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Ator de Aruanas colhe depoimentos na Cracolândia e transforma em música

O músico e ator Barroso - Divulgação
O músico e ator Barroso Imagem: Divulgação

Mauricio Dehò

Do UOL, em São Paulo

20/11/2019 12h00

O que começou apenas como intervenções artísticas no fluxo, ali no meio da Cracolândia, na região central de São Paulo, virou letra de música e o primeiro álbum de Barroso, Vendo Sonhos. Ator em Aruanas, série da Globo, e cantor, ele lança hoje o primeiro clipe do projeto, com The Big Bang Theory e Mais Coisas - conectado com as questões levantadas pelo Dia da Consciência Negra.

Barroso conta que sua imersão na música foi recente, em 2017, inspirada em uma peça de teatro que continha uma frase que o marcou, sobre "dar voz, corpo e força a tudo que é marginalizado por nós". Ele resolveu olhar para essa marginalidade, ao mesmo tempo em que fazia alguns shows de voz e violão e iniciava sua carreira musical.

Em 2018, uma diretora o convidou para fazer intervenções artísticas na Cracolândia, interagindo com o espaço e os moradores. Ele começou a falar com os habitantes do fluxo sobre a situação em que vivem.

Num segundo passo, com novas visitas, passou a levar livros. "Eu ia de preto, chegava com cuidado e me apresentava. Falava que sou músico e ator, que queria conversar e que, se eles aceitassem, poderiam fazer uma troca, as histórias deles pelos meus livros. Falei com homens, mulheres, mulheres trans, foi incrível. Transformou muitas coisas para mim", conta ele.

Barroso testemunhou atos de violência e lamenta que, naquele caos estabelecido e controlado, enxergue um interesse para que aquela área exista, há mais de 15 anos. Ele aponta para um olhar para a origem em suas letras. "Se olharmos para isso, podemos despertar uma sensibilidade maior dentro da gente".

O álbum é divido em quatro atos: origem, amar, coragem e sabedoria, entendendo o que é o amor para se ter a força necessária para enfrentar o mundo. Uma das inspirações é Morte e Vida Severina.

"Fizemos uma transposição para o asfalto, mais colorido. Quando fui ao fluxo, era como se estivesse assistindo a essa montagem, era parecido com o que trouxemos. Quando perguntei pra um das pessoas de lá o que era ser livre, ele me deu exemplos de várias coisas que apertam: panela de pressão, parafuso, e falou que ser livre era aperto. Para ser livre, aperta o peito, dói. Você tem que se despir de algumas coisas E foi esse tipo de coisa que fui transpondo nas letras, olhando de volta pro Morte e Vida Severina."

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Imagem: Divulgação

O clipe

O primeiro clipe do álbum é The Big Bang Theory e Coisas Mais, tratado por Barroso como um "manifesto pela vida". "Eu vim do mesmo lugar que você. Eu tenho raça, nome, não me chamo 'nego'", diz ele, em um trecho. O lançamento ocorre justamente no Dia da Consciência Negra.

"As pessoas têm o costume de não pensar naquilo que não as atinge. É preciso respeitar para ser respeitado. E pra se ter igualdade, é preciso justiça", diz Barroso. Para o vídeo, a ideia foi expressar diversidade de pessoas e de culturas e o cenário foi uma escola, misturando dança e animação.

Origens e Aruanas

Paulista nascido no Jardim Evana, Barroso tem 24 anos e cresceu entre o rap, o samba e o rock. Ele deixou o colégio aos 17 anos e passou a ter aulas de teatro, mesmo sem saber quase nada sobre. Suas referências eram outras, as novelas.

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Imagem: Divulgação

Além da trilha na música, a carreira no teatro o levou a tocar no Rio e lhe rendeu o convite para um teste de uma série para a Globo. Rapidamente, foi aprovado e recebeu a notícia de que precisaria passar um ou dois meses no Amazonas.

"Quando cheguei lá, vi Debora Falabella, Tais Araújo, e pensei: 'Devo estar no lugar errado'. Era tudo super sigiloso", conta ele. A série traz uma ONG fundada por três mulheres que fazem trabalhos ecológicos e ambientais e, surpreendentemente para ele mesmo, seu papel ganhou força.

"A minha personagem tinha uma função e foi se transformando, estou presente em muitos momentos e acabo ficando no núcleo principal. Aprendi muito e conheci essas pessoas e passei a entender melhor delas. Gente como a Taís Araújo, pessoas que estão muito à frente. Aruanas é um grito no escuro no país que mais mata ativistas no mundo", define ele.

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