PUBLICIDADE
Topo

Entretenimento


Prédio em SP ganha grafite com lama de Brumadinho e releitura de Tarsila

Grafite "Operários de Brumadinho", de Mundano, homenageia vítimas da tragédia em São Paulo - Reprodução/Instagram
Grafite "Operários de Brumadinho", de Mundano, homenageia vítimas da tragédia em São Paulo Imagem: Reprodução/Instagram

Do UOL, em São Paulo

30/01/2020 13h57

Um prédio da região da Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, ganhou uma homenagem às vítimas de Brumadinho, usando como matéria-prima restos do rompimento da barragem da Vale, em Minas Gerais. Trata-se do grafite Operários de Brumadinho, realizado pelo paulistano Mundano com lama que vazou do local da tragédia e com uma releitura de Tarsila do Amaral.

"Pra não cair no esquecimento e continuar cobrando justiça, resolvi me desafiar a fazer a maior obra da minha vida usando a lama tóxica da Vale como tinta", explicou ele, no Instagram.

"A obra final tem mais de 800 m2 e é uma releitura de Operários (1933), de Tarsila do Amaral . Ela compõe a série releituras mundanas e pode ser vista na lateral do Edifício Minerasil, em frente ao Mercado Municipal de São Paulo", acrescentou.

Ontem falei dos desafios de pintar em altura, com lama tóxica e com um tema complexo, mas meu maior desafio como artista foi a responsabilidade de fazer uma releitura de uma das obras mais icônicas da arte brasileira : "Operários" da Tarsila do Amaral, 1933 . Ela é a primeira obra a trazer à tona a diversidade do povo brasileiro com 51 rostos. É um símbolo do modernismo e da fase social da Tarsila , que começa depois da sua exposição em Moscou em 1931, sua prisão durante o contexto do governo Getúlio Vargas. Tarsila representou operários e operárias vindo de diversas partes do país e de diferentes origens que vieram pra São Paulo após a crise de 1929 . A obra da destaque pras faces cansadas e desesperançadas dos trabalhadores e trabadoras com o olhar fixo frontal e olheiras expressivas. Ao fundo, nitidamente tem uma fábrica poluindo o ar que fica acima de todos operários. Pra representar essa obra era necessário atualiza-la pra 2020, e o louco é que 87 anos depois, tirando o aumento da poluição e sendo bem realista : pouco mudou. A cidade de São Paulo continua atraindo cada vez mais pessoas das origens mais diversas e a classe operária continua explorada. Mesmo com tanta pertinência da obra atualmente eu ainda tinha minhas dúvidas se conseguiria fazê-la nessa escala e com lama . Foi quando estive no protesto da câmara municipal de Brumadinho em dezembro e olhei as fotos dos rostos das vítimas sendo colocadas por familiares lado lado e com o escrito "vale asssassina" na parte superior. Foi ali que encherguei e senti a obra "Operários" e me senti pronto para o desafio. Não usei fielmente os rostos das 272 vítimas, nem dos 11 desaparecidos e dos atingidos que estavam ali pedindo Justiça, por ser delicado e o meu recorte da obra só ter 22 rostos . Mas suas expressões eu nunca mais esqueci e fizeram parte da base das faces mescladas com as da obra original e com os traços de trabalhadores que encontrei durante a produção indo de metro, andando na rua e com o público do mercadão e todos e todas dos bastidores das incontáveis frutas que chegam ali 24hs por dia e alimentam essa cidade . Os xs operarixs se identificaram com a obra e os atingidos agradeceram.

Uma publicação compartilhada por MUNDANO (@mundano_sp) em

"Um abraço caloroso em todos os atingidos e atingidas por barragens nesse dia tão difícil. E, um agradecimento a todos e todas que com muita garra construíram juntos essa obra tão desafiadora", concluiu, no dia que o incidente completou um ano.

Lama virou tinta

Mundano contou o processo complicado de usar como tinta a lama de Brumadinho: Peneiramos e misturamos 270 litros de tinta, foi um desafio físico também. Pintar com a lama foi outro, cada um dos 15 tons tinha uma consistência única, cada cobertura era diferente da outra e quando secava elas mudavam muito de cor. Essa obra tem mais de 800 m2 de área e virou uma batalha com o nosso próprio corpo pra pintar tudo", explicou ele.

"Foram 7 dias de preparação da parede que estava toda descascando e mais 6 dias de pintura. Uma verdadeira maratona que nos deixava com os músculos todos doloridos. Outro desafio é a altura, apesar de trabalhar com toda segurança o tempo todo, tem sim um friozinho na barriga de estar a 50 metros de altura balançando. (...) Essa obra só saiu porque chamei um time de artistas muito talentoso e mão na massa que eu já tinha trabalhado antes", detalhou Mudano.

Para o artista, a ideia de homenagear Tarsila com uma releitura de Operários surgiu após participar de um protesto e ver as fotos das vítimas lado a lado. Mundano percebeu os paralelos da arte clássica com o Brasil do século 21. Apesar de não trazer rostos fiéis dos mortos em Brumadinho, ele diz que usou suas expressões.

"Suas expressões eu nunca mais esqueci e fizeram parte da base das faces mescladas com as da obra original e com os traços de trabalhadores que encontrei durante a produção indo de metro, andando na rua e com o público do Mercadão", explicou ele, citando Tarsila. "Pra representar essa obra era necessário atualizá-la pra 2020, e o louco é que, 87 anos depois, tirando o aumento da poluição, pouco mudou."

Hoje não vou falar de desafios, mas sim de sensações . Sabe quando você sente o seu corpo todo arrepiando ? ou aquele aperto no coração de ver novamente milhares de pessoas perdendo tudo com as chuvas em Minas Gerais ? Ou então aquela adrenalina inexplicável quando você faz uma ação ousada? Tive essas sensações em incontáveis situações nessa vivência intensa, desde a hora de ouvir relatos de atingidos , na hora de coletar a lama em Brumadinho, ou até quando um morador de rua, da frente do mercadão que assistia a pintura de camarote, soltava um sorriso e um elogio verdadeiro . Mas foi assistindo o primeiro corte do vídeo, andando no meio da rua, voltando exausto e cheio de lama pelas roupas, que eu me arrepiei todo mesmo por diversas vezes. Meu meu coração apertou forte assim que aparece aquela imagem dos retratos dos "operarios" das ruas e olhei ao meu redor e chorei intensamente. Depois quando terminamos a obra e a revelamos com o vídeo na internet , começaram a aparecer os comentários no post, nos compartilhamentos e nas mensagens que recebi diretamente. Eu li todas e vieram todas essas emoções de novo . Obrigado por sentirem a obra , apoiarem, se expressarem e espalharem a mensagem . No começo era apenas uma ideia de louco e hoje essa arte conta uma história e fez a dela . Por isso confie nos seus arrepios, em ideias fora dos padrões, em pensar no coletivo e siga sempre o que o seu coração bate mais forte . Fotos : @amandamperobelli Obrigado em especial a minha família que fica preocupada comigo nas alturas, trabalhando com lama e desafiando toda essa ganância . Ao @luancardoso que foi o primeiro a ouvir a ideia e apoia-lá desde o início . Ao @andredelia e ao @andreliberio que fizeram essa jornada essencial em Brumadinho . #brumadinho #releiturasmundanas #justiça #valeassassina #mundano #somostodosatingidos

Uma publicação compartilhada por MUNDANO (@mundano_sp) em

Pintar uma obra dessa magnitude nesse contexto complexo de Brumadinho tiveram diversos desafios e vou falar de alguns aqui. O primeiro deles foi de fazer mais uma expedição em Brumadinho pra buscar a lama em um território dominado pela Vale . O tema é super delicado e conversar com os atingidos foi fundamental e requer uma sensibilidade enorme . Criar a própria tinta foi um outro , desde pesquisar , testar e chegar na receita final. Peneiramos e e misturaramos 270 litros de tinta, foi um desafio físico também . Pintar com a lama foi outro, cada um dos 15 tons tinta uma consistência única , cada cobertura era diferente da outra e quando secava elas mudavam muito de cor. Essa obra tem mais de 800 m2 de área e que virou uma batalha com o nosso próprio corpo pra pintar tudo. Foram 7 dias de preparação da parede que estava toda descascando e mais 6 dias de pintura. Uma verdadeira maratona que nos deixava com os músculos todos doloridos . Um tava com tornozelo doendo, o outro o braço e um com câimbra na perna rssss... Outro desafio é a altura, que pra além de trabalhar com toda segurança o tempo todo, tem sim um friozinho na barriga de estar a 50 metros de altura balançando de lá pra cá pra pintar com pincel e lama . Calor de 35 graus, chuvas a qualquer hora, frio à noite , não foi fácil, por isso até que me desliguei das redes nessas duas semanas . E essa obra só saiu porque chamei um time de artistas muito talentoso e mão na massa que eu já tinha trabalhado antes . Começando pelo @papelcomterra que fez todo o processo da tinta comigo, e dos incansáveis @subtu , @andre_firmiano e @3visao que tramparam nas alturas todos esses dias e fizeram as tintas também , e nos últimos 2 dias ainda somaram o @riskavicia e o @apcgraff pra dar um gás e terminamos na data certa . Então fica aqui registrado que sem o suor de todos esses artistas não tinha obra de lama na frente do Mercado Municipal em tão pouco tempo . Valeu essa vivência coletiva e aprendi muito com todos eles . #bRUMADINHO #lamatoxica #valeassassina #justiça Foto do mestre @henrique.grise .

Uma publicação compartilhada por MUNDANO (@mundano_sp) em

Entretenimento