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Teatral e previsível, Iron Maiden mantém Brasil como seu maior porto seguro

O vocalista Bruce Dickinson, durante show do Iron Maiden no estádio do Morumbi, em São Paulo - Manuela Scarpa/UOL
O vocalista Bruce Dickinson, durante show do Iron Maiden no estádio do Morumbi, em São Paulo
Imagem: Manuela Scarpa/UOL

Marco Bezzi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

06/10/2019 23h24

Foi no primeiro Rock in Rio, em 1985, que o Iron Maiden descobriu que tinha no Brasil seu maior porto seguro. Tanto que ao final do show no Estádio do Morumbi em São Paulo, neste domingo (6), Bruce Dickinson profetizou: "Enquanto vocês estiverem aqui, nós voltaremos a tocar até cairmos mortos em cima do palco".

Aces High, do álbum Powerslave (1984), abriu as cortinas da turnê Legacy of the Beast, trazendo para o palco uma réplica de um avião da segunda guerra mundial. Bruce, que mantém a voz mesmo tendo de cantar notas inacreditáveis para um ser de 61 anos, se desdobra com figurinos e adereços confeccionados para cada trecho da apresentação. "Scream for me São Paulo!", grita para 65 mil pessoas - muitas delas bêbadas - num tom agudo de dar inveja a qualquer tenor.

Vale lembrar que o vocalista se recuperou de um câncer na língua em 2015 e não perdeu força, clareza nem afinação. É um caso a ser estudado. Não a toa, seu apelido quando entrou no Maiden em 1982 era "Sirene de Ataque Aéreo". E milagrosamente pode continuar.

Brazil heavy metal

Para esta turnê, o grupo não privilegiou nenhuma era específica, mas exagerou nas fantasias e alegorias. A "guerra" tomou a primeira parte do show e trouxe uma música rara no repertório: Where Eagles Dare, do álbum Piece of Mind (1983). A canção fez Dickinson se vestir como um combatente na neve. O palco todo ganha contornos de um bunker. The Clansman, música da fase de vacas magras para a banda, com o vocalista Blaze Bayley, ganha novo vigor com Bruce, que nesta ocasião carrega uma espada.

Em The Trooper, a mascote Eddie em sua versão 3 metros de altura aparece pela primeira vez e forja uma luta de espadas. Bruce empunha a bandeira do Brasil e atira em Eddie. Revelations, do mesmo disco, Piece of Mind, favorito de muitos fãs, levou novamente o público para uma era em que imaginar que o Maiden seria figurinha carimbada "ano sim ano não" no Brasil, parecia inacreditável.

Não é exagero dizer que o Maiden é a banda internacional de maior sucesso na história dos shows no Brasil. Quando tocarem em Porto Alegre nesta quarta-feira (9), o grupo completará 40 apresentações no país desde aquela primeira em 1985. Uma pesquisa do YouTube do mês passado mostrou que o Brasil é a nação que mais escuta Iron Maiden no mundo.

Alegorias e adereços

São Paulo voltou a assistir à formação de maior sucesso da banda: além de Dickinson, os guitarristas Dave Murray e Adrian Smith, o baixista e "dono da porra toda" Steve Harris, o baterista Nicko McBrain e o cosplay de bobo da corte Janick Gers, que também toca guitarra.

Mesmo que a apresentação seja previsível, que a banda mantenha o mesmo repertório para todos os shows, sem surpresas, não há como não se emocionar. E mesmo tendo tocado na sexta-feira (4) no Rock in Rio, o que poderia gerar um anticlímax, funciona como combustível. "Nos disseram que na sexta-feira fizemos o melhor show da história do Rock in Rio", lembrou Bruce. "Mas hoje, em São Paulo, vamos fazer o melhor show do Maiden na história do Brasil!"

Manuela Scarpa/UOL
Imagem: Manuela Scarpa/UOL

Quem está nessa de Iron Maiden desde os anos 80 sabe que sempre foi assim. Tudo é devidamente ensaiado, como uma peça de teatro. E mesmo para esses headbangers jurássicos, uma música "nova" soa bem: "The Wicker Man", do álbum Brave New World (2000) que marcou a volta de Bruce para o Iron e deu sobrevida ao grupo que caia num precipício com o erro que foi o vocalista Blaze Bayley.

"Flight of Icarus aumenta a nota de alegorias e adereços. Um Ícaro se posta no fundo do palco enquanto um lança-chamas surge nos braços de Dickinson. Em "Fear of the Dark", O vocalista aparece de cartola, máscara e capa - outift que seria ridículo para qualquer ser humano trajar num show de heavy metal... ou em qualquer situação. Mas como este homem é Bruce Dickinson, damos um desconto. O sujeito, além de ser vocalista de uma das maiores bandas da história, é piloto de avião, professor de história, foi esgrimista profissional e é palestrante quando o assunto é empreendedorismo e tecnologia.

A segunda vez de Eddie no palco é em Iron Maiden (1980), música que nunca saiu do setlist. Desta vez como um inflável na parte de trás do palco que simulava o capiroto. Quando lançou o álbum The Number of the Beast (1982), a banda recebeu o título de satanista. E nunca se preocupou em rebater essa bobagem. É deste álbum as faixas escolhidas pra finalizar o show: Hallowed be Thy Name e Run To the Hills. A voz de Dickinson continua intacta. "Scream for me Morumbi!", gritada em plenos pulmões.

Fim do show. Daqui a dois anos eles provavelmente estarão de volta. Com um show tão previsível como este, mas com fãs tão fiéis como sempre aconteceu... desde 1985.

Filho de Steve Harris

Além de trazer um time de futebol, o baixista Steve Harris trouxe a tiracolo o filho George Harris, guitarrista da The Raven Age. A banda abriu o show e lembra um monte de coisa: Trivium, Avenged Sevenfold, Dream Theater. No fim o som é só derivativo, sem identidade, bonitinho mas sem graca. Olha o nepotismo, Steve!

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi escrito na primeira versão do texto, o câncer de Bruce Dickinson foi na língua, e não na garganta. O erro foi corrigido.

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