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Regina King diz que Watchmen é um "espelho" para o que acontece no mundo

Regina King em cena de Watchmen - Reprodução
Regina King em cena de Watchmen Imagem: Reprodução

Do UOL, em São Paulo

15/12/2019 04h00

O nono e último episódio de Watchmen vai ao ar hoje, às 23h, na HBO. A atriz Regina King, que interpreta Angela Abar, e a diretora e produtora executiva Nicole Kassell conversaram com a HBO sobre o universo e o desenvolvimento do projeto.

Leia abaixo a entrevista na íntegra da dupla:

Regina, você poderia começar contando um pouco sobre a Angela, como ela se encaixa no mundo? Ela tem diversos papéis na série.

RK: É, ela usa muitas máscaras. Eu acho que todos nós usamos na vida. A maneira como ela navega nesse universo alternativo é um exemplo, um exemplo sutil, mas verdadeiro de como navegamos na vida real. Temos que usar diferentes máscaras. Em alguns espaços é possível que não sejamos tão pacientes quanto deveríamos ser, e às vezes é preciso um pouco de sabedoria.

Às vezes é natural fazermos isso para nos protegermos, principalmente quando somos mais jovens. Eu sempre usava máscaras no ensino médio, dependendo do grupo, porque nunca tive um grupo de meninos e meninas com o qual saísse sempre. Era a pessoa que estava com os skatistas na segunda, com o pessoal do baseado na terça. Você está sempre tentando se adaptar, e usa máscaras enquanto descobre como fazer isso.

Você recentemente trabalhou com o Damon [Lindelof] em The Leftovers. O que te atraiu para fazer este projeto com ele?

RK: Como ator você espera ter muitos projetos diferentes. Não quer que as pessoas digam que você faz sempre os mesmos papéis. Se você interpreta uma esposa quatro vezes, quer pelo menos que cada uma seja diferente. Quando eu li o roteiro, senti que nunca tinha visto nada assim, que nunca tinha visto alguém como ela.

Nicole, como você se uniu ao projeto?

NK: Eu também trabalhei em The Leftovers. Fiz duas temporadas, então conheço bem o Damon. Quando The Leftovers terminou, eu chorei. Foi duro, fiquei realmente triste por não estar mais com aquela família. Aí soube que ele estava trabalhando neste projeto e procurando um diretor. Mandei um e-mail dizendo: "Eu quero fazer".

Havia alguns desafios, mas conversei com ele, li e respondi muito profundamente como artista e pessoalmente. Estava lendo o roteiro em Charlottesville, na Virginia, poucos meses depois do que aconteceu lá. Eu sou de lá, por isso os problemas estavam em ebulição para mim, como aconteceu com muitos de nós. Ao ler o roteiro me dei conta de que essa era a maneira como eu podia contribuir para o debate. Então, levei essa paixão aos olhos e ouvidos do Damon, e disse: ?Só pelas suas palavras, é assim que eu vejo a série?. É subjetivo. Gostei e pensei: ?É assim que eu faria?. E ele respondeu. Felizmente temos uma sensibilidade muito parecida.

Você dirigiu os episódios um e dois?

NK: Eu dirigi os episódios um, dois e oito, e produzi a série toda.

Ou seja, você teve que estabelecer como é o mundo de Watchmen.

NK: Totalmente.

Parece um enorme trabalho, porque há aspectos futuristas, mas também kitsch. De onde você tira a inspiração para criar esse mundo?

NK: Eu comecei com o material de origem ? esta é a nossa história. Então se daqui a 30 anos no futuro o Redford é o presidente, temos carros elétricos, não temos mudanças climáticas, não usamos plástico, temos o 51o estado da União no Vietnã, uma nova bandeira. Na verdade, muito disso vem do material original. No aspecto estético, eu só sabia que não queria que fosse brilhante.

Não queria fazer uma história em quadrinhos, uma caricatura. Então me fundamentava na realidade e via filmes como ?Filhos da Esperança? ou ?Blade Runner? para me inspirar. Adorei ver como esses mundos eram diferentes, mas muito reais. Estas foram as obras icônicas às quais todos nós nos referimos e depois usamos os quadrinhos como inspiração para filmar e compor os quadros.

Onde vocês filmaram a maior parte?

NK: Em Atlanta. Também filmamos em alguns lugares originais, como Gales, o que foi sensacional.

Regina, você fez muitos filmes e séries que falam sobre raça, mas de uma maneira histórica muito mais clara ou linear. O que esta série e a sua personagem acrescentam ao debate?

RK: Eu acho que estamos todos em uma área cinza. Todos temos boas intenções, mas às vezes o que parece ser a escolha certa em um determinado momento depois vemos que não é. Quando as pessoas me disserem ?você é uma grande mãe, o seu filho é genial?, eu vou responder: ?eu terei certeza disso quando souber que ele está fazendo terapia, falando daquela vez que eu decidi fazer X, Y ou Z?.

Tudo tem boas intenções, mas as nossas circunstâncias podem mudar. Você pode começar a fazer coisas porque está emocionalmente motivado, não só porque é pelo bem de todos. O que torna a Angela única é que ela não entrou nisso pelo bem de todos. Partiu de um aspecto emocional, embora se fosse perguntada ela não diria isso.

Provavelmente ela nem se dá conta de que tomou determinadas decisões, porque ainda está lidando com a dor que lhe foi transmitida, que conseguiu reprimir, e com o que conseguiu seguir em frente, sem saber o que aconteceu antes. Então, podemos empreender esta maravilhosa travessia sobre a família com o pano de fundo do racismo e da vigilância, um espelho perfeito para o que está acontecendo neste momento.

Estamos sentados aqui agora e temos 9 em cada 10 possibilidades de acessar as redes sociais e encontrar algo ofensivo que alguém no poder está dizendo com respeito à raça e ao gênero. Isso faz parte da estrutura dos Estados Unidos. Parabéns ao Damon por usar o massacre de Tulsa como um ponto de partida para a história da nossa nação, mas também por honrar responsavelmente este material, tão precioso para ele.

Sim, é uma maneira extremamente elegante de vincular a história do século 20. Também é um grande trabalho seu como diretora, Nicole, de combinar os flashbacks com os saltos de tempo.

NK: Sim, mas foi só confiar no roteiro e na minha reação. Eu li e fiquei totalmente envolvida, adorei. O primeiro episódio que dirigi em The Leftovers para o Damon foi muito especial.

Qual foi o primeiro que você dirigiu?

NK: Foi na segunda temporada, No Room At The Inn (Não há lugar na pousada), em que o Matt parte em uma travessia e não pode voltar para casa. Enquanto dirigia, eu pensava: ?Isto é muito louco. O público vai comprar isto??. E o público comprou. Foi a primeira vez que decidi que daria tudo de mim, que embarcaria nessa travessia. Depois ele me deu um episódio na terceira temporada e a confiança estava estabelecida.

Qual dos episódios da terceira temporada?

NK: É A Matt, Matt, Matt, Matt World (Um mundo de Matt, Matt, Matt). O barco.

Ah, o barco. É o meu episódio preferido da série The Leftovers inteira.

NK: Então, também entrei com a sensação de que este homem é um mestre. Não significa que não retrocedamos e façamos mudanças. No episódio nove, eu liguei para o Damon na noite antes de filmar uma cena e disse que precisava de uma coisa. Era muito importante para mim, ele escutou, ficou acordado naquela noite e reelaborou a cena.

Digo isso não para ganhar o crédito, só para mostrar que somos o primeiro público e temos que manter as coisas sempre reais com ele, caso contrário não estaríamos agindo corretamente com ele, com material nem com os outros. As pessoas dizem: "Regina, ganhadora do Oscar". Eu digo: "Sim, mas é a Regina".

Há mulheres incríveis nesta série. Também há homens incríveis, mas não é uma obra especialmente feminista? Vocês estão liderando e o personagem da Hong Tchau também.

RK: Eu nunca vi assim, mas se a sensação é essa, ótimo. Acho que essa é uma das nossas maiores esperanças: que as pessoas vejam do primeiro ao nono episódios e acabem sentindo algo. Se é isso que fica, é incrível.

NK: Preciso falar uma coisa. Estamos muito metidas nesse mundo, somos mulheres e trabalhamos nele. Contamos histórias e temos que empreender esta grande viagem, mas não podemos esquecer como esse cartaz é radical (aponta para o cartaz da Regina). O nome é Watchmen, é um quadrinho e é uma mulher, uma mulher afro-americana, bem aí. Então, é feminista? Sem dúvida. Mas isso sempre foi vanguarda? Não. Isso é o bom.

RK: O Damon é o criador, e o Damon é feminista, naturalmente. É assim que ele funciona.

NK: E toda a questão de gênero. Eu sou uma cineasta mulher, mas sou uma cineasta. As pessoas podem dizer: ?ela tem um estilo muito forte?. Por que colocamos rótulos nas coisas? Dizemos que o Mike Nichols é delicado? São apenas estes adjetivos sendo analisados novamente.

Como você se sente com o cartaz, Regina?

RG: É difícil não olhar para ele quando está na minha frente. E ele está em muitos lugares... De repente estou sentada no carro, olho para a direita e estou olhando para mim mesma. Olhando para mim mesma e me vendo muito durona. Sem dúvida eu preciso de um desses cartazes.

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