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Livro "The Kid", da autora de "Preciosa", não deve ganhar versão de Hollywood

A atriz Mo"Nique (dir.) contracena com Gabourey Sidibe em cena co filme "Preciosa - Uma História de Esperança" - Divulgação
A atriz Mo'Nique (dir.) contracena com Gabourey Sidibe em cena co filme "Preciosa - Uma História de Esperança" Imagem: Divulgação

14/07/2011 17h44

NOVA YORK (Reuters) - O primeiro livro de Sapphire foi transposto para o cinema no filme "Preciosa - Uma História de Esperança", inesperado ganhador de dois Oscars, mas a autora não prevê mais troféus de Hollywood para seu romance seguinte, que tem trechos dilacerantes sobre estupro e abuso sexual.

Seu primeiro romance, "Push" ("Preciosa"), sobre uma mãe adolescente no Harlem, obesa, analfabeta, sexualmente abusada e apelidada "Precious", saltou para o primeiro lugar na lista do New York Times dos livros mais vendidos, depois de o filme virar um sucesso improvável - 13 anos depois de ser lançado, em 1996.

Mas Sapphire, cujo estilo explícito e chocante já provocou controvérsias anteriores, continua sem se dispor a comprometer sua história e a linguagem forte em que é apresentada para "suavizar" seu novo livro para Hollywood.

Em "The Kid", Precious, a heroína que lançou a carreira da atriz Gabourey Sidibe, com uma indicação ao Oscar, é morta já no início. Sua mãe abusiva, o papel que valeu a Mo'Nique um Oscar de atriz coadjuvante, também está ausente.

"Uma versão que explorasse 'The Kid', especialmente que enfatizasse sua sexualidade, poderia destruir este livro", disse Sapphire à Reuters. "Com um filme, você tem aquela imagem visual. Hoje, para muitas centenas de milhares de pessoas, Gabourey é Precious. Mo'Nique é Mama, isso já está fixado nas cabeças. Não estou preparada para ver isso acontecer com este livro - ainda não."

Sapphire disse que, além disso, "The Kid", que relata a vida sofrida do filho de Precious, Abdul, ou "J.J.", é um material "mais arriscado". O livro inclui descrições explícitas sobre como Abdul é espancado com selvageria em lares adotivos, como é abusado sexualmente por padres católicos em um orfanato e do próprio Abdul estuprando um menino menor.

Sapphire, 60 anos, que é também uma poetisa aclamada, acha que seu livro poderia ser mais bem adaptado como espetáculo de dança, coreografado por exemplo pelo americano Bill T. Jones.

O parceiro de Jones, Bjorn Amelan, disse à Reuters que "há um grande respeito de Bill em relação a Sapphire, e a curiosidade dele está muito aguçada".

Sapphire não vê "The Kid" como sequência de "Preciosa". Enquanto Precious virou heroína por combater dificuldades enormes, Abdul é um retrato mais complexo, ela disse. Mas, como sua mãe, ele busca alívio através da arte, no caso dele, como dançarino.

"Ele tem uma capacidade maior de fazer o bem, mas também capacidade maior de fazer o mal, e é isso o que nós, como seres humanos, somos, em certo nível. Algumas pessoas canalizam isso e o escondem melhor, mas todos nós possuímos a capacidade do bem e do mal."

Sapphire revelou que começou a escrever "The Kid" antes de seu primeiro livro ser transposto ao cinema e admitiu: "O filme criou um mercado para este livro."

Ela descreveu o filme como "lindo", mas como uma experiência "surreal" que acabou levando-a a optar por não percorrer o tapete vermelho do Oscar.

A experiência apenas intensificou sua determinação de escrever e manter-se fiel a seu verdadeiro eu, mesmo que isso a levasse a ser rejeitada.

As resenhas feitas de "The Kid" até agora são variadas. O Los Angeles Times descreveu o livro como "obra de arte rematada", mas disse que, para alguns leitores, "as descrições de brutalidade e desejo podem ser demasiado difíceis de suportar" - observação à qual a autora está acostumada. (Por Christine Kearney)