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Virada Cultural


Após uma década ausente, Luiz Ayrão lança álbum e faz shows na Virada Cultural

Divulgação
Imagem: Divulgação

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

18/05/2019 04h00

Aos 77 anos, Luiz Ayrão, um dos mais populares sambistas dos anos 1970 e 1980, está de volta ao cenário musical. Após uma década sem lançar um álbum, chega às plataformas digitais "Um Samba Merece Respeito". Com sete faixas e com participações especiais do naipe de Zeca Pagodinho, Zeca Baleiro, Alcione, Diogo Nogueira, Monarco, Péricles, Demônios da Garoa, Xande de Pilares e Toninho Geraes, o veterano sambista comemora os 50 anos de sua primeira gravação.

Com um trabalho que apresenta diversas facetas do samba, do samba de terreiro ao samba de breque, Luiz Ayrão prepara-se para se apresentar, neste final de semana, na Virada Cultural de São Paulo (no sábado, às 18h, no CEU Parque São Carlos; no domingo, às 15h, no CEU Cantos do Amanhecer). Com disposição renovada para encarar os palcos de todo o país, o cantor, nesta entrevista exclusiva, dá mais detalhes sobre seu novo álbum e relembra passagens de sua carreira.

UOL - O que aconteceu para ficar tanto tempo sem lançar um trabalho?

Luiz Ayrão - Eu gravei um CD com 12 músicas em 2013, mas não lancei. Achei que não era a oportunidade. O mercado está muito complicado. Mas eu não parei. Continuei a fazer meus shows, tenho meu público. O surgimento das redes sociais facilitou um pouco e tenho uma equipe muito boa divulgando meu trabalho na internet. Como em muitas coisas em minha vida, esse disco nasceu por acaso. Peguei um samba de breque de meu pai, que nem título tinha. Ele era militar e não podia seguir carreira artística. Guardei de cabeça várias músicas dele. Essa eu sempre cantava para os amigos e todos diziam que eu tinha que gravar. Num belo dia resolvi registrar e me sugeriram que chamasse o Zeca Baleiro, que é um grande amigo, para participar. A música tem 70 anos e nem título tinha. Batizei-a de "Tentação do Malandro". Depois, o Zeca Pagodinho chegou.

Aí você se animou com a ideia de um álbum?

Exatamente. Um músico da minha banda me sugeriu que eu fizesse um EP, com quatro músicas. Daí surgiu a ideia de chamar outros convidados e todos foram vindo.

Luiz Ayrão durante apresentação - Luis França/Agência Tobias/Divulgação
Luiz Ayrão durante apresentação
Imagem: Luis França/Agência Tobias/Divulgação

Você aproveitou alguma coisa do disco que não foi lançado?

Apenas uma música. O material é todo recente. A minha intenção é dar uma mexida neste material não lançado, refazer algumas bases e lançar em breve pela Universal, que comprou todo o meu acervo de fonogramas, que era da EMI e da Copacabana, e relançou quatro ou cinco discos meus. Após esse relançamento, um novo trabalho entrou na pauta. A gravadora se interessou em lançar nas plataformas digitais. Lançamos "Tentação do Malandro" no dia 10 de maio e lançaremos "O Samba Merece Respeito", nesta sexta (17). O resto do material estará disponível no dia 24.

Ou seja, você acabou lançando singles.

Exatamente. E escolhi para sair, nesta semana, "O Samba Merece Respeito". Eu gravei esse samba há uns 20 e poucos anos. Meu filho sempre gostou dessa música, apesar de não ter feito sucesso, e me sugeriu que regravasse. Dei uma atualizada na letra e melodia, mudei a harmonia, mas não mexi na essência. E chamei o Diogo Nogueira, filho de meu querido amigo João Nogueira. Aí convidei a Alcione também e ela veio.

E aí o projeto ganhou corpo. Como foram os outros convites?

Me animei e comecei a gravar músicas inéditas e convidando amigos. Xande de Pilares participou de "No cravo e na ferradura". Com os Demônios da Garoa, gravei "Fina Ironia". Péricles canta comigo "Oxitocina", que é uma música bem interessante, sobre o hormônio do amor. Toda vez que sentimos ternura, liberamos esse hormônio. Também tem "Pobre Passarinho", uma canção que o Monarco fez para mim e que ele participa da gravação. Essa é a única música do CD que ficou engavetado, mas que foi totalmente regravada, com um novo arranjo. E o Toninho Geraes canta comigo "Pétalas de Rosa", que é a música que mais gosto, com uma pegada de samba de terreiro, daqueles que era cantado nas quadras de escolas.

Existe a possibilidade de lançamento em formato físico?

Certamente, a gravadora vai esperar a repercussão para lançar em CD. O momento está parecendo um pouco como era quando comecei. Você lançava um compacto. Se ele desse certo, você era chamado para lançar um LP. Espero que tudo dê certo para que o projeto cresça.

Você completa 50 anos de sua primeira gravação e afirma que nunca pensou em ser cantor. Por que isso acabou acontecendo?

Eu tinha 16 anos e morava no Lins de Vasconcelos (subúrbio do Rio). Debaixo de uma mangueira na frente de casa, fiz "Nossa canção", que hoje conta com 60 regravações. A casa não existe mais, mas a mangueira está lá até hoje. Oito anos depois, levei a música para o Roberto Carlos, que havia sido meu vizinho no Lins. Depois de mostrar três canções que ele não aprovou, apresentei essa para ele e ele gostou. Essa música abriu muitas portas para mim. Era uma época em que as rádios anunciavam o nome do compositor e comecei a ficar conhecido. Mas eu não pensava em ser cantor. Tinha me formado em direito e trabalhava na área.

E como você virou cantor?

Um dia eu estava em Ipanema e aí me apareceu o Nelson Motta vindo me falar que tinha duas músicas minhas classificadas no festival da TV Excelsior, que se chamava "O Brasil canta no Rio". Eu tinha inscrito, mas nem tinha visto o que tinha dado. Fui lá e descobri que uma delas, "Liberdade, liberdade", não tinha intérprete ainda. O organizador do festival falou que a queria no evento porque ela daria polêmica. Detalhe: faltavam poucos meses para o AI-5. Eu não achei ninguém disposto a cantar, com medo de ser preso. Acabou que eu defendi a música no festival. Metade da plateia aplaudiu, a outra vaiou. No camarim, um senhor veio falar comigo e disse que a música estava desclassificada. Ele era o coronel, interventor da TV Excelsior. Nisso chegou um cara alto, todo desengonçado, cabelo meio aloirado, me chamando para gravar um disco na RCA Victor. Era o Rildo Hora (risos). Fiz quatro compactos. Era uma época em que as gravadoras estavam começando a prestar atenção no samba e contratando Martinho da Vila, Antonio Carlos e Jocafi, dentre outros.

Foi o início daquela onda do samba que se estendeu pelos anos 1970.

Exatamente. Mas eu tinha outras prioridades. Tinha um cursinho, dava aula de português e matemática, por mais controverso que isso pareça (risos). Me dediquei à advocacia, trabalhava com direito tributário. Por volta de 1973, Romeu Nunes, um diretor amigo da RCA, tinha ido para a EMI e me encontrou na rua. E ficou me perturbando, dizendo que eu tinha que ser cantor e não advogado. De toda forma, mandei três músicas numa fitinha K7 e me chamaram para assinar contrato. Ao chegar na gravadora, me botaram no estúdio para colocar a voz nas músicas. Dois meses depois, eu estava em primeiro lugar em todas as paradas do Brasil.

Como você vê o cenário atual do samba?

Como diz Nelson Sargento, o samba agoniza, mas não morre. Falando como músico, o samba é um ritmo maravilhoso, com harmonias que propiciam melodias lindas. E ainda é o nosso gênero mais reconhecido lá fora. No estrangeiro, todos só querem saber do samba. E está voltando a atingir a juventude um pouco mais esclarecida. Com a internet, a garotada está conhecendo meu trabalho. Tem muita gente de 18, 20, 25 anos indo aos meus shows. E pergunto como eles conheceram. Muitos conheceram pela internet e outros dizem que foram criados ouvindo minhas músicas. Isso é maravilhoso. Estar na Virada Cultural, neste fim de semana, é fantástico. É uma oportunidade ainda maior para trazer novas pessoas para o meu trabalho.

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