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Série expõe teia de poder de Jeffrey Epstein que gerou ameaça do Anonymous

Jeffrey Epstein e sua teia de abusos mostrados em série da Netflix - Reprodução/Netflix
Jeffrey Epstein e sua teia de abusos mostrados em série da Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix

Renata Nogueira

Do UOL, em São Paulo

03/06/2020 04h00

No último fim de semana, o grupo de hackers Anonymous ameaçou divulgar dados de um escândalo sexual que chacoalhou os Estados Unidos nas duas últimas décadas e culminou com a queda de um secretário de Donald Trump e na morte do principal acusado: Jeffrey Epstein.

Dias antes, a Netflix havia lançado a minissérie "Jeffrey Epstein: Poder e Perversão", um "true crime" que revê a história do misterioso milionário que circulava entre poderosos pelo mundo e abusava de sua rede de influência para se livrar de crimes sexuais que cometeu durante décadas.

A morte de Epstein, registrada como suicídio, encerra um capítulo da história, mas não apaga os graves rastros deixados pelo predador sexual, como os registros em fotos e vídeos que podem comprometer muita gente poderosa.

Parte desse material é exibido na série, que o UOL assistiu na íntegra para explicar a complicada teia de poder e crimes sexuais.

Quem era Jeffrey Epstein?

Essa é a pergunta que levou a jornalista Vicky Ward, da Vanity Fair, às primeiras vítimas. Escalada para fazer um perfil do misterioso milionário que circulava pela alta sociedade nova iorquina, ela acabou descobrindo com uma de suas fontes o lado obscuro do figurão, mas foi impedida de publicar a história por falta de provas, segundo seus editores na época.

Vanity Fair com Jeffrey Epstein - Reprodução/Netflix - Reprodução/Netflix
Matéria da Vanity Fair com Jeffrey Epstein: no lugar de denúncias, versão final exalta o milionário
Imagem: Reprodução/Netflix

Como ele fez fortuna?

A origem da fortuna que Epstein acumulou segue com muitas incógnitas. A série mostra as posses e propriedades do milionário e as poderosas relações que ele criou desde que foi trabalhar em Wall Street, nos anos 1980. Les Wexner, bilionário do mercado da moda, diz que o financista desviou US$ 46 milhões de sua fortuna na época em que confiou a ele seus negócios.

O que ele fazia com as vítimas?

Segundo o relato de dezenas de vítimas, o predador sexual pagava US$ 200 para que garotas menores de idade fossem até a sua casa aplicar massagens que evoluíam para atos sexuais. Boa parte dos casos ocorreram em uma mansão na ilha de Palm Beach, na Flórida, mas algumas garotas chegaram a viajar com ele pelo mundo e eram "emprestadas" a seus poderosos amigos.

O dinheiro compra (quase) tudo

O perfil das vítimas seguia um padrão. Meninas em idade escolar, a maioria de West Palm Beach, a parte menos privilegiada da região de mansões, com histórico de vulnerabilidade. A ingenuidade e falta de perspectiva atraiam as jovens para as promessas de uma vida melhor feitas pelo milionário, que chegou a financiar estudos e viagens para parte das vítimas.

Michele Licata - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
Michele Licata, uma das vítimas do predador sexual Jeffrey Epstein
Imagem: Divulgação/Netflix

Um preço muito alto

Segundo os relatos, todos muito similares, as meninas eram submetidas a sexo a três com a participação de Ghislane Maxwell, apresentada como namorada de Epstein e principal cúmplice do esquema. A socialite britânica nega todas as acusações. A mulher seria a responsável por comandar a rede de aliciamento e as vítimas eram orientadas a levar outras menores para o esquema.

Quem são os poderosos envolvidos?

Donald Trump e Jeffrey Epstein - Reprodução/Netflix - Reprodução/Netflix
Donald Trump e Jeffrey Epstein em 1992 durante festa na mansão do então empresário e atual presidente dos Estados Unidos
Imagem: Reprodução/Netflix

A série é baseada em depoimentos, entrevistas e documentos sobre as investigações que envolvem Jeffrey Epstein. Muitos poderosos são expostos por seus elos com o criminoso, mas apenas dois deles são acusados pelas vítimas de abuso: O príncipe Andrew, filho da rainha Elizabeth, e o advogado Alan Dershowitz, professor de Harvard que atuou na defesa do milionário.

Quem aparece ao lado de Jeffrey Epstein na série:

  • Príncipe Andrew, membro da Família Real Inglesa
  • Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos
  • Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos
  • Kevin Spacey, ator acusado de crimes sexuais
  • Chris Tucker, ator
  • Harvey Weinstein, produtor acusado de crimes sexuais
  • Woody Allen, diretor acusado de crimes sexuais

O que dizia Jeffrey Epstein?

A todo momento a série repete a resposta padrão de Jeffrey Epstein para as perguntas mais difíceis de seu julgamento, que foi gravado:

Invoco meus direitos à quinta, sexta e 14ª emendas à Constituição dos Estados Unidos

Seguindo a orientação de seu time de advogados, Jeffrey Epstein usou repetidas vezes seu direito de permanecer calado.

E os outros acusados?

Princípe Andrew - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
Princípe Andrew, a vítima Virginia Roberts Giuffre e Ghislaine Maxwell, que seria cúmplice de Jeffrey Epstein
Imagem: Divulgação/Netflix

Em uma entrevista cedida à BBC e com trechos exibidos na série, o príncipe Andrew nega a acusação de ter mantido relações sexuais com uma das vítimas quando ela tinha 17 anos. Ele ainda diz não se lembrar de ter tirado uma foto abraçando a vítima, apesar de o registro existir.

O príncipe se afastou de suas funções reais após o estouro do escândalo e o Palácio de Buckingham também se posicionou sobre o caso:

Sua alteza real deplora a exploração de qualquer ser humano, e é repugnante a mera sugestão de que toleraria, participaria ou encorajaria esse tipo de comportamento

Já o advogado Alan Dershowitz dá sua própria versão em entrevista à equipe da Netflix e ainda desafia a vítima a afirmar mais uma vez que manteve relações sexuais com ele. Virginia Roberts Giufrett, que hoje vive na Austrália por medo de retaliação, reafirma sua acusação diante das câmeras da equipe.

Investigações paralelas

Alan Dershowitz - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
O advogado Alan Dershowitz, professor de Harvard e um dos defensores de Jeffrey Epstein
Imagem: Divulgação/Netflix

Outro ponto crucial é o acordo feito em 2008 entre Jeffrey Epstein e o governo que o colocou na prisão por apenas 12 meses e o livrou de uma pena mais pesada. A negociação aconteceu depois de uma longa investigação da polícia da Flórida no início dos anos 2000 sobre o misterioso bon vivant de Palm Beach.

Procurador-geral do Estado da Flórida na época, Alexander Acosta interferiu no caso de Epstein, o que foi provado anos depois, quando a polícia de Nova York resolveu reabrir a investigação. A revelação resultou em sua renúncia ao cargo de secretário do Trabalho de Donald Trump, em 2019, meses antes do suicídio do predador sexual.

Provas cabais

Na reabertura das investigações, a polícia encontrou uma grande quantidade de fotos de garotas nuas e passaportes falsos nos cofres da propriedade de Jeffrey Epstein em Manhattan. Além disso, a mansão vertical tinha um quarto de vigilância com câmeras instaladas em cada canto da casa, inclusive banheiros, que registravam a movimentação de meninas e poderosos.

Morte duvidosa

Até hoje as circunstâncias que levaram à morte de Jeffrey Epstein dentro de um presídio em Nova York são questionadas. Ele foi encontrado caído de seu beliche enforcado com um pedaço do lençol em 10 de agosto de 2019. Um legista contratado pelo irmão de Jeffrey, Mark Epstein, constatou que as fraturas no pescoço do cadáver não correspondiam a um ato suicida.

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