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Iza critica romantização da pandemia: 'Não estamos todos no mesmo barco'

Iza no clipe de "Let Me Be The One" - Rodolfo Magalhães/Divulgação
Iza no clipe de 'Let Me Be The One'
Imagem: Rodolfo Magalhães/Divulgação

Renata Nogueira

Do UOL, em São Paulo

21/05/2020 04h00

Ermelinda sonha com um mundo onde os ricos saibam dividir com quem menos tem, e o governo também possa oferecer mais e melhores cuidados aos pobres.

A história da indígena Ermelinda Yêpario foi contada em uma carta escrita à mão que Iza enviou ao UOL para divulgar seu novo projeto.

A cantora lança hoje, às 14h, o clipe de 'Let Me Be the One', em parceria com Maejor. A música e o clipe fazem parte de uma campanha da brasileira e do americano com a ONU (Organização das Nações Unidas) e a Fundação Humanity Lab para dar mais visibilidade aos refugiados, às pessoas em situação de vulnerabilidade e à diversidade.

Batizado de Be the One, o projeto foi idealizado antes da pandemia da covid-19 e teve o clipe gravado em fevereiro, com a presença dos dois artistas e das pessoas que tiveram suas histórias contadas nessas cartas, enviadas à imprensa.

Em entrevista ao UOL por telefone, Iza conta como ressignificou seu trabalho e reflete sobre a quarentena. Isolada desde 14 de março, a cantora admite que já tinha pensado em dar uma pausa nos shows e fala sobre privilégios: "Não estamos todos no mesmo barco".

Veja como foi o bate-papo:

A campanha 'Be the One' e a gravação da música e do clipe aconteceram antes da pandemia. Como vê esse projeto se encaixando na situação atual?

É muito louco isso. Íamos lançar em 20 de março, uma semaninha depois de terem anunciado a quarentena aqui no Brasil. Tivemos que reformular, jogar tudo para a frente. E, no fim, acabou que falamos de consumo consciente, responsabilidade com o ambiente, várias coisas que precisam muito ser faladas neste momento de pandemia. A mensagem veio no momento certo.

Não estamos todos no mesmo barco. Romantizar a quarentena é um privilégio.

Falamos de lavar as mãos e tem gente que não tem nem água encanada em casa. Doei cestas básicas no início da quarentena e, depois, recebi a informação de que muitas mães as estavam recebendo, mas nada podiam fazer porque não tinham dinheiro para o gás. As condições não são iguais, e a quarentena ressalta as disparidades. É preciso não só cobrar as lideranças, mas também tentar fazer diferença na vida dessas pessoas. A ideia [da música e do clipe] é dar visibilidade para isso.

Participar de uma campanha global com a Fundação Humanity Lab e a ONU é o projeto mais impactante da sua carreira até agora?

Falo de várias coisas com a minha música, nem sempre ligadas a causas sociais. Falo das minhas vivências, de sexo, de traição, de amor, de festa. Só que algumas músicas vão além. 'Pesadão', por exemplo, fala de resiliência. 'Ginga' também. Já 'Dona de Mim' fala sobre a questão de ser mulher. Mas, sem dúvida, essa ['Let Me Be the One'] é uma das mais especiais. Respeito para caramba o trabalho da ONU e é inegável o impacto deles nessas questões. E fazer parte disso mexe muito comigo.

Iza e Maejor posam com pessoas convidadas para a campanha 'Be The One', da ONU, no clipe de 'Let Me Be The One' - Rodolfo Magalhães/Divulgação
Iza e Maejor posam com pessoas convidadas para a campanha 'Be The One', da ONU, no clipe de 'Let Me Be The One'
Imagem: Rodolfo Magalhães/Divulgação

Além da questão social, 'Let Me Be the One' é mais uma parceria com um artista internacional, o Maejor. Pensa em investir na carreira fora do país?

Nem imagino essa música como parte de uma carreira internacional. Penso mais como um movimento. Ela chegou para mim totalmente em inglês, mas resolvi escrever uma parte em português, porque achava importante comunicar para o Brasil. Talvez eu lance mais músicas em inglês, mas uma carreira internacional precisa de mais coisas. De um agente lá fora... Todo o corre que a gente faz aqui no Brasil precisa acontecer lá fora também. Mas não descarto essa possibilidade no futuro.

Como você avalia o papel dos artistas na quarentena?

A gente tem levado muito entretenimento para as pessoas que estão em casa, muitos respiros. A arte está ganhando um papel essencial nesta pandemia.

Lazer e entretenimento são muito importantes, mas além de entreter, eu também tenho a missão de levar informação e impactar no social.

Iza e Ermelinda Yêpario (à esquerda), personagem da carta enviada pela cantora ao UOL, no clipe de 'Let Me Be The One' - Rodolfo Magalhães/Divulgação
Iza e Ermelinda Yêpario (à esquerda), personagem da carta enviada pela cantora ao UOL, no clipe de 'Let Me Be The One'
Imagem: Rodolfo Magalhães/Divulgação

Muita gente está se cobrando para ser produtiva durante a quarentena. Você tem a vantagem de estar confinada com o seu marido e produtor [Sérgio Santos]. Está conseguindo trabalhar e criar músicas novas?

Rolou uma coincidência. Em dezembro do ano passado, eu já tinha decidido parar em abril, maio e junho. Não ia fazer nada, porque eu precisava descansar. Meu corpo já estava pedindo para eu parar, minha mente também. Estava tendo alguns problemas por causa do excesso de trabalho e da correria. Então, eu já estava preparada para ficar estes meses em casa. Mas estou pensando em fazer meu próximo álbum, em um monte de coisas...

A verdade é que na primeira semana da quarentena eu estava uma pilha de ansiedade.

A gente não sabia o que ia acontecer, não sabia quando poderia voltar, como estavam as pessoas da equipe. Tudo foi muito complicado de digerir. Agora, depois de dois meses, é que eu começo a produzir. Já gravei algumas coisas, algumas parcerias que vão sair. Mas nas primeiras semanas eu estava em um momento de negação. Eu não queria fazer nada. Quando ficou ansiosa eu travo. Estava mais preocupada em cuidar da minha cabeça do que em ser produtiva. Estou aprendendo a respeitar os meus limites.

O Brasil está em um momento complicado, em que falta um alinhamento entre o governo federal e os estaduais e municipais. Acha que a solução virá de fora, de entidades internacionais como a ONU?

Temos total capacidade de ser a mudança.

É sobre isso que a campanha fala. Essa história de 'be the one' é para sugerir e mostrar para as pessoas que se você quer mudar o mundo, a política, o seu entorno, essa mudança precisa começar em você.

É preciso olhar e pensar como as suas atitudes podem fazer diferença na vida de outras pessoas. O que você precisa mudar para poder cobrar isso dos outros? Tudo precisa começar dentro da nossa casa. Não somos os únicos que estão passando por problemas no mundo. O mundo todo está nessa.

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