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Los Hermanos, a grande banda de rock do Brasil no seu maior estádio

Bruna Prado/UOL
Los Hermanos faz show no Maracanã Imagem: Bruna Prado/UOL

Matias Maxx

Colaboração para o UOL, no Rio

2019-05-05T09:00:47

05/05/2019 09h00

"No Rio de Janeiro a gente tocou em todos os lugares, desde os mais pequenos e escondidinhos?", foi a maneira carinhosa que o sempre sorridente Marcelo Camelo apresentou ontem para o público do Maracanã o maior hit do Los Hermanos, "Anna Julia", supostamente uma música dessa época.

Eu tava lá no segundo show da banda, em 1998, abrindo pro Autoramas no segundo andar do Empório, um extinto bar de rock em Ipanema, da época que existiam bares de rock no Rio e não bares temáticos de rock para servir gringos.

A casa tava lotada, tinha tanta fumaça que daria pra cortar com uma faca e umas cem pessoas muito curiosas com aqueles seis manos de terninho fazendo um hardcore que falava de amor, frustração e Carnaval (eram seis, dois ficaram pelo caminho, o saxofonista Carlos Jazzmo e o baixista Patrick Laplam, que tá na cena até hoje).

"O Barba tocava com pedal duplo", falou na festa pós show André Nervoso, na época baterista do Autoramas, "pedal duplo é foda, mas nada a ver com Los Hermanos hoje em dia".

Nessa época já tinham várias músicas em ode às musas da banda, como "Bárbara" e outras que acabaram nunca sendo gravadas. Mas "Anna Julia" veio depois do estrondoso show no Abril Pro Rock de 1999 que lhes rendeu contrato com a Abril Music e o estrelato.

"Anna Julia era uma piada, né?", arrisca me contar Amarante até ser interrompido por uma multidão de fãs pedindo selfies na festinha pós show, ali no Maraca, com vista pra Estação Primeira de Mangueira. "Por favor galera, sem foto", dizia o Amarante, que no final das contas acabou não conseguindo concluir a história.

As turmas do metrô

Peguei o metrô rumo ao Maraca desde Ipanema. A estação estava mais lotada do que o normal e nela se via claramente duas galeras, aqueles que vestiam a cor verde, geralmente acompanhada do vermelho e amarelo, e voltavam do seu evento mais importante do ano, a Marcha da Maconha, uma tradição de 17 anos acontecendo pela primeira vez no governo Bolsonaro. A outra galera, maior a cada estação, vestia predominante preto, mas também muitas estampas e tatuagens, e também iam rumo ao seu evento mais importante do ano, talvez da vida, o show do Los Hermanos no Maraca.

A cada estação o vagão parecia mais com uma lata de sardinha. É louco ver tanta gente jovem a ponto de este ser seu primeiro show do Los Hermanos. Começa a passar na minha cabeça o filme dos meus primeiros shows da banda.

O começo de tudo

Àquela época, 1998, o Rio de Janeiro fervilhava de boas bandas de um rock sempre criativo e doideira como Soutien Xiita, Piu Piu e Sua Banda, Los Djangos e Sex Noise na zona norte e subúrbio, o hardcore do Cabeça, Wacky Kids e Claro Que Não na zona sul, e as estrelas Acabou La Tequila e Planet Hemp, que dispensam apresentações

Antes de a banda existir eu já conhecia o Marcelo Camelo e o Alex Werner (o cara que inspirou Anna Julia, hoje produtor do Los Hermanos), que faziam um zine chamado "Doostraw" onde entrevistaram a maioria dessas icônicas bandas dos anos 90.

Quando eu entrei no curso de jornalismo da PUC, trombei o Camelo no meu primeiro dia de aula e ele fez questão de me explicar que lá tinham basicamente duas galeras, a do "pilotis" (mais playba), e a das "casinhas" (mais hippie), como era chamado a vila dos diretórios acadêmicos. "Lá tem um cara que tem uma banda de hardcore, e aqui (nas casinhas) tem a gente que também tem uma banda de hardcore", me explicou o Camelo, "mas é diferente".

Daquela galera meio hiponga das casinhas saíram um monte de criativos artistas e cascudos defensores dos direitos humanos, além do Los Hermanos, que acabou virando a banda de rock brasileira mais importante da década de 2000, título que para o bem ou o mal da cena mesmo após mais uma década hibernando eles mantêm. Afinal vivemos um contexto de pouca renovação pro rock, com algumas bandas mais antigas escolhendo o lado errado da Força só pra se tornar tipo uma banda de apoio de um comediante que de tanto rir dos outros se tornou a própria piada.

Bruna Prado/UOL
Marcelo Camelo durante show do Los Hermanos no Maracanã, no Rio Imagem: Bruna Prado/UOL

O show

Um Maracanã lotado vibrou com a abertura de "A Flor", e os quatro hermanos não conseguiam esconder sua alegria, com sorrisos maiores que o mundo. Rodrigo Amarante continua o mais gato e elegante, só um pouquinho mais grisalho; Marcelo Camelo tá igual, só um pouquinho mais barrigudo; Bruno Medina idem; e o Rodrigo Barba, que já era barrigudo, tá só mais peludo.

"Do Garage ao Maracanã" me falou um emocionado Bruno Medina, que confessou ficar preocupado antes do show, mas que na hora deu tudo certo, inclusive "acabei tocando de um jeito que nunca toquei antes, mas deu tudo certo".

"O Garage era aqui do lado né? Estou falando que agora a gente só toca aqui", me contou o Barba em referência à notória casa de shows da Rua Ceará, ali na zona norte, que abrigou grandes concertos da geração anos 90, incluindo o Los Hermanos várias vezes.

Quando tocaram "Sentimental", o estádio se iluminou feito um caleidoscópio de telas de celulares. "Pierrot" fez as arquibancadas tremerem que nem num Fla x Flu. Impossível não me lembrar de quando afoguei as mágoas ao som dessa música num show da banda após provavelmente minha primeira grande desilusão amorosa, há uns vinte anos, e pensei em quanta gente ali não fez o mesmo nos anos que seguiram.

Essa honestidade em fazer parte de grandes momentos da vida de muitos talvez seja um dos grandes trunfos da banda, que ainda assim conseguiu voltar aos palcos entregando um show de qualidade impecável, com direito até a música nova, "Corre Corre", cantada por seus fãs em uníssono, como se já fosse uma velha conhecida. Bonito demais de ver, graças ao Los Hermanos o rock brasileiro sobrevive sem ajuda de aparelhos.

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Rodrigo Amarante durante show do Los Hermanos no Maracanã, no Rio Imagem: Bruna Prado/UOL

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