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Exposição de charges com Bolsonaro lambendo botas de Trump é suspensa no RS

Hygino Vasconcellos

Colaboração para UOL, em Porto Alegre

04/09/2019 14h41

Uma exposição de charges foi suspensa ontem na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Em um dos trabalhos, o presidente Jair Bolsonaro está ajoelhado, lambendo os sapatos do presidente norte-americano Donaldo Trump. Em outro, o ministro Sergio Moro está vestido de super-herói e é representado como um boneco de ar, que está se esvaziando.

A exposição "Independência em Risco" começou na segunda-feira (2) e foi montada em uma área de circulação da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Reunia 36 trabalhos de 19 autores. Mas a exposição não durou 24 horas. No dia seguinte, a presidente do legislativo municipal, Monica Leal (PP), decidiu suspender o evento sob alegação de que os trabalhos eram ofensivos.

"Eu recebi uma ligação de que a exposição tinha caráter ofensivo. Eu saí do meu gabinete e fui conferir. Fiquei chocada, surpresa com a charge do presidente Bolsonaro beijando botinas do Trump ou do presidente Trump defecando na embaixada do Brasil. Isso não pode acontecer. Temos que se pautar no respeito, na razoabilidade", disse Monica.

A vereadora afirma que, no pedido para reserva do espaço, foi encaminhada uma imagem diferente das apresentadas. "Estamos numa época que o exercício da liberdade da expressão se banalizou de uma maneira, mas não posso permitir que um lugar público, que é de todos, mostre, sirva de palco para exposição ofensiva", disse Monica.

O vereador Marcelo Sgarbossa (PT), que solicitou a reserva do espaço, negou que as peças tenham caráter ofensivo. "Óbvio que não pode divulgar coisas que afetem a dignidade. Mas não é ofensivo, ali tem crítica política, da subserviência de Bolsonaro a Trump. Não tem nada que fere valores íntimos, religiosos, de sexualidade. É uma crítica política", afirmou o vereador.

Sgarbossa diz que a presidente da Câmara foi arbitrária ao suspender a exposição. "Ela está alegando que não tinha conhecimento de todos os trabalhos. O fato de ter que saber antes o que estão divulgando já é um problema, de querer funcionar como censora. Ela se auto-proclama como a pessoa que pode dizer o que pode ser visto e o que pode não ser visto na Câmara".

A presidente do legislativo municipal afirmou que na manhã de hoje levou o assunto para a mesa diretora, composta de outros seis vereadores e que todos concordaram com a decisão. Entretanto, Sgarbossa salientou que a mesa diretora é composta apenas por partidos de situação, sem contar com representantes da oposição.

O vereador do PT espera que seja revista cancelamento da exposição, que iria até 19 de setembro. Entretanto, Monica nega que isso irá acontecer. "A decisão está tomada e não volto atrás", complementou a vereadora.

Responsável pela exposição, o presidente da Grafistas Associados do Rio Grande do Sul (Grafar), Leandro Bierhals, considerou o cancelamento como uma forma de censura. "As nossas charges não são ofensivas, mas são reflexos da realidade. O que a gente faz com a charge é uma crítica."

Autor de uma dos trabalhos citados pela vereadora, no qual Donald Trump aparece de cuecas com uma placa com a embaixada do Brasil, Bierhals disse que houve problema de interpretação. "A interpretação dela foi totalmente errada, a ideia era falar sobre a subserviência do Brasil com os Estados Unidos", observa o chargista.

A vereadora nega que o ato é um ato de censura. "Se eles consideram essa retirada da exposição um ato de censura, eu considero o contrário. Não podemos deixar de lado o respeito, o bom senso. Eu respeito símbolos da nação, a bandeira do Brasil."

A suspensão da exposição de charges ocorreu menos de dois anos depois do cancelamento da Queermuseu, no Santander Cultural, também em Porto Alegre. Na época, algumas imagens também foram consideradas ofensivas. O banco decidiu suspender a mostra após receber mensagens argumentando que as obras incentivavam à pedofilia, zoofilia e era contra os bons costumes. O curador da mostra Gaudêncio Fidelis, negou essa conotação.

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