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Ator faz sucesso como 'tia do Zap' que espalha fake news; você tem uma?

Fábio de Luca como Dona Helena - Divulgação
Fábio de Luca como Dona Helena Imagem: Divulgação

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

16/07/2020 12h00

Munida de mantimentos, lanterna e uma câmera de celular, Dona Helena está isolada na cisterna da família, onde grava seus vídeos. Completamente paranoica, ela não acredita na imprensa e defende Jair Bolsonaro, o uso da cloroquina e alerta sobre a conspiração por trás da pandemia, que tem origem em um conluio escuso entre China, Globo e o PT. Só não vê quem não quer.

A principal fonte de informação desta senhora?

Não é difícil de imaginar: nossos amados grupos de WhatsApp, onde as fakes news e teorias conspiratórias estapafúrdias correm soltas. Vai dizer que você não tem uma tia, tio ou parente próximo que não pense como Helena, interpretada pelo humorista Fábio De Luca no Porta dos Fundos?

Três coisas absurdamente hilárias com as quais Dona Helena já nos brindou

1. Ela já deu uma receita caseira de vacina para o novo coronavírus

Só pegar umas folhas de mamona carrapateira, salpicar tinta colorama em cima e espalhar pelo quarto depois de ligar o ar-condicionado no 15. É tiro e queda.


2. Já mostrou como fazer cloroquina em casa

Pegue uma dose de cloro, saião, boldo, pata de vaca, césio 147 virgem, espada de Santa Bárbara, adicione uma cusparada, três Cebions e esquente tudo em um tubo de ensaio. Não tem como dar errado.

3. E já mostrou de onde veio o curioso termo covid-19 --o melhor momento da Dona Helena, segundo o próprio ator

Preste bastante atenção na explicação detalhada que começa no minuto 1:17 do vídeo abaixo, que "desmoralizou" o biólogo e pesquisador Atila Iamarino.

Inspiração na família

Nós não conseguimos parar de rir com a Dona Helena —de nervoso, porque conhecemos gente assim— e resolvemos ir atrás do Fábio De Luca para explicar a criação da personagem. Ele diz que ela nasceu inspirada na própria família dele, que foi criado em Nova Iguaçu (RJ) em uma família de mulheres. Mãe, avó e tias estavam sempre por perto.

Funfun é respeito. (Consegue me achar?)

Uma publicação compartilhada por Fábio de Luca (@fabiodelucaa) em

Essa figura da 'senhora', separada, voz rouca de cigarro, sempre me perseguiu. Já a utilizei em algumas ocasiões no teatro. Mas agora percebi que ela se encaixa muito bem como 'tia do Whatsapp', que povoa os grupos de família de todo mundo e que nesse momento de pandemia ganhou muito destaque
Fábio de Luca, que não tem nenhum parentesco com Bruno de Luca

Aliás, a inspiração não veio só da família

No processo de criação da Dona Helena, que desde março espalha fake news no canal do Porta dos Fundos, Fábio usou a própria experiência em grupos de WhatsApp. Ele cita dois, em especial: o da própria família, onde diz ler com frequência incômoda textos que mais parecem saídos da boca da personagem, e um grupo do curso de canto que cursou e era cheio de senhorinhas.

E ele também teve como 'laboratório' grupos de Facebook, em especial os de anticiência, com membros terraplanistas e antivacina

Mas o da minha família foi o que mais me surpreendeu. Porque ali tinha gente que estudou. Tias supostamente bem informadas, mas que por teimosia querem defender um determinado lado do espectro político. Elas até admitem a existência de fake news, desde que não vá contra o que pensam
Fábio de Luca, que espera atingir todo tipo de público com os vídeos, inclusive o das 'tias do Zap'

Mas por que será que tanta gente acredita em absurdos e teorias conspiratórias, como as da Dona Helena?

Na opinião do humorista, Dona Helena é o símbolo de um Brasil frustrado, orgulhoso e populista. Um país que se decepcionou com os anos de esquerda no poder e agora enxerga em Jair Bolsonaro a figura do salvador, assim como aconteceu anteriormente com outros presidentes.

O Messias que nunca chega

Parece que nós, brasileiros, estamos esperando a chegada de um herói redentor desde a novela do Sassá Mutema ['O Salvador da Pátria']. E agora temos esse Messias, que no caso se chama Messias mesmo, caiu como uma luva para um monte de gente. Tenho muitas tias professoras que sempre foram PT e hoje defendem o Bolsonaro

Mas o que o futuro reserva à Dona Helena?

Na esquete do Porta dos Fundos, Dona Helena está há meses em sua saga presa na cisterna, testando a paciência dos parentes no telefone e a própria sanidade. E, como já adiantou o clipe em que canta seus absurdos ao estilo Anitta, ela deixará o local em breve, já no próximo vídeo. Seu drama agora será outro: saber se pode enfim sair de casa e ir ao shopping sem um motivo aparente.


Curiosidade: Helena se isolou cisterna apenas por ter medo da pandemia. Criado e roteirizado pelo ator, o quadro foi inspirado no mito da caverna de Platão

Sim! Helena não está isolada na cisterna apenas porque tem medo da pandemia. Presente na obra "A República (Livro VII)", a alegoria da caverna mostra como o ser humano pode se libertar da ignorância que o aprisiona, representada pela escuridão, encontrando a saída e, assim, a luz da verdade. Só não sabemos ainda se teimosa Dona Helena alcançará tamanha iluminação.

Ficou curioso para saber onde o Fábio grava os vídeos?

Faço no meu quarto mesmo (risos). Apago a luz e fico embaixo da minha cama. Boto ela de pé, encostada na parede, para ficar como cenário. É a cama que cria aquele fundo marrom. Algumas pessoas perguntam de onde veio o nome Dona Helena, mas não veio de nenhuma pessoa. Criei só porque rima com quarentena (risos)

Quem é Fábio de Luca, que não está na Wikipedia

É um ator, humorista e roteirista de 40 anos que entrou oficialmente para o elenco do Porta dos Fundos em janeiro. Passou anos estrelando espetáculos em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e interior do Rio. Ele estreou na internet em 2013, no canal Parafernália, que também revelou o colega de Porta dos Fundos Rafael Portugal.

Quekié? Eu hein... Foto da maravilhosa @karengadret

Uma publicação compartilhada por Fábio de Luca (@fabiodelucaa) em

Espírita, ele também tem um canal próprio, chamado Amigos da Luz, que mistura humor com espiritualidade --que para Fábio tem tudo a ver

Tive a chance de trabalhar com pessoas maravilhosas na Baixada e interior. Pessoas talentosas e relevantes regionalmente, mas que ninguém conhece. Para a gente, alugar um teatro na zona sul do Rio sempre foi muito caro. Felizmente, a internet ajudou a quebrar essa barreira para artistas descolocados do mainstream

Vida longa à Dona Helena --e morte às fake news!

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