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Priscilla Alcântara: a moderninha da música cristã que é febre entre millennials

Retrato de Priscilla Alcântara - Lucas Seixas/UOL
Retrato de Priscilla Alcântara
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

30/08/2019 04h00

Priscilla Alcântara, 23, não consegue sorrir, mas não se trata de arroubo de marra ou antipatia. A ex-apresentadora do Bom Dia & Cia, agora cantora cristã em tempo integral, acaba de passar por um procedimento de rinoplastia, após anos batalhando contra a própria imagem. "Meu nariz me incomodava desde a adolescência. Mas acho que foi a hora perfeita para fazer. Eu estou muito feliz", diz ela ao UOL.

Priscilla Alcântara - Lucas Seixas/UOL
Priscilla Alcântara
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Filha de músicos/pastores evangélicos, Priscilla é um dos grandes acontecimentos do gospel jovem, embora ela não goste de se definir pelo termo. Seu álbum mais recente, Gente (2018), o 5º da carreira, entrou com nove faixas no top 200 do Spotify, um marco para uma artista do gênero que já vem sendo comparada à sumidade Aline Barros.

Mas Priscila, cantora e compositora, é diferente. Seu discurso é mais moderno, aberto à diversidade, reformista. Pastora sem título, ela diz não querer converter ninguém com sua música, que traz pegada pop eletrônica e fala de Deus e espiritualidade por meio de metáforas. Ela é pop demais para ser taxada como gospel. E gospel demais para ser rotulada como pop. E é por esse caminho do meio que ela quer seguir e deixar rastro.

"É um caminho difícil porque tem preconceitos dos dois lados, mas eu foco nos meus resultados. E tem muita gente que entende o que estou fazendo, graças a Deus", comemora a jovem.

Estou experimentando uma coisa nova, vendo como é. Se eu tiver que apanhar, vou apanhar. Mas não vou abrir mão por causa das dificuldades. Sei que estou desbravando algo muito grande, que pode beneficiar muitos outros artistas.

Quando a música falou mais alto

Ex-parceria de Yudi no SBT, Priscilla sempre sonhou em ser cantora, mas os caminhos da televisão a levaram ao posto de apresentadora infantil. Com a música em segundo plano, ela cresceu nos estúdios de TV, onde permaneceu dos 9 aos 17 anos, até o dia em que soube pela imprensa que havia sido demitida do Bom Dia & Cia. Era a chance de retomar planos antigos.

"[Sair da TV] Foi estranho", relembra. "Eles explicaram o que estava acontecendo. Que não havia mais projetos para mim. Foi literalmente do dia para a noite. Naquela época, na minha cabeça, só a televisão era o que podia dar certo. Eu não tinha perspectiva de me conhecerem como cantora. Eu insisti na TV e comecei a produzir programas independentes, mas, graças a Deus, compreendi ali que precisava encerrar essa fase. Voltar ao que eu realmente queria".

Estilo fora da curva

Basta um olhar para perceber que Priscilla foge do estereótipo de cantora gospel. Ela é despojada, fala gírias e é adepta do estilo sport chic —já raspou parte do cabelo e o tingiu de rosa. Frequentadora da igreja neopentecostal Bola de Neve, da Marcha para Jesus e fundadora da Até Sermos Um, projeto anual que promove a união de igrejas evangélicas, ela defende o estado laico, é contra o proselitismo e diz respeitar a união entre pessoas do mesmo sexo.

Meu papel é trazer pessoas para perto de Deus. Minha verdade é a da Bíblia. Minha verdade é heterossexual. Sobre a comunidade LGBT, eu não vou ficar falando de condenação. Eu prefiro tentar trazê-la para perto da minha verdade. Eu quero pregar para eles o amor de Deus e mostrar que, para mim, são pessoas dignas de respeito como quaisquer outras.

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Imagem: Lucas Seixas/UOL

Contra a intolerância

Sobre a atual onda de intolerância social, que vem invadindo âmbitos da religião à política, a ex-apresentadora confessa um profundo incômodo, incluindo por atitudes e declarações da bancada evangélica e do presidente Jair Bolsonaro. "Costumo chorar muito por isso", revela. "Foi a partir desse problema [intolerância] que resolvi escrever a música Empatia, que está no meu último álbum, em que quis praticamente implorar que a gente passasse a se ver um no outro, indo além das divergências."

Para Priscila, a diversidade não deve apenas ser tolerada, mas incentivada tendo como base o respeito. "Hoje o ser humano quer tomar para si o poder de convencer o outro. Tenho certeza que nenhuma pessoa é capaz de convencer a outra. Você vai acreditar no que você quiser. Falando mais numa linguagem de igreja, às vezes as pessoas querem ser o Espírito Santo, sabe? Eu não me ouso colocar nesse lugar."

Lucas Seixas/UOL
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Rompendo barreiras do gospel

Entre as referências músicas e estéticas de Priscilla, fã da série Crônicas de Nárnia, estão Beyoncé, Michael Jackson, Freddie Mercury e Aline Barros. Mas ela tem uma visão crítica sobre o meio gospel: o gênero teria se afastado de suas origens na arte, passando a se comunicar apenas consigo mesmo. A opinião é polêmica e já rendeu muitas críticas de alas ortodoxas, mas ela insiste na tese de que é preciso abrir um novo nicho no meio, que fale diretamente a geração millennial: jovem, desencanada e evangélica.

"Por muito tempo, houve uma ruptura entre a Igreja e arte. A Igreja conseguiu artisticamente servir só a si mesma. Acho isso, de certa forma, medíocre", afirma Priscilla, que quer romper barreiras no mercado cristão, de parcerias seculares a inclusão de novos ritmos. "Por que não ter um artista cristão inserido nos grandes festivais de música? A arte cristã atingiu nível de excelência e de linguagem que já pode ir além dos muros da religião."

Priscilla Alcântara - Lucas Seixas/UOL
Priscilla Alcântara
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Marquezine: "Fale de mim, mas não fale de minha amiga"

Outro ponto que joga Priscilla para fora da curva no mundo cristão: ela tem acesso ao universo das celebridades e é amicíssima de Maisa Silva e Bruna Marquezine, que conheceu após a atriz comparecer a um de seus shows no Rio. O entrosamento foi instantâneo, e hoje as duas não se desgrudam. São fotografadas juntas em cultos e projetos beneficentes.

Em março deste ano, Priscilla chegou a discutir com o deputado Marco Feliciano no Twitter quando o pastor criticou o trabalho humanitário promovido por ela e Marquezine em Angola. "Olha, eu tenho um acordo de não me justificar nas redes sociais. Não respondo comentário de hater. Mas naquele dia a gente estava vulnerável. Eu me arrependo por ter discutido, mas não pelo que eu falei. Eu faria tudo de novo."

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Imagem: Lucas Seixas/UOL

Um Grammy no futuro?

Se a música é um caminho sem volta, onde Priscilla Alcântara se enxerga daqui a cinco, dez anos? A resposta vem com bom humor e sem rastros de modéstia. "Deus vai estar sempre comigo, porque respiro Deus. Mas quero estar ganhando um Grammy, cantando em inglês. Isso é um fato. Também quero pegar um 'green card'", brinca, aos risos.

"É brincadeira, mas ao mesmo tempo não é. Vai que pode ser verdade. Sonho com coisas impossíveis, sim. Quero continuar propagando minha verdade e alcançando pessoas. Quero continuar dialogando com máximo de gente que eu puder e deixando um legado. Nada do que a gente faz para na vida é ao acaso. Precisamos construir coisas para as próximas gerações."

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