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Todxs Nós traz primeira protagonista não-binária em uma série brasileira

Rafa, Maia e Vini: o trio de "Todxs Nós", da HBO - Divulgação
Rafa, Maia e Vini: o trio de 'Todxs Nós', da HBO Imagem: Divulgação

Beatriz Amedola

Do UOL, em São Paulo

22/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Nova série brasileira da HBO, 'Todxs Nós' estreia hoje, às 23h
  • Série tem como protagonista Rafa, jovem não-binária, que não se identifica nem com o gênero masculino nem com o feminino
  • UOL visitou o set da série e conversou com o elenco

Dentro de um prédio com uma entrada estreita no centro de São Paulo, se abre um universo que contrasta —e muito— com o cinza do lado de fora. Um grupo de atores e figurantes usa roupas vistosas, coloridas e cheio de brilho, em ambientes igualmente coloridos e iluminados, com tons de rosa, roxo e verde que saltam aos olhos. Eles ocupam boa parte de um andar do prédio, com cenários tão diferentes quanto um estúdio de tatuagem e um rooftop onde acontece uma festa.

É lá o set de "Todxs Nós", nova série brasileira da HBO que estreia hoje, às 23h. Cocriada por Vera Egito e Daniel Ribeiro, a comédia dramática de 30 minutos conta a história de Rafa, jovem de 18 anos que se identifica como uma pessoa não-binária -ou seja, não se identifica nem com o gênero feminino nem com o masculino. Ela deixa sua família e sua casa no interior para morar em São Paulo com o primo, Vini (Kelner Macêdo), e sua melhor amiga, Maia (Julianna Gerais), e surpreende a ambos com sua chegada.

A partir daí, Rafa vive uma jornada para se conhecer melhor, enquanto aqueles ao seu redor começam a entender o que, afinal, significa a não-binariedade. "A existência da pessoa não-binária questiona a nossa lógica patriarcal, a nossa lógica machista de uma maneira muito profunda, porque propõe que o gênero não seja a primeira coisa que você vê em alguém", explica Vera. "Por que você tem que saber se é um homem e uma mulher? Não pode ser só uma pessoa? Por que isso é tão importante?"

Na cena que a reportagem do UOL acompanhou, gravada em julho do ano passado, Rafa curte uma festa e se vê às voltas com sua vida amorosa, assim como outros personagens (calma, não vamos dar spoilers). São momentos delicados e, principalmente, muito humanos —algo que Vera, também diretora-geral da série, buscava, até para não cair nas armadilhas de reproduzir, mais uma vez, uma lógica binária.

Fica claro logo no primeiro episódio relações entre os personagens são mais complexas do que pode parecer à primeira vista. Ulisses, o pai de Rafa, não é tão intolerante quanto ela diz ser; Vini rejeita os rótulos do que é, necessariamente, ser um homem gay; Maia, por sua vez, é feminista, mas se depara com obstáculos na hora de aplicar seus princípios em sua realidade.

Vera Egito e Daniel Ribeiro, criadores de 'Todxs Nós' - Ariela Bueno/HBO
Vera Egito e Daniel Ribeiro, criadores de 'Todxs Nós'
Imagem: Ariela Bueno/HBO

"A gente fala de racismo, a gente fala sobre família, a gente fala sobre amor; Tem encontros e desencontros amorosos, como os de qualquer casal", diz. "A intenção é que a humanidade de cada personagem venha antes de sua raça, de seu gênero, que a gente se interesse pelo que essa pessoa está vivendo antes de se interessar se é negro ou se é branco, se é homem ou mulher."

Visibilidade

Primeira personagem não-binária a protagonizar uma série brasileira, Rafa fez a atriz Clara Gallo (vista em "Califórnia", da Marina Person) refletir bastante sobre sua realidade. "Eu sabia que existia a não-binariedade, mas eu nunca tinha ido atrás exatamente do que se tratava. E realmente abre um universo enorme, você começa a ver coisas diferentes em todos os lugares e pensar nas atitudes que a gente têm sem nem perceber".

Clara Gallo é Rafa em 'Todxs Nós', série da HBO - Ariela Bueno/HBO
Clara Gallo é Rafa em 'Todxs Nós', série da HBO
Imagem: Ariela Bueno/HBO

Ela, bem como seus colegas de elenco, esperam que a série possa atingir vários públicos —incluindo aqueles que, como Rafa, não costumam ter suas vivências retratadas nas telas. "Vimos o tuíte de uma menina, que falava sobre o pai ter visto o trailer e dito que eles podiam assistir à série juntos. É o tipo de reação que eu espero ter".

"Dá uma euforia quando você vê a sua história sendo retratado", diz Julianna, a Maia. "Tem essa euforia de sentir que eu existo e vou existir através disso". Para Kelner, o Vini, "Todxs Nós" vai criar um imaginário que, hoje, não existe, dada a falta de produções com personagens LGBTQIA+. "Essas pessoas existem, elas têm sonhos, expectativas. Gera um frisson de ver algo que não existe. Eu mesmo sinto muita falta. Às vezes paro em um catálogo para procurar um produto LGBTQIA+ e não tem. É muito mirrado."

Queride, menine...

Ao ver a série, você pode estranhar ao ouvir Rafa se referindo a si como "prime" de Vini. Não é um erro: O "E" ao fim dos substantivos é para indicar a neutralidade no tratamento de quem se identifica como não-binário. Seu uso, no entanto, ainda não é tão comum, o que representou um desafio para o elenco na hora de gravar.

"Foi um exercício para todos nós. Nossa língua é muito rígida na questão de gênero, então é difícil mesmo. Mas a questão é se arriscar mesmo e falar nessa linguagem", diz Clara. "No começo você fala engasgando, mas tem um momento em que se torna mais natural", completa Julianna, pontuando que a forma como falamos molda —e muito— nossa visão de mundo. "Nossa linguagem é muito rígida, e não à toa o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo".

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