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Como o "Skol latão" pode ter ido parar na série de Momoa

Beatriz Amendola

Do UOL, em São Paulo

08/11/2019 04h00

Quem chegou ao terceiro episódio de See, série do Apple TV+ estrelada por Jason Momoa, tomou um susto: em meio ao cenário meio pós-apocalíptico, meio medieval da produção, é possível ouvir gritos de "Skol, skol, skol, skol latão, aqui" enquanto uma personagem caminha a um festival que, definitivamente, não tem cerveja em lata a venda. Mas o que explica que um áudio tão brasileiro tenha ido parar em uma superprodução com um orçamento na casa dos US$ 17 milhões por episódio?

A resposta está ligada aos processos de desenho de som (o sound design, em inglês) das produções. "O som que a gente escuta não é necessariamente o som que foi gravado ali na hora", explica Alexandre Marino Fernandez, professor da Universidade Anhembi Morumbi. "Há um processo de pós-produção em que as camadas de áudio vão sendo construídas em etapas. Se você gravou uma cena e quer ressaltar um som de um passo, por exemplo, você precisa precisa reconstruir esse som para ter o controle sobre o timbre desse passo, a altura, o peso".

Isso é necessário porque nem sempre os sons que vêm desses detalhes, ou do ambiente ao redor, são captados no momento da gravação. Por isso, muitos deles são reconstruídos em estúdio. "Se o personagem caminha, a gente caminha dentro do estúdio; se ele manipula objetos, a gente manipula dentro do estúdio", diz Fernandez.

Há também, no entanto, a opção de usar bancos de sons, plataformas, pagas ou colaborativas, onde você pode encontrar sons diversos como gritos, buzinas e latidos. E há grandes chances de que tenha sido no uso indevido de um deles que surgiu o problema de See, de acordo com os especialistas ouvidos pelo UOL.

"É o que provavelmente aconteceu naquela cena, acredita Fernandez. "Na hora de construir a ambiência, usaram um som provavelmente de um banco de som ou de algum site em que as pessoas gravam e postam, e não perceberam que tinha um detalhezinho em outra língua".

Martin Eikmeier, coordenador acadêmico da Academia Internacional de Cinema, acredita em hipótese semelhante. "[O responsável] pode ter entrado em um banco de outro país, e o tiro acabou saindo pela culatra. Às vezes o cara quer um som ambiente mais exótico, porque não quer fazer parecer um mundo moderno como nosso, e uma busca uma sonoridade de fala que é mais indistinta ainda do que a língua dele."

O que é curioso, nota ele, é que não há bancos de sons comercializáveis operando no Brasil. "Você tem bancos privados de estúdios, de redes de TV, mas ter uma empresa que faça banco de som, a gente não tem aqui. A única fonte seria ou um banco privado que os estúdios têm, ou de um desses bancos gratuitos alimentados por gente do mundo inteiro, inclusive brasileiros."

Para resolver o problema, o único caminho para a Apple é voltar ao projeto de som, substituir o arquivo errado e, depois, subir novamente o episódio na plataforma. Até a publicação deste texto, porém, o áudio continuava lá. Procurada pelo UOL, a empresa não se pronunciou sobre o caso.

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