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'Cancelado', Johnny Depp causa furor e dá lições de vida em Berlim

Johnny Depp na coletiva de "Minamata" no Festival de Berlim - Getty Images
Johnny Depp na coletiva de 'Minamata' no Festival de Berlim Imagem: Getty Images

Mariane Morisawa

Colaboração para o UOL, de Berlim

21/02/2020 12h19

Para quem supostamente foi "cancelado" por causa das acusações de violência doméstica por parte de sua ex-mulher, a atriz Amber Heard, Johnny Depp ainda atrai bastante atenção, como se viu na coletiva de imprensa de "Minamata" no 70º Festival de Berlim. A assessoria de imprensa do evento teve de intervir, afastando fotógrafos e cinegrafistas que chegaram a invadir uma área reservada.

No filme, envelhecido e de barba, o ator de 56 anos está mais uma vez irreconhecível para interpretar o fotojornalista W. Eugene Smith em seu último trabalho, registrando as pessoas afetadas pela contaminação por mercúrio por causa do despejo de metais pesados no mar por uma indústria química na cidade japonesa de Minamata, uma vila de pescadores, entre 1971 e 1973. Indagado se achava que os atores tinham responsabilidade de se posicionar politicamente, ele disse que tinha ficado surpreso ao ler a história de Minamata.

"O fato de que aconteceu, simplesmente, é chocante. E ainda mais chocante é que continua. Então acho que é bom usar o poder da mídia ou do cinema ou da arte para abrir os olhos das pessoas para algo que aconteceu", afirmou o ator. O diretor Andrew Levitas interferiu, dizendo que Depp era humilde demais para descrever seu real papel. "Ele foi o líder deste projeto. Ele não gosta de falar dessas coisas publicamente, de se apresentar e levar crédito, mas se importa bastante com muitas coisas. 'Minamata' saiu do coração e da paixão de Johnny", disse Levitas, enquanto Depp se mexia na cadeira, inquieto, de cabeça baixa escondido pelos inseparáveis chapéu e óculos de lentes azuis.

Depp contou que para todos os envolvidos o projeto foi algo especial. "Não tinha aquela coisa de agora vou para meu trailer, tragam-me o foie gras", afirmou. Hiroyuki Sanada ("Vingadores: Ultimato", "Westworld"), que faz Mitsuo Yamazaki, um dos ativistas lutando para que a empresa reconheça o problema e arque com os custos do tratamento das pessoas doentes, disse ter se sentido envergonhado por não saber mais detalhes sobre o desastre —até hoje, mais de 2.200 pessoas foram diagnosticadas com a chamada Doença de Minamata, que causa problemas neurológicos, motores, visuais, auditivos, de fala e chega a levar ao coma e à morte.

Espero que este filme ajude os mais jovens a conhecerem a história para que nunca seja esquecida e jamais aconteça novamente.

Hiroyuki Sanada

Mas para ninguém naquela mesa "Minamata" é mais especial que para Aileen M. Smith. Ela foi parceira do fotógrafo no projeto e também sua mulher. "Por causa de sua fotografia, Eugene continua vivo, apesar de ter morrido há muitos anos. Gene continua aqui hoje conosco", disse M. Smith. O trabalho de W. Eugene Smith, que foi ameaçado e atacado fisicamente em Minamata várias vezes, é potente e comovente, mas o filme segue uma cartilha um tanto tradicional e não consegue ter a mesma força, apesar de tratar de um assunto importante. Smith morreu em 1978, aos 59, poucos anos depois da publicação das fotos pela revista "Life".

O diretor Andrew Levitas chamou a atenção para o fato de que contaminações como a de Minamata e outros desastres continuam acontecendo, causados por empresas que pensam apenas no dinheiro e governos omissos. "O filme fala de partes por milhão", disse, referindo-se ao número de partículas de determinado metal pesado permitidas pela legislação, muitas vezes inadequada. "Só que nós somos as partes por milhão. Eu, você, nossas famílias e amigos. Por isso todos nós na produção realmente nos importávamos com este filme."

Ao final, Depp deu a receita para lidar com desafios que parecem monumentais, seja uma doença devastadora ou o colapso do mundo:

No I-Ching, há um símbolo muito bonito que significa o poder de domar do pequeno. E quando você tem esses oponentes gigantescos na sua frente, gritar não vai adiantar nada, nem tentar derrubar tudo. O poder do pequeno é cada um de nós atacar o problema pouco a pouco, provocando pequenas lascas. Somos todos grãos de poeira, afinal. Somos pequenos

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