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Moraes Moreira foi o artista mais criativo da história da música brasileira

Luiz Pimentel*

Colaboração para o UOL, de São Paulo

13/04/2020 14h04

Você pode gostar ou não da música que Moraes Moreira produziu durante 51 dos 72 anos que viveu. Mas não encontrará um músico mais inventivo do que ele na história sonora brasileira. Daí ser até injusto lembrá-lo no falecimento como o eterno Novos Baianos ou (apenas) autor de hits como "Pombo Correio", "Festa do Interior" ou "Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira".

Moraes foi isso. Também. Mas ele foi um milhão de outras coisas e influenciou um bilhão de manifestações musicais na trajetória interrompida neste 13 de abril.

Nasceu em Ituaçu, uma pequena cidade distante 470km da capital baiana Salvador. Lá começou criança tocando sanfona em festas de São João, mudou para o violão e foi para Salvador, onde conheceu na pensão em que morava Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor. Conheceu também Tom Zé, na época em que vestiu a camisa de cientista musical e transformou sua vida artística em laboratório, de onde emergia sempre com algo tão genial quanto inusitado.

Com os dois companheiros de pensão e os reforços de Baby Consuelo e Pepeu Gomes criaram os Novos Baianos, do qual fez parte entre 1969 e 1975, combo só comparável no país em inventividade aos Mutantes, na mistura de ritmos e gêneros e estética e tudo o mais que cabe à música.

Tanto que a Rolling Stone fez uma votação em 2007 para os 100 Maiores Discos da Música Brasileira e a obra-prima do grupo, "Acabou Chorare" (1972), ficou em primeiro lugar. Sim, à frente de todo o restante de toda produção nacional, de Cartola a João Gilberto, passando por Elis & Tom.

Mesmo após os sucessos de "Preta Pretinha", "Besta é Tu", a gravação de "Brasil Pandeiro", de Assis Valente, Moraes resolveu sair da zona de conforto do conjunto em 1975 e visitar o restante do Planeta Terra sonoro.

Foi o primeiro cantor de trio elétrico da Bahia, com Dodô e Osmar, onde produziu outros hits como "Vassourinha Elétrica" e "Pombo Correio".

Simultaneamente, começou carreira solo onde visitava do choro ao samba, passando por música erudita e rock, desprovido de qualquer preconceito.

Basta olhar as obras e turnês que promoveu.

Em 1994 inventou o "Brasil em Concerto", onde celebrava música erudita.

Logo depois, durante visita à minha amiga Anna Butler, chefe artística da MTV à época, falou que queria gravar um Acústico MTV, nos moldes dos pop-roqueiros de então. Desejo satisfeito, criou a seguir "50 Carnavais", para celebrar seu cinquentenário de vida com temas carnavalescos.

Para os 500 anos de descobrimento do Brasil sacou "500 Sambas".

Aí ficou a fim de saborear o baião e veio com "Bahião com H".

Hip Hop e repente não combinam? Pergunte ao "De Repente", que Moraes criou.

Mais recentemente bolou a turnê "Elogio à Inveja", onde apresentava canções que gostaria de ter composto —daí a menção invejosa no título.

O mais recente trabalho conhecido foi um cordel que escreveu sobre a pandemia chamado "Quarentena", que começa assim: "Eu temo o coronavírus/ E zelo por minha vida/ Mas tenho medo de tiros/ Também de bala perdida/ A nossa fé é vacina/ O professor que me ensina/ Será minha própria lida (...)".

O post onde lançou o cordel é de 18 de março. Ele disse tê-lo escrito na madrugada anterior.

Dado seu falecimento, resta-nos o assombro de saber o quanto ele vai fazer falta nos próximos dias e semanas. Mas um assombro maior em perceber o quanto um artista como ele fará falta quando acabar essa pandemia e tivermos que enfrentar o mundo novo que se desenha enquanto estamos em casa de mãos praticamente atadas.

Mas isso não é problema seu, Moraes. Você fez o suficiente para justificar umas 27 encarnações. Descanse em paz, gênio.

* Luiz Pimentel é colunista de música, executivo de comunicação e autor de sete livros sobre cultura pop