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Por que interesse de Anitta por política é a melhor notícia de 2020

Anitta - Divulgação
Anitta Imagem: Divulgação

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

20/05/2020 04h00

Em meio às mortes provocadas pelo novo coronavírus, a angústia do isolamento social e o caos instaurado em Brasília, 2020 tem pelo menos uma notícia realmente positiva, digna de todas as comemorações: Anitta, 27 anos, está se interessando por política.

Desde a semana passada, a cantora pop mais famosa do Brasil vem promovendo lives semanais com a comentarista Gabriela Prioli, que ministra verdadeiros "aulões" sobre o tema. Nessa, Anitta já aprendeu como funcionam os poderes e teve noções do que é direita e esquerda.

No último domingo, depois de conversar com o deputado Felipe Carreras (PSB) sobre direitos autorais, Anitta tentou entender com Alessandro Molon, deputado federal e líder do PSB na Câmara, a chamada "MP da grilagem", polêmica medida provisória que facilitaria a invasão de terras.

Se você não gosta da música, do estilo ou personalidade de Anitta, tudo bem. Mas é preciso reconhecer que o interesse dela, que confessou se sentir pressionada a comentar sobre política, é um bem necessário para o Brasil. Entenda abaixo o porquê.

Porque ninguém nos ensinou isso na escola

Como frisado pela própria Prioli na live de estreia com Anitta, nós não aprendemos sobre tópicos como Executivo, Legislativo e Judiciário na escola, e isso acontece por um motivo. Historicamente, especialmente durante regimes de exceção, governantes alienaram esse tipo de conteúdo de instituições de ensino com intuito de manter sua prerrogativa de poder.

A lógica é simples. Quanto mais afastados e menos entendemos a respeito das esferas de decisão, mais difícil se torna cobrar governos que precisam ser eleitos por nós. Trata-se de uma questão de cidadania. A política deve, sim, ser ensinada desde cedo, e Anitta, com milhões de seguidores jovens, tende a ser uma das melhores incentivadoras.

Porque Anitta é influente

Em apenas três dias no ar, as aulas de Anitta com Gabriela Prioli já bateram mais 6 milhões de visualizações apenas no Instagram da cantora, que conta com 47 milhões de seguidores. Os vídeos, de cerca de uma hora de duração, já foram descritos por fãs como "necessários", "perfeitos" e "serviço de utilidade pública", chegando a incomodar políticos.

Mas não estamos falando de alguém pegando carona na popularidade alheia para divulgar um trabalho, insuflar uma pendência ideológica ou simplesmente lançar uma candidatura —não agora. As conversas foram propostas pela própria Anitta, possuem fins exclusivamente didáticos e não tratam de partidarismo.

Porque ela é uma voz feminina

Outro dado relevante e que tem a ver com o discurso de Anitta: o Brasil possui apenas 77 deputadas federais mulheres, em um universo de 513 cadeiras legislativas, o que coloca o país atrás de 151 nações no campo da representatividade. Esse é um problema grave, que o interesse da artista pelo assunto pode ajudar a solucionar.

Ela é conhecida por ter um gigantesco público feminino —sem contar LGBT+. Jovens que curtem se divertir, rebolar descendo até o chão, mas que também são cidadãs e volta e meia precisam explicar a pais, tios e avôs nos almoços de família que Ministério Público é uma coisa e Poder Judiciário é outra. Em tempos de fake news e desinformação, eis mais um antídoto.

Porque Anitta mostra a coragem que outros artistas não têm

Ponha-se no lugar dela. Você assumiria publicamente que pouco ou nada sabe sobre um dos assuntos mais importantes da nossa sociedade? Admitiria para milhões que as palavras como procurador, desembargador e ministro da Justiça soam como grego na sua cabeça? O desconhecimento de Anitta não é diferente do de milhões brasileiros, e aqui ela se mostra mais corajosa que vários colegas da música popular.

Mesmo se o interesse dela não for totalmente genuíno, o objetivo, ao menos, é 100% nobre. É como ela mesma explicou na live com Molon:

Estou começando a entender agora o que é direita e esquerda, o que são partidos. Então, não estou aqui para promover ninguém. Quero que as pessoas, principalmente da minha geração, sintam interesse na política e entendam de maneira fácil

Que Anitta sirva de exemplo.