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Músico e enfermeiro, Gabriel Peri prepara disco enquanto combate a Covid-19

Gabriel Peri se divide em duas carreiras: a de músico e a de enfermeiro

Daniel Palomares

Do UOL, em São Paulo

03/04/2020 04h00

Em tempos sombrios da pandemia do coronavírus, a música está sendo uma válvula de escape para muita gente isolada dentro de suas casas. Outras pessoas, como Gabriel Peri, precisam dividir seu tempo justamente entre o combate direto ao vírus e a produção de um novo álbum. Ele é músico e também técnico de enfermagem em um hospital de São Paulo.

Entre um plantão e outro, trabalhando diretamente com infectados pela nova doença que acometeu o mundo inteiro, Gabriel lançou o single "Samba do Dia Inteiro", uma parceria com Teco Martins, ex-Rancore, numa mistura de raízes do samba com o sincretismo religioso do Brasil. "Teco é um homem de fé, assim como eu. Acredito que a força dos elementos tenha guiado esse nosso encontro. Nossa musicalidade refletiu de forma linda e criativa", elogia.

Música de fé

O álbum completo, intitulado "Terra" e previsto para sair em junho, tem produção executiva de Caco Grandino, ex-NX Zero. O disco trará as influências da música dos anos 60 e 70, além de toques dos novos artistas pelos quais Gabriel é apaixonado e que sonha em trabalhar junto: Tim Bernardes, Luiza Lian e Yasmin Olí.

"Venho trabalhando nesse disco há alguns anos. Durante todo o processo, minha única preocupação era fazer a melhor arte e trabalhar com os melhores artistas. Sinto que cumpri a missão", festeja. "É um disco de chegança. Os ouvintes podem esperar muita força, resistência e coragem".

Entre o violão e o estetoscópio

Apesar da paixão pela música, seu primeiro emprego foi bem distante deste universo: uma farmácia dentro de um hospital. Ali nasceu a segunda paixão que o levou a formação em enfermagem. "Acho lindo e gratificante, a sensação de missão cumprida é a melhor que existe. Ainda mais quando se trata de pessoas", diz ele, que tenta driblar as funções de músico e enfermeiro em uma carga horária de 30 horas semanais.

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UOL - É possível estabelecer conexão entre os dois trabalhos?
Gabriel Peri - Acho importante saber separar meu trabalho na enfermagem e na música. Em um tenho que ser extremante técnico e no outro, extremamente sensível.

Como está sua rotina agora diante dessa pandemia? O que está presenciando no hospital?
O Brasil ainda não está preparado para uma ocorrência como essa. Tenho trabalhado com todos os equipamentos de proteção possíveis e, mesmo assim, ainda não me sinto seguro. Presencio diariamente o medo dos profissionais que lidam diretamente com o novo coronavírus.

Você já precisou lidar diretamente com algum paciente infectado pela Covid-19?
Trabalho em uma UTI preparada para atender somente pacientes com o vírus. Tenho todos os equipamentos de proteção, mas muitos colegas não estão recebendo acesso a esses equipamentos, colocando em risco a própria vida e isso é o que mais me preocupa. Além de saber que, no Brasil, não teremos leitos e equipamentos suficientes para atender a demanda que está sendo prevista.

A música está servindo como uma terapia diante de um momento tão complicado? É o que te faz desligar dessa realidade que pode ser tão cruel?
A música é um ofício, assim como a enfermagem. Quando estou em casa, nos meus dias de descanso, sendo apenas apreciador da arte de música, encaro como terapia. No dia a dia de um profissional, levo como trabalho mesmo. Durante esses dias de pandemia e quarentena sigo pesquisando e compondo, pensando em maneiras criativas de continuar gerando renda em meio a essa crise.