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Pitty reconhece origem nordestina em "Matriz": "Nunca foi tão importante, até que se tornou"

Otávio Sousa/Divulgação
Imagem: Otávio Sousa/Divulgação

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

27/04/2019 04h00

O novo disco de Pitty, "Matriz", é resultado de uma espécie de terapia pessoal em que ela precisou revirar suas memórias para ser capaz de olhar tranquila adiante. "Eu estou em outro lugar, não no passado. Mas para chegar nesse futuro eu precisei dar uma olhada lá atrás. Dar uma futucada no baú", diz ela, em conversa com UOL.

Saudosismo? Retorno às raízes? Nem pensar. O trabalho está mais próximo de uma busca pela própria essência. E o reconhecimento de uma origem. "Pra mim nunca foi tão importante, até que um dia se tornou", conta. "Nesse momento, especificamente, em 2019, é importante falar sobre isso. (...) Sobre Nordeste, ou o Norte, lugares que não fazem parte do eixo, para mostrar que o Brasil é gigante e todo ele merece ser visto e respeitado."

Capa de "Matriz" - Divulgação
Capa de "Matriz"
Imagem: Divulgação

Com produção de Rafael Ramos, "Matriz" traz 13 faixas com participações de conterrâneos como Baiana System, Larissa Luz e Lazzo Matumbi e também conta com uma bela homenagem ao ex-parceiro Peu Sousa (em "Para o Grande Amor", composta por ele), morto em 2013. "Ele é um grande compositor e foi cedo demais. Ele não teve tempo de escoar toda a produção dele, que é incrível. Eu queria realmente fazer uma homenagem", explica.

À medida que o álbum se desenrola, várias "personas Pitty" vão surgindo ao longo das faixas, que têm no DNA o ecletismo de estilo e de temas. Estão lá a roqueira inquietante ("Bicho Solto"), a mulher que exulta as amizades ("Noite Inteira") e as raízes nordestina ("Roda", Bahia Blues"), a que prega o direito de liberdade afetiva ("Ninguém é de Ninguém"), a que não se exime da autoculpa ("Redimir") e a que tenta lidar com amores perdidos ("Motor", de Teago Oliveira, da também baiana Maglore).

Um dos temas centrais da música alternativa contemporânea --e do país como um todo--, a política está lá, mas diluída em entrelinhas. Segundo Pitty, diversidade é a palavra da vez. "Para se construir uma pluralidade democrática, é preciso ter visões diferentes. Se todos pensarem igual, entraremos perto de um pensamento ditatorial."

"MATRIZ"

Por que decidiu se abrir tanto nesse disco?

Saiu assim. Eu não queria, não foi intencional. Fui percebendo que o disco era esse à medida que foi sendo feito, fui percebendo ao vivo, na estrada. Tem um ano que estamos fazendo esse disco. Acho que é o processo mais longo que já fiz. Rafael Ramos ficou brincando, dizendo que era o "Bahia Democracy", nosso "Chinese Democracy" [em referência ao disco do Guns N' Roses]. Mas eu não tinha pressa mesmo. Nem queria forçar conceito ou ideia.

Mas qual é essa ideia?

É um disco que investiga relações do passado. E de olho no futuro. Parece ser um disco de origem, mas para mim soa muito futurista. É completamente inédito para mim. Nunca fiz isso antes. Eu estou em outro lugar, não no passado. Mas para chegar nesse futuro eu precisei dar uma olhada lá atrás. Dar uma futucada no baú. "Sol Quadrado", por exemplo, é uma música de 2002. Estava na primeira demo que mandei pra gravadora. Só que ela é completamente contemporânea.

E a mensagem de "Sol Quadrado" é forte, você diz que roubaram seu direito de decidir. Por que demorou tanto para lançar?

Não sou uma pessoa boa de matemática. Quantos anos são?

Dezessete!

Porra! Falando assim até dói. Dezessete! Nessa demo tinha 18 músicas, coisas em voz e violão, coisas que eu sampleei e não lembrava. Um dia Rafael foi lá em casa e falou: "Vamos abrir uns arquivos aqui. Você lembra disso aqui que você me mandou?". Eu disse que não. Ele continuou: "Como você deixou passar essa música, cara?". Ele mesmo não lembrava dela. Eu sampleava Pink Floyd. Era uma coisa bem prolixa. Mas "Sol Quadrado" cabe agora, é do tempo de hoje. Acho que não era para estar no primeiro disco. Não fazia parte daquela obra. Faz parte dessa.

Eles me disseram pra eu desistir
Depois me falaram pra eu concordar
Eles me roubaram o direito
De decidir o meu destino
Levaram embora a minha liberdade

"Sol Quadrado"

Divulgação
Imagem: Divulgação

A ORIGEM

Você fala com orgulho de sua origem nordestina. Qual é o sentimento que você tem hoje em relação à sua origem?

Hoje vejo de forma bem diferente. Pra mim nunca foi tão importante, até que um dia se tornou. Foi algo de perceber. É igual família. Você nasceu em uma família e, por mais que você saia dela, você sempre terá vindo dela. É um reconhecimento de uma origem, que talvez você não se identifique, ou identifique bastante. Não interessa. É um reconhecimento.

E você se identifica?

Nesse momento, especificamente, em 2019, é importante falar sobre isso. Porque a gente está no meio de discussões sobre imigração, origem das pessoas, valores. Sobre privilégios. Sobre questões sociais. Nesse momento, falar sobre Nordeste, ou o Norte, lugares que não fazem parte do eixo, é legal. Para mostrar que o Brasil é gigante e todo ele merece ser visto e respeitado.

Ao mesmo tempo eu sempre quis que minha música não fosse regional. Queria que ela fosse cosmopolita e pudesse se conectar com pessoas de qualquer lugar. Hoje o grande desafio é esse, ter consciência da origem, que eu tenho, sem ser bairrista. Porque no fim das contas, essa coisa muita fechada resulta em um hermetismo que não é legal.

Eu preciso falar dessa nossa verdade
Que vem do Nordeste
Nunca é tarde demais

"Roda"

Você já chegou a negar sua origem?

Nunca neguei. Mas também nunca ressaltei. É uma coisa de simplesmente ser. É mais simples. É o que é. Eu sou baiana. Sou uma roqueira baiana.

E "roqueira" é um termo péssimo.

[Risos] Eu falei brincando uma época que, quando eu morrer, se eu não deixar minha lápide pronta, vai ser uma merda. Porque vão botar lá na lápide: "roqueira baiana". Tem que deixar pronto o que vão escrever. Mas é um fato. Eu sou roqueira mesmo. E daí?

Ser do rock está muito além do que botar uma camisa preta. O rock é tão maior que isso, que o enxergo em outros lugares, de outras formas. Ele sempre existe e existirá. Porque não é só música. É forma de pensar. Jeito de se colocar na vida. Existir. E isso você encontra na postura de Elza Soares, por exemplo, no disco do "Rimas e Melodias".

É natural os ritmos populares serem fortes. Sempre foram. É da nossa cultura, do nosso país. Não vale a pena ter esse discurso ressentido e amargo. A gente tem que continuar fazendo obras que a gente ache relevantes.

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Imagem: Divulgação

O PÚBLICO

Seus últimos shows tiveram protestos contra Jair Bolsonaro. E seu público é diferente do fã tradicional do rock mais clássico, aquele que vaiou o Roger Waters por chamar Bolsonaro de neofascista. Esse novo público do rock está se tornando mais progressista?

Quem curte Roger Waters é uma galera mais das antigas. Tem dinheiro para ir para área VIP e tomar um uiscão enquanto assiste a uma música do Pink Floyd. A galera do Lollapalooza é outro rolê, não é um lineup de rock. É muito diverso. Acho que a galera que curte música alternativa hoje é a galera que curte tanto Post Malone quanto Arctic Monkeys. Eu sou essa pessoa.

No Lolla, senti que não havia ali nenhum espaço para a defesa do Bolsonaro por parte do público, como aconteceu no Roger Waters. Parecia que todos estavam do mesmo lado.

Também sinto isso. E acho ótimo. Por isso que me ligo tanto com essa época que a gente vive. Eu me identifico com essa galera jovem, emocionalmente e psicologicamente, porque eu entendo totalmente a ideia que eles defendem. Pra mim, o disco do Steve Lacy e tão interessante quanto o disco do Queens of the Stone Age. Eu consigo ter essa fluidez. Eu sempre fui assim. Mas antes eu era muito mais cobrada.

O mundo era muito mais fechado.

Muito, inclusive no meio do rock. Era tudo colocado em caixinhas. Você é metaleira, você é punk. Dentro do rock tinha as tretas dos punks com os carecas, com os metaleiros. Ou você era isso ou aquilo. Escolhe seu lado, seu time. Senão você não tem personalidade. Hoje essas barreiras estão mais permeáveis. Antes eu ficava fora do meu tempo. Eu ficava agoniada com essa parada de ter que ser uma coisa ou outra. Eu gostava de Bad Brains e reggae, e gostava de Madonna.

O BRASIL

Sei que você se considera feminista, combate o conservadorismo, mas evita o termo "esquerda", que hoje parece ter virado xingamento no Brasil. Por quê?

Sou progressista com certeza. E para ser progressista você não precisa necessariamente de esquerda. Mas existem milhões de espectros. Falar hoje só em direita e esquerda é um maniqueísmo que não cabe. Deixa a visão muito estreita. É limitante. Não importa se você é conservador ou progressista. O que importa é que somos democráticos. Isso para mim é importante. Todos os vieses políticos e ideológicos precisam ser respeitados, desde que sejam de acordo com princípios democráticos.

Acha que o momento de protagonismo da extrema-direita é perigoso, com traços de ultraconservadorismo?

Acho que é algo previsto. Por tudo que estava acontecendo. Pelo andamento de tudo desde 2013, no que foi chamado de Jornadas de Junho. Houve uma ruptura democrática muito forte, na minha humilde opinião. A partir dali a gente viu um crescendo dessa criminalização do pensamento progressista, não digo nem de esquerda.

E aí veio uma grande confusão sobre coisas que foram colocadas nesse balaio de esquerdismo que, às vezes, não tem nada a ver. Direitos humanos, direitos dos animais, o próprio feminismo. Colocaram tudo no mesmo balaio, numa nuvem confusa de ameaça comunista, que não passa de um delírio. Termos sendo banalizados sem que as pessoas pesquisem, "doutrinação marxista".

Isso tudo é cortina de fumaça para aumentar essa polarização. A gente não tem que perder tempo com isso. Acho que a gente tem que pensar em democracia. Em respeitar o direito de liberdade de expressão do próximo, seja ele de direita, esquerda, centro-direita, extrema-esquerda, extrema-direita. Não podemos ser antidemocráticos. É um grande risco. O resto é necessário. Para se construir uma pluralidade democrática, é preciso ter visões diferentes. Se todos pensarem igual, entraremos perto de um pensamento ditatorial.

O SER MÃE

Algo mudou em você artisticamente depois que virou mãe?

A única coisa que mudou foi que não tenho tempo para nada. Claro que deve ter mudado, mas nunca elaborei desse jeito. Lógico que muda. Não tem muito o que fazer. É de um jeito profundo. Antes, se eu tinha o tempo todo para mim, hoje eu preciso conciliar com necessidades da minha filha. Eu quero estar com ela. Eu quero estar presente na vida dela. É coisa mais prática do que subjetiva.

E para compor?

Agora eu tenho que fechar uma porta, brother. Sai todo mundo e pronto. Porque senão você não escreve. Escrever para mim exige concentração. Um barulhinho me tira o raciocínio.

Também sou assim.

Você consegue escrever ouvindo música?

Depende do que eu estiver escrevendo. Mas, no geral, acho difícil.

Como ouve o pensamento? [risos] Quando voltei a escrever com o Daniel [Weksler, baterista e marido da cantora], eu falava: "Dan, eu preciso encontrar o meu espaço dentro dessa casa de novo". Antes eu tinha a casa inteira. Podia escrever em qualquer lugar. Agora não, a casa é dela [Madalena, 2 anos]. Eu é que tenho que encontrar lugar para escrever. Trancar no estúdio, no banheiro, onde eu conseguir, e dar uma sumida.

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