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Regina Duarte diz que as artes estão acima de ideologias e critica Roberto Alvim

O diretor teatral Roberto Alvim encontra-se com o presidente Jair Bolsonaro - Reprodução/Facebook
O diretor teatral Roberto Alvim encontra-se com o presidente Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução/Facebook

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

21/06/2019 12h47

A atriz Regina Duarte usou seu Instagram para criticar a "criação de uma máquina de guerra cultural" sugerida na terça-feira pelo diretor de teatro Roberto Alvim. O dramaturgo foi anunciado recentemente pelo ministro da Cidadania, Osmar Terra, como novo diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte. A nomeação, no entanto, ainda não foi publicada no Diário Oficial.

Horas depois de ter escrito o texto, Alvim voltou ao Facebook para dizer que a "guerra" não se referia a orientações ideológicas, muito menos partidárias. Sua intenção seria criar uma associação com artistas que se alinham ao conservadorismo. "Jamais disse que, para fazer parte desse banco de dados, seria necessário apoiar o atual governo", escreveu.

A atriz Regina Duarte, que apoiou o presidente Jair Bolsonaro na última eleição, escreveu no Instagram que "a arte se encontra em patamar sagrado, acima das ideologias" e que "o diretor Alvim tem extrapolado em declarações polarizadas porque certamente se encontra sob efeito de uma crise pós-traumática".

Na sequência, ela ponderou que o diretor teve essa reação após um suposto boicote que ele estaria sofrendo por ter se posicionado a favor de Bolsonaro e, como consequência, tenha tido que fechar o seu teatro, o Club Noir, em São Paulo.

"Quem perde um Teatro, perde um filho. Em virtude disso não consigo esperar dele que assuma com sensatez, com equilíbrio, as declarações que tem feito nas últimas 24 horas", disse. "Não conheço Alvim pessoalmente. No entanto tudo que li, todas as referências que tenho tido sobre seus trabalhos de direção por mais de 20 anos falam dele como artista de grandeza excepcional".

Hoje, no Facebook, Roberto Alvim publicou um novo texto dizendo que a classe teatral brasileira foi "doutrinada pela marxismo cultural e impôs violentamente os seus dogmas ideológicos a qualquer um que quisesse fazer teatro no Brasil', escreveu. "Isso é guerra cultural que eles vêm perpetrando há pelo menos 20 anos (...) Há um grupo de artistas que acredita no conceito de obra de arte. E há um segundo grupo para o qual a arte é apenas um veículo de propaganda ideológica esquerdista. No entanto, este segundo grupo que vem a público bradar que 'arte não tem ideologia', num típico procedimento gramsciano".

Em resposta, Regina Duarte voltou ao Instagram com uma nova mensagem em que diz que "o momento é de nos unirmos de forma apartidária. O momento é de não cairmos em armadilhas que possam nos dividir, nos empobrecendo ainda mais".

Sobre Roberto Alvim, Diretor de Teatro: O Teatro Club Noir era um filho, tinha pouco mais de 10 anos . Era um braço forte da inegável criatividade artística da cidade de São Paulo . Alvim e Juliana Galdino se dedicavam a ele com paixão e tudo desmoronou depois que ele declarou seu apoio a Bolsonaro. As retaliações fascistas/agressivas de uma facção da classe artística fizeram com que o casal perdesse o filho amado . A meu ver o diretor Alvim tem extrapolado em declarações polarizadas porque certamente se encontra sob efeito de uma crise pós-traumática . Quem perde um Teatro perde um filho . Em virtude disso não consigo esperar dele que assuma com sensatez , com equilíbrio, as declarações que tem feito nas últimas 24 horas . São declarações com as quais não concordo . A ARTE se encontra em patamar sagrado, acima das ideologias . Não conheço Alvim pessoalmente . No entanto tudo que li, todas as referências que tenho tido sobre seus trabalhos de direção por mais de 20 anos falam dele como artista de grandeza excepcional . Alvim encenou mais de 100 espetáculos no Brasil e no Exterior. Ganhou todos os prêmios mais importantes do Teatro Brasileiro ( APCA, BRAVO. SHELL, GOVERNADOR do ESTADO, etc). É professor de Artes Cênicas há quase 20 anos. Na semana passada ele me ligou falando de um projeto lindo - uma Companhia Nacional de Teatro- , com proposta de encenar textos clássicos da Literatura e excursionar com eles por todo o país . Fiquei encantada . Minha raiz no teatro amador fez com que eu vislumbrasse um futuro radioso para artistas e plateias desse nosso tão querido Brasilzão. Afirmei de imediato que podia contar com meu apoio para o importante desafio . Agora... sou supreendida por declarações dele na mídia que repetem o chavão polarizado que sempre abominei . Um tipo de radicalismo que se iniciou lá atrás , no tempo das últimas Eleições . Pelo amor de Deus !!! Quando é que vamos poder voltar a exercer o nosso ofício em PAZ ...?! Termino aqui com um pedido a todos os meus companheiros de classe : Não vamos agora ceder à tentação de mais uma vez , raivosos, polarizar. O momento é de nos unirmos evitando armadilhas que nos dividam. ReginaD

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Relembre o caso:

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro disse que havia ligado para Alvim após ter tomado conhecimento de que o diretor estava sendo perseguido por se declarar conservador, cristão e eleitor de Bolsonaro. O diretor, em seu Facebook, revelou que se converteu ao cristianismo após passar por um tratamento de retirada do tumor do intestino.

Como apoiador do presidente Bolsonaro, Alvim disse que passou a receber ataques do setor cultural e que foi obrigado a fechar o seu teatro, o Club Noir, na Rua Augusta, aberto em 2006.

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