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No ar como sexóloga, Bruna Lombardi rejeita o moralismo: Sexo é libertário

Bruna Lombardi em cena da segunda temporada de A Vida Secreta dos Casais, série da HBO - Divulgação
Bruna Lombardi em cena da segunda temporada de A Vida Secreta dos Casais, série da HBO
Imagem: Divulgação

Beatriz Amendola

Do UOL, em São Paulo

13/11/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Bruna Lombardi está no ar na segunda temporada de A Vida Secreta dos Casais, da HBO
  • Atriz tirou impeachment do roteiro para "não ficar muito parecido" com realidade
  • Ela produz e protagoniza na HBO em parceria com o marido, Carlos Alberto Riccelli, e o filho do casal, Kim

Bruna Lombardi está no ar na segunda temporada de A Vida Secreta dos Casais, série que produz e protagoniza na HBO em parceria com o marido, Carlos Alberto Riccelli, e o filho do casal, Kim. Na pele da sexóloga Sofia, ela lidera uma trama que mistura sexo, poder e política —com resultados às vezes assombrosamente semelhantes à realidade.

"A série tem essa camada da corrupção endêmica, que está muito presente e vai se parecendo cada vez mais com a situação do Brasil", disse a atriz em conversa com o UOL no set da série. Todas as investigações e tramoias da ficção, no entanto, não passam de coincidência com a realidade. "Tinha até um impeachment, que eu acabei tirando porque falei que ia ficar muito parecido. Mas eu acho que tem uma coisa interessante assim, que quando você liga a uma antena, parece que a gente capta bem o que virá, sabe? É muito louco isso".

E a antena foi longe. Desde seu primeiro ano, bem antes de a Vaza Jato expor conversas entre figuras do poder judiciário nacional, A Vida Secreta já contava hackers e havia estabelecido como nomes importantes o jornalista investigativo Vicente (Alejandro Claveaux) e a fotógrafa Renata (Letícia Colin), que tentam revelar o lado sujo do poder. "[O jornalismo] é a última possibilidade de denúncia", afirmou Bruna. "Porque o que faz hoje a gente saber onde estão os corruptos, o que aconteceu, quem fez isso, quem liberou, quem levou propina, é o jornalismo."

Eu considero o jornalismo uma camada de resistência, de muita resistência, na verdade. Acho admirável que ele ainda possa existir, e torço para que continue.

Arte como transgressão

Provocativa, a série criada por Bruna em parceria com o filho Kim voltou ao ar em um momento em que a classe artística se encontra sob pressão, com o cancelamento de editais voltados a produções LGBT+ e críticas a produções como o filme Bruna Surfistinha —um acirramento de tensões que acontece já há alguns anos. Qual seria, então, o papel da arte em um momento na atualidade?

Bruna Lombardi é sexóloga que se envolve em trama política na série - Divulgação
Bruna Lombardi é sexóloga que se envolve em trama política na série
Imagem: Divulgação

"Qualquer busca que você faça —e arte é uma grande busca— sempre será transgressora, o que não significa que ela precisa ser agressiva", reflete a atriz. "Não é necessário. Você pode mostrar novos valores tendo um código de ética, um código de conduta. Não abro mão das coisas que acredito em nome de dramaturgia nenhuma. O que eu faço na dramaturgia é obedecer ao senso de moral e ética que eu carrego no meu tao", completa ela, referindo-se ao termo chinês que significa "caminho" ou "princípio", que está ligado à doutrina do taoísmo.

Para Bruna, isso é uma questão de moralidade —e não de moralismo.

"Não tem nada a ver com o moralismo. Pelo contrário, eu sou do tipo de pessoa que acredita que o sexo é transgressor e libertário. Mas a moralidade é um norte na vida das pessoas. Assim, o que você faria e o que você não faz por preço nenhum? Essa, para mim, é a diferença do gênero humano e do indivíduo. Até que ponto você se corrompe?

Essa pergunta, aliás, é central em A Vida Secreta dos Casais. "Tem uma frase do Edgar [personagem de Paulo Gorgulho] que eu adoro. Ele fala que o poder não corrompe, o poder revela", lembra Bruna, traçando o paralelo entre a produção e a era em que vivemos.

"Essa luz desse novo milênio está mostrando a cara das coisas. A corrupção sempre foi imensa, desde o império a corrupção é imensa. Só que agora ela está sendo vista, apontada.

Trabalho em família

Bruna Lombardi com o marido, Carlos Alberto Riccelli, na série A Vida Secreta dos Casais - Divulgação
Bruna Lombardi com o marido, Carlos Alberto Riccelli, na série A Vida Secreta dos Casais
Imagem: Divulgação

A Vida Secreta dos Casais é um trabalho em família. Na cena que a reportagem do UOL acompanhou no set, em uma casa na Lapa, bairro da zona oeste de São Paulo, Bruna era dirigida com cuidado pelo filho em uma cena intensa de Sofia, que se digladiava com vozes em sua mente —a personagem é esquizofrênica. Carlos Alberto Riccelli, com quem Bruna é casada há 41 anos, divide com o filho a direção da série, além de também atuar em frente às câmeras.

No set de filmagens, no entanto, as relações familiares entram em segundo plano.

A família que nós somos no set não existe como família. A gente não tem papéis sociais, de quem é quem. Nós somos três pessoas trabalhando. O Kim me dirige, e nesse momento ele é o diretor e eu sou atriz. Naquela hora, são as funções que importam só —e o resto da equipe. O resto das pessoas faz parte dessa família, por maior que seja, e todas elas a gente realmente conhece, é amigo. Isso para nós é essencial.

A artista ainda elogia o trabalho feito pelo marido e pelo filho no comando da série: "Eles conseguem manter um set feliz, zen, tranquilo. As pessoas se dão bem, as pessoas trabalham valorizadas".

Vício em séries

A produção da HBO é a primeira criada por Bruna, mas a atriz e roteirista é fã do formato há anos, desde que assistiu a séries como Carnivàle e Angels In America.

Sou superviciada em séries. Sou daquelas que precisa acordar às 6h e fica até as 3h da manhã vendo série. É um péssimo exemplo que não quero dar a ninguém, mas eu quero saber o que acontece.

Para Bruna, a liberdade que o formato traz é o grande atrativo para os criadores. "Tudo o que o autor quer é poder se expressar, colocar suas dúvidas, questionamentos, as coisas que o perseguem. A HBO abriu um espaço para séries que ninguém abriria. Carivàle é uma delas, uma série dificílima, uma produção para poucos. A partir daí, todo o foco dos roteiristas, dos grandes atores, foi migrar para as séries. Hoje há centenas de séries boas, e isso é maravilhoso."

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