Aprendi a me permitir

Di Ferrero conta como venceu a insegurança e autossabotagem para se assumir artista e não se levar tão a sério

Di Ferrero Especial para o UOL
Marcus Steinmeyer/UOL

Nunca tinha mergulhado em mim. Eu tenho 34 anos e, até pouco tempo atrás, eu não falava só por mim. Quando estava no NX Zero, mesmo se ia aparecer sozinho, eu me expressava respeitando o que os outros da banda iam gostar. Agora, sou só eu.

Quando eu olhava meu nome sozinho nos banners, eu pensava: "Será que eu estou sendo egoísta?". Mesmo com a pausa do NX Zero, para mim foi complexo até entender o que eu queria fazer.

Era um medo de dar a cara à tapa. E a insegurança? Não é uma banda, não é um alter ego. É meu nome que está ali.

Por muito tempo me perguntei: "Será que eu estou sendo injusto?". Pensei em viajar, passar um tempo fora, ir para Austrália, estudar inglês. Tirar um ano sabático. Fazer outra parada. Mas não consigo. Preciso fazer som, é isso o que me move. Mas não cheguei nessa conclusão do dia para a noite.

Demorei para entender que estava sendo eu mesmo. Demorei para entender que fiz uma passagem foda com a banda e pronto. Demorei para ver que está tudo bem. Meus amigos estão todos bem. Eu estou seguindo o caminho que eu tenho certeza que eu quero.

Tudo é um processo. É amadurecimento! E só de uns tempos para cá fiz essa leitura. Eu não era um frontman.

Marcus Steinmeyer/UOL Marcus Steinmeyer/UOL

Frontman, eu?

Tinha só 7 anos quando comecei a cantar na igreja. Meu primeiro show foi no Maracanãzinho em um congresso da igreja. Dá para imaginar o que é isso? Tinha um single bombado, já tinha gravado clipe e eu ainda era muito moleque. Lembro que vomitei de nervoso antes de entrar no palco. Não conseguia nem conversar. Tive tudo isso nas mãos naquela idade. Foi um sucesso. E, depois, não tinha mais nada.

É difícil ter confiança para recomeçar pela segunda vez. Como eu ia fazer isso? E aí veio o NX Zero. Na época, meu melhor amigo, o guitarrista Gee Rocha, estava saindo da banda e falou para eu entrar no lugar dele. Minha primeira reação foi negar. Eu disse: "Não posso fazer isso com você". E a resposta dele foi: "Se não for você, não vai ser outra pessoa". Aceitei. Entrei com sensação de culpa, mas depois de duas semanas todos os integrantes concordaram que ele devia continuar. E ele ficou.

Eu era muito tímido nessa época, mas essa característica acabou se transformando em um tipo de linguagem que muita gente se identificou. Algumas vezes, a timidez foi usada como qualidade e até um charme nesse lance do emo e da introspecção.

Nós éramos os excluídos e viramos maioria. Muita gente apanhava em casa, tinha depressão, era gay e a família não aceitava. Juntamos uma galera em um movimento. A gente fazia parte de algo que floresceu.

Com o tempo fui pegando confiança na hora de cantar, de estar em um palco. Fui me desenvolvendo até chegar onde estou hoje, em que posso fazer um programa de TV aberta e não me levar tão a sério. Para mim, toda aquela tensão se transformou só em diversão e arte. Aprendi a me permitir.

De peito aberto

Eu me permito ter uma carreira solo. A cantar. Até dançar. Fazer o que quiser dentro do que acredito como arte. Por que não?

Para chegar a essa conclusão, fiz muita terapia - e ainda faço -, mas o que me ajudou nesse processo foi ioga, tai chi chuan e meditação. É o que me deixa centrado para executar coisas que nunca faria antes, como o Show dos Famosos no Faustão. Quem diria que aquele menino tímido que cantava na igreja faria isso?

Só de pensar em estar no programa fazia meu coração começar a bater muito forte, e eu não queria me encher de remédio. Então todo domingo de manhã, antes da caracterização, eu fazia uma ligação de vídeo com a minha mulher, Isabeli Fontana, e ela me passava alguns exercícios, como uma instrutora. Isso me deixava muito centrado. Tem horas que não adianta só pensar e ficar calmo. Tem que ter atitudes físicas também.

Antes de me apresentar no Show dos Famosos, eu entrava no banheiro sozinho e fazia um exercício que chama respiração dos kahunas. Você conta até sete, prende o ar, depois solta e por aí vai.

E eu tenho um pozinho, que é só um ritual: passava ele em mim, na minha nuca, na sola do pé. Colocava um adesivo no meu umbigo para a energia não sair. Fazia de tudo um ritual. Eu faço isso e posso acreditar mais ainda que estou amparado. E aí eu dava um berro. Do tipo Thundercats. Alguma coisa para me inspirar. Pronto!

Eu não tenho distrações

A apresentação em que eu fiquei mais nervoso foi como Andrea Bocelli. É algo muito distante da minha realidade. É um deficiente visual que canta ópera. Ele pode ter uma limitação visual, mas tem uma das vozes mais lindas do mundo. Ele não tem nenhuma fraqueza. É o contrário.

E ali eu era Andrea Bocelli. Entrei demais no personagem, chorava o tempo todo. Passava 2 horas por dia com a lente para não enxergar nada. Aquela foi a primeira vez que entrei no palco sem ver ninguém. Só cantando e sentindo. Demorei uns dois ou três dias para sair dessa vibe.

Fazer esse tipo de meditação e práticas me mudaram. A primeira vez que tive contato com o tai chi chuan foi em uma vigília ufológica há dois anos. E eu não estava usando drogas. Pelo contrário, era algo bem tranquilo. Eu me senti muito bem e totalmente em paz. Antes dos shows, comecei a fazer os exercícios de respiração e entrei nesse mundo.

A Isabeli também tem um papel fundamental nisso. Quando a gente se conheceu, fui colocado em uma família. Tenho dois enteados que são um presente para mim. Eu não tenho distrações. Tenho vontade de estar com eles. Isso separa meu lado artista de estar em casa jogando Jogo da Vida, brincando com os gatos.

Foi de quatro anos para cá que comecei a ter uma relação com os moleques. Eles escutam todas as minhas músicas e me ligam o tempo inteiro. Um deles acabou de me ligar e perguntou se pintava o cabelo de loiro, azul ou verde. Aí eu falei: "Você quer ser mais bonitinho, punk ou loucão?". Aí ele respondeu: "Ahn, azul". E isso foi no meio das entrevistas que tenho feito para divulgar o meu novo disco, Sinais.

Tudo isso me deixa mais centrado na música. Não tem aquela distração de "ah, quero sair com uma mina, fazer uma loucura". Passei dessa fase.

Aonde eu quero ir

Quando você relaxa com a vida e com você mesmo, fica mais simples falar as coisas que precisa falar. Antes eu via uma separação: isso pode e isso não. Não tenho mais isso. E é o que me ajuda a ir em qualquer lugar, inclusive musicalmente.

Por exemplo: eu não quero começar uma música no computador. Quero que ela nasça no violão. Eu vim daí. Não consigo fugir disso, mas consigo usar as outras linguagens sem extrapolar meu limite do que acredito para o som. Experimentei muito e tentei tudo. Você tem que usar coisas a seu favor, mas é muito fácil se perder no caminho.

Antes eu estava angustiado sem saber o que fazer. Eu vivo isso intensamente. Acordo e durmo workaholic pensando em fazer música. O disco Sinais me trouxe confiança. Plenitude. É isso que eu sou.

Eu mudei o jeito que trabalhava até entender que não precisava mudar tudo. E é isso que não posso perder. Você fica vendo beat, computador, números, estudo de faixa etária, o que a molecada ouve... Eu preciso saber de onde eu vim para entender para onde eu quero ir. Porque desse jeito eu não passo por cima do que eu sou, em nenhum momento. Não estou falando nem de sucesso. É de fazer algo de verdade.

A minha ambição, hoje, é nunca mais deixar de confiar em mim. Eu tenho tudo o que preciso. Eu perco muito tempo com pressões externas que não vão me levar a lugar nenhum como artista.

Não quero ser refém

Às vezes até os fãs nos cobram e perguntam: "cadê o rock?". Como se eu fosse refém de algo que já fiz. E acabei me colocando nessa situação. Depois eu me toquei que preciso olhar para frente. Não quero ser refém de nada que eu já fiz. Por mais sucesso que eu tenha, eu estou ferrado.

Já me sabotei o tempo inteiro de propósito para conseguir sair daquilo. Não é um processo saudável. Tenho problemas físicos com isso. Me dá alergia de pele, fico mal, tenho febre. Me deixa doente. É algo sério. É fácil a gente se levar pra um lugar perigoso. Não precisamos sofrer para isso.

Você se põe para baixo para viver uma experiência sem perceber e sem querer, só para poder falar sobre isso. Hoje estou bem tranquilo para falar sobre tudo.

Antes, eu queria lacrar nas entrevistas. Forçar a barra. Falar uma frase de efeito.

Até me arrepia falar isso. Não sei por que eu queria fazer aquilo. Eu estava me procurando. Queria algo e não sabia o quê. Agora, ainda bem, estou relaxado. Me sinto bem e isso é muito foda.

Marcus Steinmeyer/UOL

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