O prazer é delas

Como o cinema e a TV estão deixando para trás um de seus grandes tabus: as cenas de masturbação feminina

Beatriz Amendola Do UOL, em São Paulo

Uma faxineira que se alivia durante um banho de banheira; uma jovem escritora que se toca diante de uma janela escancarada em Nova York; uma adolescente que tenta entender o que lhe dá mais prazer.

Todas elas têm algo em comum: levaram cenas de masturbação feminina às grandes produções do cinema e da TV, que vão desde o filme oscarizado "A Forma da Água" (2017) às séries "Você" e "Sex Education", ambas da Netflix.

Agora, essas e outras mulheres estão fazendo Hollywood deixar para trás um de seus grandes tabus. E o melhor: retratando o momento íntimo com naturalidade e bom humor, como sempre foi com os homens.

Do desejo ao humor

Como Hollywood mostrou a masturbação feminina ao longo dos anos

A masturbação é algo comum a todos nós: em algum ponto todos fizemos, fazemos, pensamos em fazer ou tememos fazer.

A definição é da atriz Maeve Jinkings, 42, atriz dos filmes "Aquarius" (2016) e "Boi Neon" (2016) e novelas como "Onde Nascem os Fortes" (2018) e "A Regra do Jogo" (2015). Ela reconhece que, embora desconfortável, falar de sexualidade é uma parte da vida "tão natural quanto se alimentar e dormir".

No filme "O Som ao Redor" (2013), Maeve deu vida à Bia, uma dona de casa que aparecia em tarefas tão cotidianas quanto pouco vistas nas telas, desde fumar um baseado ao lado do aspirador de pó até se masturbar com uma ajudinha da máquina de lavar. 

Na época em que a produção de Kleber Mendonça Filho foi lançada, o cinema e a TV começavam a abraçar timidamente o auto-prazer das mulheres, no embalo de produções internacionais como a série "Girls", da HBO, e o filme "Cisne Negro" (2010). E as cenas sensíveis de Bia definitivamente causaram uma identificação no público. 

"Quando você fala de temas tabus sem tensão, as pessoas naturalmente se sentem mais confortáveis para agir assim também. Quebra-se um muro, eu acho", avalia Maeve em entrevista ao UOL.

"Comentários costumam vir acompanhados de um riso nervoso e cúmplice. Acho bonito ver o muro desmanchando enquanto falamos sobre algo tão comum a todos nós".
 

O raio-x de uma cena

Maeve Jinkings conta como foi o processo para a cena de Bia em "O Som ao Redor"

Antes

"A solidão e a rotina são parte da narrativa, então me pareceu muito natural quando surgiu no roteiro a cena da masturbação. Encarei a verdade dessa cena com a mesma honestidade emocional e física com o qual encarei fazer a cena da briga na entrega da TV. Além disso, Kleber foi extremamente cuidadoso, conversamos muito sobre o significado da cena conforme fazíamos sempre antes de filmar".

Depois

"Durante a filmagem, reduziram ao mínimo possível as pessoas no set para que eu ficasse mais relaxada. Ao final, Kleber também me deixou ver algumas imagens e me perguntou como me sentia em relação a isso. O tempo todo me senti muito respeitada. Acho que a cena reflete esse estado de intimidade e naturalidade. Hoje, quando a assisto, não me sinto sequer desconfortável".

Tabu ou não?

Pode-se dizer que ainda estamos percorrendo um longo caminho. Afinal, foram séculos e séculos de repressão em torno da sexualidade feminina e da masturbação em si. A prática ainda está longe de ser assunto corriqueiro nas rodinhas de conversas femininas, e 40% das brasileiras não costumam se tocar, de acordo com uma pesquisa divulgada em 2017 pela USP (Universidade de São Paulo). 

Mas não dá para negar que algo mudou de vez, aqui e lá fora. A apresentadora Eliana aproveitou o papo com Tatá Werneck no talk show "Lady Night" para incentivar as mulheres a se tocarem; a atriz Emma Watson falou abertamente sobre seu amor pelo OMGYes!, um site que promete ensinar as formas de uma mulher chegar ao orgasmo; e a modelo Mariana Goldfarb deu o pontapé em 2019 com uma foto que trazia um recado claro: "meninas também se masturbam". 

"A masturbação feminina não é mais tabu, mas é", define Carla Zeglio, psicanalista do Instituto Paulista de Sexualidade. "Ainda estamos em um processo de modificação social que tem responsabilizado a mulher, que tem deixado essa mulher mais tranquila com as possibilidades de masturbar-se e de conhecer o seu corpo."

Era inevitável que o cinema, a TV e as músicas refletissem esse momento. "Toda mudança social gera mudança nas artes. Isso mostra que a mulher também mudou, se sente mais dona de si, que essa mulher também está a fim de buscar o prazer sexual e não mais ter o sexo como obrigatoriedade reprodutiva", completa Carla, notando que a arte, por outro lado, também faz o assunto continuar em dia:

A gente só vai conversar sobre isso porque alguma mulher teve coragem de trazer para a arte algo que muitas mulheres não sabiam que podiam fazer.

Mulheres no comando

O aumento da presença feminina por trás das câmeras também explica o novo olhar que recaiu sobre esse momento tão íntimo. 

Por muito tempo, a masturbação feminina só era retratada em filmes cult dirigidos por homens, como a cena chorosa de Naomi Watts em "Cidade dos Sonhos" (2000), de David Lynch; a sessão de Maggie Gyllenhaal no banheiro em "Secretária" (2002), de Steven Shainberg; ou a sequência aflitiva e sensual de Natalie Portman em "Cisne Negro" (2010), de Darren Aronofsky.

De 2010 em diante, no entanto, o jogo virou - e as cenas ficaram mais diversas e mais reais.

A comédia "Two Broke Girls", exibida na TV aberta americana, brincou com o assunto ao mostrar Max (Kat Dennings) pegando Caroline (Beth Behrs) no flagra na banheira. E a provocativa "Girls" trouxe, logo em sua primeira temporada, Marnie (Allison Williams) se aliviando em um banheiro público.

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As duas séries foram criadas, ou cocriadas, por mulheres. "Two Broke Girls" era assinada por Whitney Cummings e Michael Patrick King, enquanto a série da HBO levava a assinatura de sua protagonista, Lena Dunham. 

Em uma prova de que não se trata de mera coincidência, foi assim com "Masters of Sex" (Michelle Ashford), "Insecure" (Issa Rae), "Fleabag" (Phoebe Waller-Bridge) e "Orange Is The New Black" (Jenji Kohan), que vieram depois e não tiveram vergonha de colocar suas personagens se dando prazer nas telas -- frequentemente, em momentos pouco glamourosos, seja improvisando com uma chave de fenda na prisão ou fantasiando enquanto assiste a um discurso do ex-presidente americano Barack Obama.

Poderosa Maggie

Em Hollywood, poucas mulheres fizeram tanto pelo prazer feminino como Maggie Gyllenhaal

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"The Deuce"

A atriz lutou para incluir uma cena de masturbação na série da HBO para mostrar sua personagem, a prostituta Candy, tendo um orgasmo genuíno. Deu certo, até certo ponto: o showrunner Dadvid Simon escreveu a cena, mas Maggie foi surpreendida na edição. "Eles tinham cortado o orgasmo", contou à revista "Hollywood Reporter". Ela não deixou barato: "Eu escrevi uma dissertação por e-mail e acordei às 6h para ver se eles haviam lido. Quando cheguei ao set, falei: 'Cadê o orgasmo?'. Eu expliquei de novo como era necessário, e eles colocaram na cena".

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"Secretária"

E essa não foi a primeira vez em que a atriz se posicionou a respeito de uma cena de prazer. Quase 15 anos antes, em "Secretária", ela teve de instruir o diretor Steven Shainberg sobre a posição correta para a cena em que Lee se masturbava. "Ele disse: 'Ok, então você se senta no vaso'. E eu falei: 'O quê? Como você se masturba assim?'. Ele não sabia", contou ela ao jornal "The Independent" em 2003, quando poucas famosas falavam abertamente sobre o assunto.

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No mainstream

A vontade de trazer para as telas o prazer feminino se estendeu às duas produções que se transformaram em hits da Netflix neste começo de ano: "Você" e "Sex Education".

Na primeira, a showrunner Sera Gamble fez questão de incluir uma cena em que a aspirante a escritora Beck (Elizabeth Lail) se satisfaz com uma almofada após uma transa com o namorado. A ideia, de acordo com ela, era estabelecer o quão invasivo estava sendo o stalker Joe (Penn Badgley), que a observava da janela. "É o que ela faz quando acha que está completamente sozinha e ninguém está vendo. Isso te dá uma noção de que Joe está vendo algo que não deveria", explicou à "Cosmopolitan". 

Já em "Sex Education", a roteirista britânica Laurie Nunn deu destaque a Aimee (Aimee Lou Wood), uma garota que não consegue ter um orgasmo. Aconselhada pelo colega Otis (Asa Butterfield), ela resolve descobrir o que lhe dá prazer fazendo o que nunca fez: se masturbando. A "sessão" é tão boa que ela chega extasiada à escola no dia seguinte.

A sequência fez a atriz Aimee Lou Wood se lembrar de suas próprias experiências no colégio. "É tão esquisito porque você escutava os garotos falando: 'Eu vi esse vídeo ontem à noite, bati uma, etc etc.' Eles não tinham vergonha nenhuma de falar disso na escola, e as meninas ficavam: 'Não sei o que é isso, não nos masturbamos'. Era um completo tabu. As garotas precisam falar: 'Isso é o que eu quero'. Fiquei muito feliz que isso está na série".

Nova perspectiva

A brasileira Maeve Jinkings também vê a relação entre as novas formas de retratar a sexualidade feminina com a tomada de controle das mulheres por suas próprias histórias. "Vejo as mulheres cansadas de serem vistas apenas sob a perspectiva do olhar masculino desejante. O desejo pode existir sem problemas, mas queremos ser vistas em nossa integridade, o que significa também que as mulheres querem exercer seu próprio olhar sobre o mundo e o comportamento humano". 

"Quando a mulher toma pra si a voz narrativa, naturalmente problematiza a forma como o homem se habituou, e escolheu, falar dela; essa voz fala sobre como as mulheres obtêm de seus parceiros menos prazer do que gostariam, de como há historicamente pouco interesse por nossas formas de prazer", completa.

Essa voz cada vez mais expressiva das mulheres, que se sentem à vontade para retratar na tela suas experiências (sexuais ou não), é uma realidade também no cinema nacional, que nos últimos anos viu cineastas como Juliana Rojas ("As Boas Maneiras") e Gabriel Amaral Almeida ("O Animal Cordial") se juntarem a nomes como Laís Bondanzky ("Bicho de Sete Cabeças"), Anna Muylaert ("Que Horas Ela Volta?") e Tata Amaral ("Um Céu de Estrelas"). 

"É um lugar que estamos aprendendo a ocupar e que, não sejamos ingênuas, também gera resistências, mas acho que não tem volta. Os homens mais inteligentes também sabem que a colaboração narrativa que as mulheres podem trazer em suas equipes pode favorecê-los, pois tornam suas obras mais complexas", analisa Maeve. "De todo modo, acho fundamental que as mulheres desenvolvam narrativas próprias, e o mercado já sabe que pode ganhar com isso, como exemplo o sucesso da série 'The Handmaid's Tale'".

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