Topo

Livros e HQs


Mindhunter: Agente do FBI explica por que há mais serial killer homem do que mulher

Mark Olshaker e John Douglas, autores de De Frente Com o Serial Killer - Divulgação
Mark Olshaker e John Douglas, autores de De Frente Com o Serial Killer Imagem: Divulgação

Renata Nogueira

Do UOL, em São Paulo

01/09/2019 04h00

O americano John Douglas estuda a mente de assassinos em série desde o final dos anos 70. Agente do FBI aposentado, ele criou um método de entrevistas com os assassinos que passou a ajudar a identificar esses perfis e prever seus próximos passos. Seu trabalho inspirou a criação do personagem Holden Ford, da série da Netflix Mindhunter.

John Douglas também é autor de vários livros de não-ficção sobre o tema. O último deles, De Frente Com o Serial Killer, publicado pela HarperCollins Brasil, foi lançado quase simultaneamente com a segunda temporada da série, que estreou na semana passada na Netflix.

Na obra, que ele assina com o documentarista vencedor do Emmy Mark Olshaker, são retratadas as histórias de quatro assassinos: Joseph McGowan, Joseph Kondro, Donald Harvey e Todd Kohlhepp. O livro ainda traça paralelos com outros notórios criminosos, como Charles Manson, Ed Gain e Wayne Williams, todos entrevistados pelo agente ao longo de sua carreira.

Divulgação
Imagem: Divulgação

O UOL conversou com John Douglas sobre seu novo livro e também sobre os perfis específicos desses assassinos.

Entre algumas revelações, o especialista que mistura o trabalho investigativo com o psicológico analisa que homens matam mais do que mulheres por causa da testosterona, destaca alguns comportamentos padrão como sinais de perigo e admite que "detesta" quando, involuntariamente, glamouriza a vida desses indivíduos.

UOL - Durante sua carreira você esteve frente a frente com nomes como Charles Manson e Ed Kemper, mas os casos que você retratou em seu novo livro parecem ser piores. É possível classificar um serial killer de melhor para pior? O que determinaria isso?

JD: Alguns crimes são mais sádicos do que outros, e os assassinos que têm prazer sexual ou emocional real ao torturar suas vítimas são definitivamente os piores. Dennis Rader, Lawrence Bittaker e Roy Norris, Leonard Lake e Charles Ng, Steven Pennell, Gary Heidnik e outros certamente se encaixam nessa descrição. Outros, como Ed Kemper, são mais fáceis de se entender e explicar de uma perspectiva psicológica, mas isso não os absolve do horror de seus crimes.

Donald Harvey, o Anjo da Morte, matou 87 pessoas durante um longo período e levou anos para ser pego. Por que não apenas neste caso, como em outros, é tão difícil identificar esses perfis? Como eles passam ilesos por tanto tempo?

Em muitos casos, como o de Donald Harvey, eles aprenderam como se encaixar e usar o sistema para que as pessoas olhem através deles, não os enxerguem. Chamamos isso de comportamento adaptativo. É por isso que precisamos aprender cada vez mais sobre esse tipo de assassino e como ele ou ela usa o sistema, e também ficar muito mais vigilantes quando alguns padrões de qualquer tipo começam a surgir.

Há uma tendência recente na mídia de destacar os nomes das vítimas e não mais o dos criminosos. Isso aconteceu em casos recentes de tiroteios, por exemplo. Você acha que isso também se aplicaria a serial killers ou esse tipo de crime sempre causará fascínio?

Achamos extremamente importante focar nas vítimas e não dar toda a atenção aos assassinos. Sempre queremos que nossos leitores e espectadores se relacionem com as vítimas em um nível humano e de compaixão e compreendam os assassinatos como realmente são. Além disso, embora algumas vezes tenhamos sido criticados pela forma como apresentamos graficamente alguns dos crimes, há casos em que os familiares da vítima queriam que mostrássemos o que realmente aconteceu aos seus entes queridos com detalhes realistas, para que todos entendam seu sofrimento e a verdadeira natureza do criminoso.

Você acha que retratar as histórias de serial killers de alguma forma glamouriza a violência ou seus crimes?

Às vezes sim, e detestamos isso.

John Douglas (à direita) e seu parceiro de FBI na época, o agente Bob Ressler, como o serial killer Ed Kemper - Reprodução/Instagram
John Douglas (à direita) e seu parceiro de FBI na época, o agente Bob Ressler, como o serial killer Ed Kemper
Imagem: Reprodução/Instagram

No livro, você chega a mencionar que, na maioria dos casos, serial killers são homens, e não mulheres. Muitas vezes, porém, são as mulheres - especialmente as mães - que despertam o ódio dos assassinos. Por que você acha que temos mais homens do que mulheres que matam por prazer?

Existem bem poucas mulheres serial killers. As mulheres tendem a absorver experiências ruins para si e não descontar nos outros. Então elas entram em relacionamentos abusivos, se prostituem ou se isolam. Costumamos dizer que a maioria dos serial killers está agindo sob influência química, e essa química é a testosterona. Os homens simplesmente tendem a ser mais agressivos e fisicamente hostis que as mulheres, e sua sexualidade tende a não ser tão complexa ou sutil como a das mulheres, o que os leva a crimes de motivação sexual. O único tipo de assassinato em série em que vemos um número razoável de mulheres é de mortes em hospitais, por exemplo, onde a motivação pode ser a de querer virar uma heroína ou por vingança.

Você tem algum tipo de acompanhamento psicológico constante para não ser afetado pelas histórias que ouve ou, após tantos anos nesse trabalho, aprendeu a separar o profissional do pessoal de maneira saudável?

Você desenvolve técnicas para lidar com tais assuntos à medida que cresce na carreira. Chega um certo ponto em que consegue separar o pessoal do profissional, como um médico ou um enfermeiro que precisa lidar com um paciente gravemente doente ou ferido. Mas, fora isso, é muito importante ter uma vida plena e um forte sistema de apoio emocional ao seu redor.

Algumas das características que vimos em comum nos casos mostrados no livro De Frente Com o Serial Killer são problemas familiares na infância, jovens com tendência a matar animais e problemas nas relações sociais em geral. É possível identificar um certo perfil de assassino com base nessas características?

Essas características são comuns entre os serial killers, mas, no momento em que eles matam, é mais interessante observar seus comportamentos mais recentes para ajudar a identificá-los e capturá-los. Dito isto, no entanto, se você tem um filho cruel com animais ou com outras crianças, você já tem um problema sério que exige intervenção. Se não houver intervenção, podemos quase garantir que essa criança vai crescer com traços de personalidade sádicos e antissociais que podem facilmente levar a crimes violentos.

Algo que vimos em comum entre todos os criminosos que você retrata no livro é que, apesar de terem alvos que parecem específicos, nas entrevistas você identificou que qualquer pessoa vulnerável poderia ter sido uma vítima deles. Você acha que somos todos vítimas ou assassinos em potencial?

Cada assassino tem uma personalidade, e alguns têm preferência por alguns tipos de vítimas do que outros. Alguns preferem pessoas vulneráveis, o que significa que eles podem atacar crianças pequenas, mulheres idosas, prostitutas ou mulheres sem-teto sem distinção. Já Ted Bundy, por exemplo, tinha em mente um tipo particular de vítima feminina. Mas todos estamos sim vulneráveis em algum nível.

Mais Livros e HQs