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"Queria criticar situação econômica", diz baiano que viralizou "sorteando" boleto para pagar

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

18/04/2019 04h00

Estar com a corda no pescoço pode trazer sentimentos intensos de angústia, dor e desespero, mas um professor baiano resolveu transformar toda essa desgraça financeira em cenas da mais fina comédia de baixo orçamento.

Há uma semana no ar, o vídeo em que o funcionário público Aladiran Fernandes, 40, promove um sorteio ao estilo Tele Sena para pescar a conta que terá condições de pagar naquele momento já foi visto por mais de 8 milhões de vezes no Facebook.

Usando óculos escuros, ele faz as vezes de apresentador ao lado de duas amigas, Tainara e Carla, que interpretam assistentes de palco na brincadeira. O namorado de uma delas gravou o vídeo. O cenário é a cozinha da casa dele em Planalto (BA), com uma luminária piscando ao fundo em clima de show de TV de interior.

"Cruze seus dedos, você que mandou sua cartinha de cobrança, que me ligou, mandou um WhatsApp pedindo para comparecer na loja. Eu vou comparecer. Se sua cobrança for sorteada, tenha certeza, nega, nego, que eu vou aí te pagar", diz ele no vídeo, hilário.

Aladiran Fernandes, conhecido como Den Fernandes - Reprodução/Facebook
Aladiran Fernandes, conhecido como Den Fernandes
Imagem: Reprodução/Facebook

Em entrevista ao UOL, Fernandes, que é professor de inglês e português da rede municipal e recebe dois salários mínimos por 20 horas semanais, diz ter feito tudo no improviso e sem qualquer pretensão viral. O sucesso foi uma grande surpresa.

A ideia era usar o humor para criticar a difícil situação economia brasileira, expondo uma realidade comum a milhões de pessoa. "Fiquei muito surpreso com tanta repercussão", diz ele, comprovando a máxima de que o melhor do Brasil é o brasileiro.

"O vídeo foi baseado na minha própria vida, que é a mesma de muitos. Acho que foi por isso que ele alcançou tanta gente. Hoje em dia, todos estão sofrendo para esticar a renda e pagar as contas", diz ele.

Produzida para efeito humorístico, a montanha de contas mostrada não é 100% real, ao contrário da realidade que ele e amigos próximos vêm vivendo nos últimos anos com a avalanche de boletos.

Segundo Fernandes, nada sobra no fim do mês e, dependendo da época do ano, falta dinheiro até para fazer a feira. "Minha pendência é pagar as contas que mais gritam. O aluguel, por exemplo, não posso deixar de pagar. Tem mês que não consigo pagar o rapaz do mercado da esquina, por exemplo. É muita conta: luz, aluguel, farmácia."

Sem roteiro

Segundo o professor, o vídeo não teve roteiro. Só um ensaio foi feito, segundos antes da gravação. "O pessoal estava aqui em casa, e eu comentei que a coisa estava tão difícil que só conseguiria pagar uma conta esse mês. Aí resolvi improvisar uma brincadeira. Daí falamos: 'Vamos gravar'! Acabei sorteando a conta de água."

A paródia de Silvio Santos não é obra do acaso. "Ele é um ícone. E, quando se fala em Silvio, logo se pensa em homem do dinheiro. Nada melhor que lembrar dele nesse momento, o homem do dinheiro e da solução."

O professor baiano que recorreu ao humor para falar sobre sua dificuldade financeira - Reprodução/Facebook
O professor baiano que recorreu ao humor para falar sobre sua dificuldade financeira
Imagem: Reprodução/Facebook

E o futuro?

Haverá um momento de bonança, em que os salários aumentem progressivamente e os boletos a pagar deixem de representar sofrimento? O baiano, que atualmente cursa pós-graduação, não nutre tal expectativa. Pelo menos não durante o governo de Jair Bolsonaro (PSL).

"Com essa política econômica que está aí, beneficiando grandes empresas, nós, os menos favorecidos, ficamos sem perspectiva. Outro dia o quilo de feijão na minha região custava R$ 3, R$ 4, e agora já está em R$ 10. Talvez no próximo governo, com uma política para favorecer os pobres, a coisa melhore", conclui.

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