. Tudo isso é influência do emo. Quando alguém me pergunta sobre composição, eu digo que ela tem que escrever sobre algo que a incomoda. Ela precisa botar para fora as coisas que estão presas dentro dela".

O emo, gênero que surgiu em meados dos anos de 1980 e ganhou popularidade na década seguinte, viu um revival surgir nos últimos anos. Blocos de Carnaval em São Paulo, por exemplo, saíram às ruas tocando músicas em homenagem ao estilo, e Lucas sempre marcou presença.

A Fresno é a Ivete Sangalo dos emos.

Para Lucas, o emo hoje é algo saudosista. "Os adolescentes dos anos 2000 são adultos e nem ligam sobre o que vão pensar sobre eles. Eles só querem se divertir, assim como eu".

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