A equação de Nic Cage

Oscar + memes + trash + cool = Como Nicolas Cage se tornou o talento mais intrigante de Hollywood

Carlos Helí de Almeida Colaboração para o UOL, em Macau (China)
Vittorio Zunino Celotto/Getty Images

Ele já foi ídolo infanto-juvenil, trabalhou em filmes ícones dos anos 1980, como "Picardias Estudantis" (1982) e "Arizona Nunca Mais" (1987), e até ganhou o tão sonhado Oscar, por sua interpretação em "Despedida em Las Vegas" (1995). Mas, ao chegar aos anos 2000, enveredou por uma errática e prolífera carreira em filmes de gênero, alguns de gosto muito duvidoso, como "O Sacrifício" (2006), sem, no entanto, perder a aura de um dos mais populares astros de Hollywood.

Aos 55 anos, celebrado no último dia 7 de janeiro, Nicolas Cage ainda cultiva uma legião de fãs que não conhece fronteiras. O ator, que já teve sua fase mocinho de comédias românticas, como "Lua de Mel a Três" (1992) e "Atraídos Pelo Destino" (1994), é recebido como um ídolo até países asiáticos, sempre à espera do próximo projeto excêntrico do americano, como "211", de York Alec Shackleton, policial rodado na Bulgária, ou o thriller "Running With the Devil" (2019), de Jason Cabell, ambientado na Colômbia.

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Vidrado pelos filmes da TV

Ao contrário do que muitos imaginam, Cage começou a vida profissional na televisão. Ele tinha 15 anos de idade quando George Schlatter, famoso produtor de TV dos anos 1970, criador de "Laugh In", um programa muito popular na época entre os americanos, o escalou para fazer uma série intitulada "Best of Times", centrada em personagens adolescentes.

Como muitos atores de sua geração, Cage foi introduzido no mundo do audiovisual pela televisão. "Lembro de, lá pelos meus 6 anos de idade, voltar da escola e ir direto para a frente da nossa televisão, um velho aparelho Zenith de tela elipsóide que ficava no meio da nossa sala. Achava aquelas pessoinhas que via dentro da TV pareciam mais interessantes do que as pessoas com as quais eu convivia, na vida real", contou o sobrinho do todo poderoso Francis Ford Coppola.

Além dos programas infantis, Cage era vidrado na programação de filmes das emissoras, na época. "Havia uma sessão chamada 'Million Dollar Movie', que eu não perdia. Foi nela que vi filmes com Sean Connery, como '007 Contra Dr. No', e as comédias do Jerry Lewis, que eu amava. Eles foram meus primeiros ídolos. Minha primeira noção abstrata do que era um ator veio deles. Minha relação com a TV me fez pensar no gostaria de fazer, quando crescesse."

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Estreia engavetada

"Best of Times", no entanto, acabou engavetado, e o piloto do seriado acabou exibido em formato de telefilme, em 1981. "Na verdade, agradeço que o programa não tenha vingando, pois eu sempre quis, mesmo era ser ator de filmes de cinema. Eu queria ser um James Dean", explicou Cage, que desde garoto frequentava um cinema de Los Angeles que exibia filmes antigos de seus ídolos, como Dean e Marlon Brando.

A performance de Dean em 'Vidas Amargas", de Elia Kazan, foi decisiva para o então adolescente Nicolas Cage. "Há um momento em o personagem de Dean tenta agradar o pai e é rejeitado, e o rapaz sofre um surto nervoso. É um momento extraordinário, não parecia falso".

Há de se reconhecer que há muito de Brando e de Dean nos primeiros grandes sucessos de Cage no cinema, entre os anos 1980 e 1990, quando trabalhou com diretores como Francis Ford Coppola, Alan Parker, David Lynch, os irmãos Joel e Ethan Coen, e Norman Jewison. Foi o período de ouro da trajetória do ator, que culminou com a conquista de seu primeiro (e até agora único) Oscar de melhor ator, pelo drama "Despedida em Las Vegas" (1995), de Mike Figgis.

Lembro de chorar dentro do cinema. Nada antes havia me afetado tanto naquele nível. Entendi o poder da performance e como ela afetava as pessoas. Disse para mim mesmo: 'É isso que quero fazer!'

Nicolas Cage, ao assistir a performance de James Dean em "Vidas Amargas" (1955)

Filmes memoráveis

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"Asas da Liberdade" (1984), de Alan Parker

No filme, Cage interpreta o sargento Alfonso "Al" Columbato que volta da Guerra do Vietnã com o rosto coberto de cicatrizes. Al é amigo de Birdy (Matthew Modine), um soldado que se afasta da realidade pensando que é um pássaro. Mesmo debaixo de bandagens, Cage, à época um discípulo do método de imersão no personagem, rouba a cena de seus colegas de set.

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"Arizona Nunca Mais" (1987), de Joel e Ethan Coen

Thriller cheio de humor negro sobre um casal de caipiras que não consegue engravidar. A solução, eles acreditam, é sequestrar um bebê. Mas manter as aparências dentro da legalidade, especialmente para a mulher, uma policial, interpretada por Holly Hunter, não é das tarefas mais fáceis, e o cerco sobre eles logo aperta.

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"Feitiço da Lua" (1987), de Norman Jewison

Comédia romântica de estrutura clássica, sobre uma mulher madura (a cantora Cher) que se apaixona pelo irmão mais novo (Cage) de seu noivo. O ator, que relutava, na época, em fazer filmes do gênero, foi convencido pela atriz; em troca, negociou com o seu agente para liberá-lo para fazer o "Um Estranho Vampiro" (1988), que mais lhe apetecia. A química entre os dois funciona.

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"Coração Selvagem" (1990), de David Lynch

Metido em uma jaqueta de pele de cobra e com os cabelos à la Elvis Presley, Sailor Ripley é um dos papéis mais icônicos da carreira de Cage. Ele, que acaba de sair da prisão, reencontra a namorada Lula (Laura Dern) e sai com ela para uma viagem pela Califórnia. A mãe da moça, inconformada com o romance, solta os cachorro e um assassino profissional atrás deles.

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"Despedida em Las Vegas" (1995), de Mike Figgis

Las Vegas é considerada a Disneylândia dos adultos, mas pode ser a capital dos sonhos frustrados. Cage, em performance contida, interpreta um alcoólatra que decidiu beber até morrer e escolheu a cidade no meio do deserto como local de velório. Lá é amparado por uma prostituta de bom coração (Elizabeth Shue).

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Performance exuberante em "Mandy"

Entre os mais aguardados trabalhos recentes de Cage, que em breve completa 40 anos de trajetória profissional, está "Mandy", filme de terror que causou sensação ano passado no Sundance Film Festival, a maior mostra de cinema independente dos Estados Unidos. A trama, prevista para chegar aos cinemas brasileiros este ano, é dirigida por Panos Cosmatos, filho do icônico cineasta George C. Cosmatos, um dos mais populares autores do gênero dos anos 1980.

No filme, Cage oferece mais uma de suas performances exuberantes, sinônimo de sua sede pela experimentação, que já o levou a inúmeros desastres profissionais, como "O pacto" (2011), com o qual recebeu ao prêmio Framboesa de pior ator. Os críticos e fãs, no entanto, viram algo de luminoso em seu Red Miller, lenhador determinado a vingar a amada, torturada e morta pelos integrantes de uma seita satânica.

"Acho importante não ficar preso ao naturalismo. Tento encontrar formas de explorar e experimentar outros estilos de atuação que me façam lembrar o que realmente seja uma performance", explicou Cage durante o Festival de Macau, em dezembro, onde foi homenageado pelo conjunto de sua obra, apresentou "Mandy" ao público chinês, e concedeu uma aula magna.

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A volta por cima

Durante muitos anos, Cage lutou contra a imagem que tinham dele, ou a trajetória que deveria seguir. "Ouvi muitos cochichos sobre minhas escolhas depois de 'Despedida em Las Vegas'. Como alguém que ganhou um Oscar com um drama sério daqueles começou a fazer filmes de ação como "A Rocha" (1996) e "Con Air - A Rota da Fuga" (1997)? Eu havia trocado de chave, e isso me agradava, e me agrada até hoje".

Cage ainda vê-se como o jovem ator em início de carreira, desejoso de experimentar coisas novas e aprender com os colegas. "Quando comecei a fazer filmes de ação com o produtor Jerry Bruckheimer, nos anos 1990, ele dizia que não se importava que eu desenvolvesse o meu personagem, contanto que isso não atrapalhasse o ritmo da trama", recorda o ator. Essas trocas são mais interessantes do que viver preso a um estilo de interpretação, um tipo de filme. É como voltar aos ídolos que me influenciaram".

O problema é que o ator parece ter enveredado por um caminho perigoso de personagens estranhos, histriônico e excêntricos, em inúmeros projetos esquisitos, como a fantasia "Caça às Bruxas" (2011), e "O Apocalipse" (2014). Some-se a isso uma série de extravagâncias, como a tentativa de compra de um esqueleto de dinossauro, e a aquisição de um castelo na Inglaterra, que quase o levou à falência, e temos um dos talentos mais intrigantes de Hollywood.

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