Pequeno grande homem

Com "Dumbo", Danny DeVito reflete sobre sua carreira, seus filmes e o sucesso em ser diferente em Hollywood

Roberto Sadovski Colaboração para o UOL, na Cidade do México*
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"Eu tropecei."

Danny DeVito estava subindo no palco armado para a coletiva de imprensa da fantasia infantil "Dumbo", em um salão do Four Seasons Hotel da Cidade do México. Seu pé se enroscou no carpete da escada e o ator estatelou-se no chão.

Silêncio.

Queda feia, principalmente por se tratar de um senhor de 74 anos. Uma dúzia de jornalistas e fotógrafos ficaram sem ação. Dois seguranças logo apressaram-se em erguer DeVito, que sacodiu o pó e tomou seu lugar, sem nem por um segundo perder o bom humor.

Eu sou um ator tão bom que todos vocês acharam que eu caí de verdade.

A claque faz cara de paisagem. Confesso que caí no papo.

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A alegria de estar no set

Ao longo das últimas quatro décadas, Danny DeVito tornou-se uma força incomparável na paisagem hollywoodiana. Nascido em um lar católico de imigrantes italianos em Nova Jersey, ele saiu da American Academy of Dramatic Arts para dominar todos os aspectos de seu ofício. Seu ponto de partida foi o teatro, que o levou à TV e ao cinema.

Não contente em trabalhar sob os holofotes, passou também a produzir e dirigir, alimentando um currículo que abraça trabalhos com alguns dos nomes mais talentosos e ecléticos da indústria. "Dumbo" é resultado de uma dessas parcerias brilhantes, com o diretor Tim Burton, em sua quarta colaboração.

Tim é um dos artistas mais criativos e entusiasmados com quem eu já trabalhei. Se ele me ligar e disser que o filme sou eu em uma sala lendo um livro, eu topo.

"Dumbo", claro, foi um pouco além. "Quando Tim me procurou e contou seus planos, achei a ideia maravilhosa de imediato", conta DeVito, no dia seguinte ao tombo, em uma sala sem escadas, palcos ou carpetes mal intencionados. "Como sempre, foi uma experiência incrível. Filmamos por três meses em Londres, vestidos com o figurino brilhante de Coleen Atwood."

O ator conta que Burton usou cinco estúdios para construir os cenários do filme, porque precisava de controle total dos elementos, reproduzindo dia e noite, chuva e calor. "Tínhamos grama cobrindo um estúdio inteiro, com as paredes forradas com um fundo azul para adicionar o céu digital depois", empolga-se, descrevendo com entusiasmo os carros de época, os cenários ultra detalhistas e o trem que leva o circo de seu personagem, Max Medici, uma combinação de modelo real com efeito digital.

"Sem falar que a gente não tinha de filmar na rua, dava para ficar sempre no conforto do lado de dentro", continua. "O que, com a chuva de Londres, é um bônus e tanto."

Veja o trailer de "Dumbo"

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Fazendo coisas

Danny DeVito aos poucos consolidava sua carreira no teatro quando, em 1975, foi convidado para reprisar no cinema o personagem que interpretara numa peça off-Broadway: Martini, um dos internos no manicômio de "Um Estranho no Ninho", com direção de Milos Forman, em um elenco encabeçado por Jack Nicholson.

O sucesso foi imediato, mesmo que DeVito tenha escolhido emprestar seu talento considerável para a série de TV "Táxi", no ar entre 1978 e 1983, que lhe deu fama e reconhecimento --inclusive um Globo de Ouro e um Emmy. O fim de "Táxi" fez com que seu olhar mais uma vez se voltasse para o cinema - primeiro em "Laços de Ternura", mais uma vez ao lado de Nicholson, depois em "Tudo por Uma Esmeralda" (foto ao lado), aventura de Robert Zemeckis com Michael Douglas e Kathleen Turner. A essa altura, DeVito já era astro consagrado, sempre em busca do próximo desafio.

Se em 1984 DeVito arriscou dirigir um filme para a TV a cabo americana, a comédia "The Ratings Game", no cinema ele mostrou entender do riscado em 1987 com "Jogue a Mamãe do Trem", uma mistura de comédia e trama policial que homenageava sem pudor o clássico "Pacto Sinistro", de Alfred Hitchcock. Nos anos seguintes, ele imprimiu sua marca e seu ecletismo em uma série de longas que abraçavam o humor negro ("A Guerra dos Roses"), o drama biográfico ("Hoffa") e até a fábula infantil ("Matilda)".

Seu último filme como diretor foi "Duplex", que em 2003 uniu Ben Stiller e Drew Barrymore, mas ele ainda tem histórias para contar. "Estou de olho em um par de roteiros", deixou escapar com um ar de mistério. "Mas preciso de tempo. Fiz uma peça na Broadway e meio que tomei outro rumo quando voltei para a televisão. Já são 13 anos de Sunny".

"Sunny" é, na verdade, o modo carinhoso com que Danny se refere à sitcom de humor negro "It's Always Sunny in Philadelphia", que estreou em 2005 e segue forte. "Eu simplesmente gosto de fazer coisas", explica, justificando a enxurrada de projetos que não o deixar respirar.

Sinto que a gente não pode ficar parado. Temos de fazer coisas, todos os dias. E eu tenho muita sorte na vida em fazer coisas que me encantam e que são divertidas.

No meio tempo, DeVito arrumou espaço para criar uma produtora, a Jersey Films, ao lado da mulher, a também atriz Rhea Perlman. Criada para facilitar a produção de "Hoffa", sem as amarras de um grande estúdio, a empresa terminou por incentivar a carreira de uma pá de talentos, como Steven Soderberg e Quentin Tarantino.

O homem por trás de gênios

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Quentin Tarantino

Sem DeVito, é provável que não existisse Quentin Tarantino. O diretor, que preparava lançamento de "Cães de Aluguel", buscava produzir um roteiro que ele havia iniciado ainda antes de seu primeiro filme. Mas não estava disposto a aliviar na violência. Nessa época, Tarantino foi apresentado a DeVito por Stacey Sher, uma executiva em Hollywood que logo se tornaria presidente de produção da Jersey Films, produtora do ator. "Eu o ouvi por 10 minutos e só pensava que havia conhecido alguém que falava mais rápido que Martin Scorsese", lembra DeVito. "E eu disse que queria fechar um acordo para fazer seu próximo filme, não importa qual fosse." Calhou de ser "Pulp Fiction". O texto estava espalhado em cadernos, rabiscados à mão, longe da interferência dos estúdios. Ao concluir, Tarantino cravou um "Versão Final" na capa, mostrando sua indisposição a fazer mudanças no texto e a não se dobrar aos estúdios. DeVito comprou a briga. Quando o texto foi enviado para alguns atores, acompanhava um aviso em um bilhete: "Se você mostrar isso para alguém, dois sujeitos da Jersey [Filmes] vão te encontrar e quebrar suas pernas".

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Steven Soderbergh

"Sexo, Mentiras e Videotape" colocou o nome de Steven Soderbergh no radar da indústria. Sua estreia em 1989 redefiniu o cinema independente americano para a década seguinte e o diretor foi consagrado como um gênio moderno. Mas a história não foi bem essa. Nos anos que se seguiram à sua estreia, Soderbergh ficou travado em filmes que não iam a lugar algum, como "Kafka", "O Inventor de Ilusões" e "Obsessão". Quando ele parecia ser mágico de um truque só, Danny DeVito o convidou para dirigir "Irresistível Paixão", uma adaptação da obra de Elmore Leonard que DeVito comprara depois de protagonizar "O Nome do Jogo", outra adaptação do autor, alguns anos antes. Foi a combinação perfeita, anabolizada por um George Clooney no auge do charme como protagonista de uma história ambientada em tons de cinza. A parceria de DeVito com Soderbergh teve um segundo tempo ainda mais bem sucedido com "Erin Brockovich", que deu o Oscar de melhor atriz a Julia Roberts e marcou a única indicação de DeVito a um prêmio da Academia: ironicamente, como produtor.

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A trilogia do circo de Tim Burton

"A gente nunca batizou essa coisa oficialmente", brinca Danny DeVito. "Mas eu e Tim nos damos muito bem quando o assunto é circo." Dumbo é, claro, a peça mais evidente deste quebra-cabeças, já que a história do elefante voador é ambientada de ponta a ponta sob a lona de um circo. "Eu adoro o modo como Tim faz de sua equipe e elenco uma verdadeira trupe circense", continua. "O escopo da produção pode ser enorme, mas a gente sentia o tempo todo o espírito colaborativo, artístico e criativo de uma equipe menor."

Curiosamente, boa parte da construção visual dessa adaptação do clássico Disney traz semelhanças com o primeiro filme da "trilogia", um que não poderia ser mais radicalmente diferente: "Batman - O Retorno". Formado por criminosos performáticos, o circo na segunda aventura do Homem-Morcego comandada por Tim Burton definitivamente não era diversão para toda a família.

Eu adorei o Pinguim, e Tim criou um estilo operístico, exagerado. Era como se ele estivesse no palco do teatro La Scala, em Milão, gesticulando muito e bradando seus planos a seus pinguins. Faria de novo sem pensar duas vezes.

O filme que fecha essa trilogia informal é também o mais melancólico. Em "Peixe Grande", Burton usa o circo como palco para as jornadas do personagem de Ewan McGregor, que vive no limite entre o lúdico e o real, compondo uma bela história sobre família, sobre memórias, sobre amor. "É provavelmente o circo mais peculiar que eu já fiz parte", ressalta DeVito. "Eu era, afinal, um lobisomem".

Faltou pouco para essa colaboração circense se tornar uma quadrilogia, já que "Marte Ataca!" é, em boa parte, ambientado em Las Vegas, um verdadeiro picadeiro em forma de cidade. Mas ficamos no quase: nessa comédia que satiriza invasões espaciais, Danny DeVito não chega perto da lona, é um malandro que não sobrevive para contar a história. Tac Tac.

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Lugar de cinema é... no cinema!

Como toda discussão sobre cinema no século 21, é inevitável que a conversa gravite em torno do streaming. Com o avanço de plataformas como Netflix, Amazon e a recém-anunciada Apple, a definição de cinema pode se tornar nublada. Ou nem tanto assim. "Eu tenho uma sensação sobre isso, que não é exatamente uma posição", explica Danny. "Eu abracei os avanços tecnológicos, é maravilhoso carregar meu telefone em minha meia."

Ainda assim, existe um porém ancorado no bom senso. "Mas você vê um filme como 'Dumbo', uma história incrível contada por um grande artista, que precisa ser apreciada como Tim a imaginou, em uma tela gigante, em toda sua glória, com pipoca e com os amigos. A Disney vai disponibilizar em streaming, mas acredito que a primeira experiência tem de ser no cinema."

Ele arrebata com o filme que levantou a polêmica recente: "Roma". "Todo mundo estava assistindo em casa. Mas eu adoro o cinema de Alfonso Cuarón. E ele também fotografou o filme! Não queria ver todo esse trabalho na sala de casa. Se ele está disponível no cinema? Ah, eu já estou lá!"

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"É OK ser diferente"

Para Danny DeVito, voltar ao cinema em "Dumbo" foi fácil. "Eu adoro todo o processo de fazer um filme. Que Tim não me ouça, mas eu faria todo o trabalho só pela chance de observá-lo em ação. Tinha dias que eu só tinha uma cena, mas passava o tempo todo no set vendo Tim fazer sua mágica."

Essa mágica, por sinal, foi essencial para o ator entrar no mundo de "Dumbo". "O desenho original tinha pouco mais de 1h, é de 1941, eu nasci em 1944. Mas tenho clara a lembrança de assistir no cinema, e não na TV", continua. "É uma história com os elementos que identificam um filme para toda a família, como o circo. E, como num circo, temos um grupo unido por um sentimento de comunidade, atravessando tempos difíceis juntos, pessoas de verdade que podem tomar decisões erradas e se redimir."

O próprio Dumbo, por fim, fala forte para Danny DeVito.

Tim manteve o tema da reação quase xenofóbica a Dumbo e como lidamos com esse sentimento. As diferenças passam a ser atributos, e a história me remeteu ao filme que eu vi quando criança, que ressalta que é OK ser diferente.

DeVito respira fundo e pausa, refletindo sobre sua própria percepção. "Quando eu mostrei o desenho clássico a meus filhos, eu queria passar uma mensagem", lembra, com um sorriso. "Principalmente por eu ser essa pessoa tão marcante, eu entrava numa sala e as pessoas de estatura normal imediatamente voltavam sua atenção para mim. Eu sempre tive de lidar com isso. Dumbo ajuda a mostrar que é possível ser diferente e realizar tudo que a gente sonha. E que mesmo essa criatura estranha tem uma alma e precisa ser respeitada."

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